Declaração norte-americana abala ONU

Foto: AP

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Se a ideia de ignorar o Conselho de Segurança das Nações Unidas e intervir militarmente na Síria sugerida pela embaixadora norte-americana na ONU (Organização das Nações Unidas), Susan Rice, for concretizada, é pouco provável que a Rússia, China e muitos países árabes fiquem indiferentes à ação.

Em um encontro com jornalistas após a reunião fechada do Conselho de Segurança sobre a Síria na última quarta-feira (30), a embaixadora norte-americana admitiu que “intervir é a pior opção, embora, infelizmente, seja no momento a ação mais provável a ser tomada”.

De acordo com observadores das Nações Unidas, o governo Obama se declarou pela primeira vez disposto a violar a Carta da ONU, a exemplo da administração Bush que deu início a uma guerra ingrata no Iraque.

Um dia antes, a porta-voz do departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland, já havia pronunciado que a situação na Síria exige a aplicação do artigo 7º da Carta das Nações Unidas, que permite o uso de força armada para acabar com a ameaça à paz e segurança.

Em outras palavras, os EUA acreditam que o problema sírio só pode ser solucionado por meio de intervenção militar externa, com ou sem a aprovação do Conselho de Segurança da ONU e, ao que tudo indica, estão se preparando para botar seu plano em prática.

A mídia internacional, por sua vez, publicou extensivamente as declarações dos altos oficiais norte-americanos sobre a possibilidade de ação militar contra a Síria.

“A melhor maneira de evitar um cenário catastrófico é tentar cumprir o plano Annan. Os esforços devem ser feitos por todos de acordo com as resoluções do Conselho de Segurança da ONU”,se contrapõe o embaixador da Rússia na ONU, Vitáli Chúrkin, à respeito do assunto. Ainda segundo o diplomata, se isso não ocorrer, as conseqüências serão muito graves para a Síria e para toda a região.

A diplomacia chinesa, bem como diversos países árabes, também reiteraram sua posição a favor da não interferência nos assuntos internos da Síria.

“Todos os esforços para alcançar esse objetivo devem evitar a repetição na Síria da tragédia vivida por outros países árabes em virtude de uma intervenção externa”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Tunísia, Rafik Abdessalem, durante a Conferência dos “Amigos da Síria”, em fevereiro, na Tunísia.

Além do mais, até mesmo alguns representantes da oposição síria são terminantemente contra essa possibilidade. De acordo com Kadri Shamil, um dos líderes da Frente para a Mudança e Libertação, o encontro na Tunísia não visava solucionar o problema sírio, mas se tratava apenas de um golpe publicitário liderado pelos EUA para justificar uma possível intervenção externa no país.

A ameaça de atacar a Síria sem a aprovação do Conselho de Segurança tem sobretudo a intenção de pressionar Bashar Assad e obrigá-lo a renunciar.

Por esse motivo, os veículos internacionais bombardearam a população com a notícia sobre a “opção de iemenita” para Bashar Assad examinada por Moscou e Washington – isto é, a renúncia em troca de imunidade.

Nessa mesma esteira, entram as iniciativas de alguns países que decidiram aumentar as sanções econômicas contra a Síria e expulsar seus diplomatas, citando como motivo o massacre de Houle, embora a investigação ainda não esteja sequer finalizada.

Fato é que a vitória militar da oposição é pouco provável, assim como sua união parece impossível. Prova disso são as numerosas declarações sobre a renúncia do líder do principal bloco de oposição da Síria, Conselho Nacional Sírio, Burhan Ghalioun.

Por outro lado, é evidente que o regime de Assad tem um apoio muito maior entre a população do país do que se imaginava. Por isso, os EUA e seus aliados se empenham em derrubar, o mais rapidamente possível, Bashar al-Assad, amigo do Teerã e inimigo de Israel.

No entanto, ciente do destino de Gaddafi e Hussein, o presidente sírio parece estar resoluto a lutar até o fim, mesmo que Moscou considere necessário moderar sua posição, o que parece pouquíssimo provável. 

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