Exportação de grãos bate recorde pós-soviético

Foto: RIA Nóvosti

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Com ano agrícola ainda por terminar, país pode ocupar um lugar entre os três maiores exportadores mundiais de grãos.

A produção de grãos é um dos setores da economia russa que ganhou com a transição do socialismo para o capitalismo. Depois de décadas de experiência socialista, foram necessários 10 anos para que o país recuperasse o status de grande potência agrícola perdido na era soviética e se tornasse, de importador líquido de grãos, um dos maiores exportadores mundiais de trigo e de cevada. 

A exceção foi 2010, quando a Rússia foi oficialmente transferida da categoria de países importadores para a de exportadores em uma reunião do IGC (Conselho Internacional de Grãos). 

No mesmo ano, porém, uma grande seca destruiu um terço da safra de grãos do país, e Moscou decretou embargo às vendas de trigo para o exterior, provocando assim uma significativa alta dos preços no mercado mundial. 

“O preço da tonelada subiu em cerca de US$ 150. O retorno da Rússia ao mercado mundial, em julho de 2011, também foi acompanhado de flutuações significativas de preços. Após o levantamento do embargo, o preço da tonelada diminuiu em US$ 100”, diz o diretor executivo da União Nacional de Produtores de Grãos, Aleksêi Smorodov.

O recorde de exportação de grãos foi batido já em abril de 2012, segundo o diretor do departamento de análise dos mercados do Instituto de Conjuntura do Mercado Agrícola, Oleg Sukhanov. 

A Rússia conseguiu recuperar posição em mercados tradicionais como o Oriente Médio, Ásia Central, Norte da África e penetrar em novos mercados do Sudeste Asiático e da Europa. De acordo com dados relativos ao final de abril, o maior importador de grãos russos foi o Egito, com 6,8 milhões de toneladas, seguido pela Turquia, com 2,5 milhões, União Europeia, com 2,1 milhões, e Arábia Saudita, com dois milhões. 

“Para retornar ao mercado mundial após o levantamento do embargo, tivemos que vender nossos grãos a preços mais baixos. Mas isso durou pouco”, diz Smoródov.

No entanto, a Rússia não conseguiu restaurar completamente seu status. Até o Egito, o maior importador de grãos russo, age com cuidado e faz compras em pequenos lotes, devido ao risco, segundo o analista da Holding Financeira Internacional FIBO Group, Anatóli Vorónin. 

De acordo com ele, o país continua perdendo em licitações internacionais para os EUA, que oferece preços FOB (“free on board”, ou seja, isento de logística e seguros) da tonelada de trigo por US$ 12 a US$ 14 mais que a Rússia.

A escassez mundial de grãos facilitou o retorno da Rússia ao mercado externo. A Rússia, que pode produzir grãos de alta qualidade, coloca no mercado trigo de classe 4, normalmente destinado à alimentação, e trigo forrageiro, que é exportado inclusive com lotes de trigo das classes 3 e 4.

Segundo especialistas, esse é o perfil da demanda, que com tecnologias modernas de produção de pão permitem obter produtos acabados a partir de espécies de trigo de classes baixas graças ao uso de aditivos.

A principal razão por que a Rússia não pode aumentar a oferta de trigo de classes mais altas são o baixo investimento nos preparo do solo e em sementeiras, as secas dos últimos anos no sul da Rússia, principal região produtora de grãos, e problemas em termos de armazenamento de grãos (devido ao uso de equipamentos ultrapassados, muitos armazéns não são usados em sua capacidade máxima). 

No entanto, os produtores russos de grãos têm se esforçado para corrigir a situação. “A produção de grãos de alta qualidade aumenta seu valor e sua vantagem competitiva. Por isso, a União Nacional de Produtores de Grãos está agora empenhada em promover os grãos russos de qualidade em diversos países do mundo”, confirmou Smorodov.

De acordo com o programa nacional de desenvolvimento do setor agrícola para o período de 2013 a 2020, a produção bruta de grãos deverá aumentar em cerca de 30%, alcançando os 125 milhões de toneladas. 

Mas não será fácil atingir essa meta. Segundo Sukhanov, nos próximos três a cinco anos, será possível aumentar a produção de grãos em cinco milhões de toneladas, em média, desde que a conjuntura no mercado seja boa e a infraestrutura de transportes, em particular ferroviária, seja melhorada. 

Smorodov acrescenta ainda a necessidade de equilibrar mercado interno, cuja principal causa é a produção espontânea de algumas culturas e, consequentemente, gera uma baixa rentabilidade das culturas produzidas. 

Para exemplificar, ele diz que nos últimos 10 anos a Rússia produziu 50 milhões de toneladas de trigo por ano, enquanto sua demanda interna não ultrapassa de 28 a 30 milhões de toneladas. O excesso de trigo provoca uma grande volatilidade dos preços e não permite nenhum planejamento no que se refere a sua produção, enquanto outras culturas de cereais estão em falta no país. 

Para América Latina

Especialistas dividem-se quanto à possibilidade de a Rússia passar a exportar grãos para a América Central e do Sul, mencionada pelas autoridades do país desde em 2010. Anatóli Vorônin, por exemplo, acredita que o mercado brasileiro é muito interessante para a Rússia, considerando que o país poderia exportar para o Brasil cerca de dois milhões de toneladas de grãos.

O mercado da América Central e do Sul é pouco explorado por exportadores russos, e as vendas realizadas anteriormente foram intermitentes. A região é dominada pelos maiores produtores mundiais, EUA e Argentina, que oferecem preços muito mais baixo. Enquanto uma tonelada de trigo americano custa cerca de US$ 255 e de argentino, US$ 245, a Rússia cobra US$ 270 por tonelada. 

No entanto, de acordo com Aleksêi Smorodov, com a globalização crescente do mercado de alimentos, a distância e os custos de transporte deixarão de influir na exportação de grãos. Os principais parâmetros serão demanda e preço.

“A dependência de condições climáticas pela agricultura é um fator importante para a safra e, portanto, para o preço dos grãos. Por isso, as vendas de grãos russos à Ásia e à América Latina são possíveis caso haja condições econômicas necessárias”, diz Smorodov. 

No início de maio, foram divulgadas as primeiras previsões oficiais da futura safra de grãos na Rússia. Segundo o vice-premiê russo Víktor Zubkov, as colheitas permanecerão no mesmo nível do ano passado e não ultrapassarão os 94 milhões de toneladas. 

O político também destacou que as regiões sul do país têm poucas chuvas e que áreas plantadas com beterraba sacarina, trigo de inverno e trigo forrageiro estão em mau estado. 

Smorodov, por sua vez, acredita que serão colhidas, no máximo, 90 milhões de toneladas de trigo neste ano. Mesmo assim, a quantidade será, em sua opinião, suficiente para satisfazer as necessidades internas do país e manter as exportações na faixa dos 25 a 27 milhões de toneladas no ano agrícola de 2012/2013.

O consumo interno de grãos na Rússia é estimado em 67 milhões de toneladas. Segundo as estatísticas russas, no início de abril de 2012, as empresas agrícolas estocavam 25,8 milhões de toneladas de grãos. O excedente do ano passado será suficiente para manter um grande volume de exportações de trigo.

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