Pontes para a prosperidade

Ponte conectará dois lados de Vladivostok separados pela na baía do Chifre de Ouro Foto: TASS

Ponte conectará dois lados de Vladivostok separados pela na baía do Chifre de Ouro Foto: TASS

Cúpula da Apec gerou uma onda de construções no Extremo Oriente russo, mas moradores locais estão preocupados com o que virá depois.

A paisagem de Vladivostok está sendo transformada como parte dos preparativos para a próxima cúpula de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), que incluem a bilionária construção de duas novas pontes ligando o centro da cidade a uma península e a uma ilha.

Porém, os moradores da cidade, que passa por grandes dificuldades econômicas, estão preocupados com o que vai acontecer quando os recursos federais chegarem ao fim.

Em 1959, após uma visita à Califórnia, o líder soviético Nikita Khruschov convocou os moradores da cidade a transformá-la em uma “São Francisco russa”.

Meio século depois, líderes russos esperam realizar esse antigo sonho por meio de melhorias na cidade em preparação para sediar a cúpula da Apec no segundo semestre deste ano.

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As semelhanças entre as duas cidades são evidentes para o visitante de primeira viagem: edifícios e ruas contornam os morros ao redor da Baía do Chifre de Ouro, bondes percorrem as principais vias da cidade, turistas passeiam pela crescente Chinatown e há um porto em expansão ao Pacífico, constantemente coberto pela neblina.

Vladivostok possui até mesmo um clima político de tendências liberais. Enquanto na média nacional Vladímir Pútin angariou 63,75% dos votos nas últimas eleições, ali o presidente alcançou apenas 47,5%.

Guindastes e colonizadores

Historicamente, a migração gradual da Sibéria por colonizadores vindos de outras regiões mais povoadas da Rússia até chegar a Vladivostok não foi muito diferente do processo migratório nos Estados Unidos no século 19, decorrente da ideia de que esses deveriam se expandir por todo o continente.

Nos dias de hoje, Vladivostok resplandece enquanto os guindastes espalhados pelo centro montanhoso refletem os bilhões de dólares que o governo federal está injetando na cidade para a cúpula da Apec, agendada para setembro.

Uma península de Vladivostok é separada do centro pela baía do Chifre de Ouro; a nova ponte ligando as duas áreas deve aliviar os congestionamentos


A estreita e esburacada estrada do aeroporto, além de ampliada, foi elevada até três metros em alguns trechos, transformando-se em uma moderna via expressa com quatro pistas, e a inauguração do novo aeroporto também está prevista para este verão.

Dois hotéis Hyatt estão sendo construídos, e os monumentos, ruas e fachadas foram restauradas.

Um dos projetos mais impressionantes em fase de conclusão é a ponte para a Rúski, a ilha mais próxima de Vladivostok.

A ponte de três quilômetros de comprimento, parcialmente suspensa por mastros apoiados em duas ilhas artificiais, começou a ser erguida menos de três anos atrás. O mastro central alcança uma altura de 320 metros.

Ao ser concluída,  o resultado da gigantesca obra no valor de um bilhão de dólares será a mais longa ponte estaiada do mundo.

“Quando falamos sobre inovação e modernização, é isso”, diz Aleksandr Ognévski, secretário de imprensa do Ministério de Desenvolvimento Regional.

“Diversas companhias internacionais abandonaram a licitação, dizendo que não era possível cumpri-la, e uma empresa de Omsk acabou assumindo o contrato. A tecnologia e o conhecimento desenvolvido por eles neste projeto será aplicado em outros lugares do país e até mesmo no exterior”, completa.

A Ilha Rúski servirá de palco para a futura cúpula, depois da qual abrigará o campus da Universidade Estatal do Extremo Oriente.

“A Rússia passa por um declínio demográfico e universidades de todo o país estão enfrentando uma diminuição em número de alunos”, diz Vladímir Mikluchévski, 44 anos, governador e, até recentemente, reitor da universidade.

“É por isso que estamos estudando mercados como a China, Indonésia e Vietnã para atrair estudantes”, completa.

As autoridades esperam que o impressionante campus e generosos subsídios estatais oferecidos pelas universidades federais atraiam mentes brilhantes do mundo inteiro e estabeleçam diversos cursos fortes em áreas como biomedicina e tecnologia da informação.

Há ainda planos de estabelecer um parque tecnológico afiliado à universidade.

“O ensino superior do nosso país enfrenta dois grandes problemas: as universidades não sabem como produzir aquilo as empresas desejam, e as empresas não estão muitos interessadas em produtos inovadores”, afirma Mikluchevski.

“Por esse motivo, nossa universidade vai focar na criação de pequenas startups em conjunto com as maiores empresas mundiais.”

Emigração e desenvolvimento

 

O outro lado da história é mais triste, menos aparente, e tem a ver com o declínio demográfico da região.

Nos últimos 20 anos, 300 mil pessoas partiram para regiões mais hospitaleiras da Rússia ou para o exterior – isso representa metade da já pequena população de Vladivostok.

“Dos alunos que estudam chinês que eu conheço, pelo menos dois terços querem seguir a carreira no exterior após a formatura”, conta Víktor Lárin, diretor do Instituto de História, Arqueologia e Etnologia dos Povos do Extremo Oriente.

“A maior parte da infraestrutura da cidade está em ruínas, e o segredo para fazer com que as pessoas queiram viver aqui não está na construção de pontes que não levam a lugar nenhum”, completa.

“Todos estão preocupados com o que irá acontecer quando a cúpula terminar”, diz Vassíli Avtchenko, correspondente local do jornal Nôvaia Gazeta.

“Quase não temos nem mesmo uma produção local de frutos do mar. Gostaria que Vladivostok fosse conhecida como a ‘cidade do peixe’ na Rússia e as pessoas viessem aqui para saborear a gastronomia local”, completa.

Em meados de março, uma multidão de jornalistas lotou o primeiro andar do saguão de mármore da imponente Assembleia, no centro de Vladivostok.

Eles aguardavam os resultados da votação sobre a candidatura de Vladímir Mikluchévski, 44, para o cargo de governador.

Seu antecessor, Serguêi Dárkin, foi abruptamente demitido do cargo pelo então presidente Dmítri Medvedev depois de uma década no poder.

A notícia caiu como uma bomba para muitos dos moradores locais, que creditavam a Dárkin o lobby para obter os muitos recursos federais investidos na cidade.

Mikluchévski foi eleito com muitos votos, prometendo que transparência e combate à corrupção seriam os pilares de seu governo.

“A cúpula da Apec terá um impacto direto no desenvolvimento de Vladivostok”, disse Mikluchevski à Gazeta Russa.

“Os 200 bilhões de rublos [cerca de US$ 6,3 bilhões] de recursos federais investidos aqui vão melhorar a infraestrutura, sem a qual haveria uma barreira para futuros investimentos. Isso também colocará Vladivostok no mapa do mundo e tornará a cidade conhecida por todos os membros da Apec.”

“Ele é um bom gestor e não está atado às empresas locais e elites do crime”, diz Avtchenko.

“Mas tenho minhas dúvidas sobre quanta diferença pode fazer um indivíduo no atual sistema político da Rússia. Por outro lado, lugares como Cingapura mostram que isso é possível”, arremata.

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