Em busca de um equilíbrio

Foto: AP

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Seria errado entender a ausência de Vladímir Pútin na próxima cúpula do G8, em Camp David, como uma prova de uma guinada antiocidental e mudança de prioridades no cenário político internacional. Política russa procura estabelecer meio-termo para balancear seus relacionamentos com Ocidente e Oriente.

O anúncio sobre a não participação de Vladímir Pútin na cúpula do G8 nesta sexta-feira e sábado significa que o primeiro país a ser visitado por ele depois de ser eleito presidente pela terceira vez será a China, no início de junho.

No entanto, independente das razões políticas que tenham levado Pútin a assumir essa postura, as consequências internacionais da declaração não podem ser ignoradas.

Tanto a decisão de não ir a Camp David como o fato de ser substituído pelo atual primeiro-ministro Dmítri Medvedev na reunião são inevitavelmente analisadas no contexto de suas declarações antiocidentais anteriores, enquanto ainda era primeiro-ministro, e de suas divergências com Medvedev acerca da Líbia.

Também poderá ser erroneamente entendida como prova de uma  guinada antiocidental e mudança de suas prioridades no cenário político internacional. Porém, as prioridades externas da Rússia mudaram pouco desde a segunda metade dos anos 90.

A política russa de balancear entre o Oriente e o Ocidente se destaca por uma rara continuidade e coerência desde a presidência de Boris Iéltsin, que costumava usar as relações com a China como contrapeso à pressão ocidental.

“Ontem [o então presidente norte-americano] Bill Clinton se permitiu pressionar a Rússia. Deve ter esquecido por um segundo o que o país representa e todo nosso arsenal de armas nucleares”, disse Iéltsin durante sua visita à China em dezembro de 1999 na frente do então chefe de Estado chinês, Jiang Zemin.

Pútin, por sua vez, nunca ameaçou o Ocidente com armas nucleares durante suas visitas a Pequim, por mais truculentos que fossem seus discursos.

O presidente Iéltsin controlava pessoalmente os parâmetros básicos das relações russo-chinesas, encarando-as como prioridade essencial do país no cenário internacional. Foi durante a presidência de Iéltsin que os dois países firmaram uma parceria estratégica.

Nessa mesma época, o então chanceler russo, Evguêni Primakov, propôs estabelecer uma cooperação trilateral entre a Rússia, Índia e China no cenário internacional.

Mas, a política russa de balanceamento entre os países do Ocidente e os principais países emergentes sob o comando de Iéltsin foi vista nos EUA e na Europa como jogo ingênuo incapaz de enganar ninguém.

As dimensões da economia chinesa eram ainda pequenas e o comércio do país estava inteiramente orientado para os países ocidentais desenvolvidos. O papel econômico dos outros países que compõem atualmente o BRICS era insignificante e o intercâmbio comercial russo-chinês ultrapassou 10 bilhões de dólares somente em 2001 – atingindo, aliás, em 2011, cerca de oito vezes mais.

Durante o segundo mandato presidencial de Vladímir Pútin, a situação mudou de forma substancial: a China virou a segunda maior potência mundial e o maior parceiro comercial da Rússia. Nessas circunstâncias, novas perspectivas excitantes se abriram à política russa de balanceamento entre os principais centros mundiais de poder.

Esse fato foi explicitamente reconhecido por Pútin durante uma entrevista às principais emissoras de TV russas. Ao ressaltar que a China aspira à liderança mundial e tem vários  concorrentes nesse caminho, menos a Rússia, ele disse que seu país deixará eles disputarem entre si a liderança mundial e, enquanto isso, continuará reforçando suas relações com Pequim.

A alteração da situação internacional e a necessidade de prestar mais atenção à Ásia-Pacífico foram as principais razões por que os EUA decidiram “reiniciar” suas relações com a Rússia.

Mesmo assim, ainda não podemos dizer que a política de balanceamento seguida pela Rússia teve sucesso total. A afirmação da China como concorrente global dos EUA faz aumentar a importância da Rússia, embora dificilmente consiga converter essas mudanças em rápidos benefícios.

O melhor exemplo do uso das contradições entre as superpotências foi dado pela própria China durante a Guerra Fria. A aproximação sino-americana com base no antissovietismo entre os anos 1970 e 80 criou condições ideais para as reformas econômicas na China e determinou, em grande medida, seu êxito.

As condições para a aproximação entre os EUA e a China surgiram, o mais provável, em 1960, quando o Partido Comunista da União Soviética rompeu as relações com os comunistas da China e retirou seus especialistas do país.

No entanto, a presença nos EUA de vários centros de influência sobre sua política externa e a dependência da mesma da opinião pública local e de grupos de pressão estáveis impossibilitaram mudanças rápidas em tais relações: os passos reais para a normalização das relações com a China começaram só em 1969, com as consultas entre as embaixadas dos dois países em Varsóvia.

Ao criar uma sólida base para o desenvolvimento de relações com os EUA, a China procedeu, no início dos anos 80, à normalização das relações com a URSS. Como resultado, a partir do início da década de 90, o país começou a receber da Rússia tecnologias estratégicas e apoio político necessário no cenário internacional.

Possivelmente, os estereótipos negativos sobre a Rússia nos EUA não são tão fortes quanto aqueles sobre a China radicados no país na década de 1960, mas sua extinção levará certo tempo.

Para balancear com êxito, a Rússia deverá manter boas relações com ambas as superpotências.

 
Vassíli Káchin, especialista do Centro de Análise de Estratégias e Tecnologias


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