Bolshoi celebra 12 anos com Giselle

Uma camponesa inocente, um nobre galante, um amor impossível. Em coreografia de Vladímir Vassiliev, filial brasileira do balé mais famoso do mundo comemora 12 anos com montagem de Giselle no Teatro Nacional de Brasília.

Fotos: Nilson Bastian


Uma camponesa inocente, um nobre galante, um amor impossível. Giselle, um enredo típico do Romantismo, poderia soar anacrônico em pleno século 21.

Poderia, não fosse essa uma das peças de balé mais repletas de elementos interpretativos, genialmente representados pela coreografia de Vladímir Vasíliev.

Foi esse toque russo, dado pela Escola do Teatro do Bolshoi no Brasil, que o público pode admirar na noite de 10 de maio, em Brasília.

No palco, 80 bailarinos brasileiros, forjados na mais pura tradição russa da arte do balé, encantaram a plateia, que lotou a sala Villa-Lobos do Teatro Nacional para conferir o resultado de 12 anos de trabalho da filial da mais prestigiada companhia de dança do mundo.

O público acompanhou atento a história da camponesa bela e ingênua, interpretada com desenvoltura pela bailarina Amanda Gomes, 16 anos, formada pela Escola de Teatro do Bolshoi, em Santa Catarina.

Após a apresentação, a adolescente - que estuda cerca de oito horas por dia para alcançar a perfeição no papel de protagonista - não escondia a emoção pelo resultado de tanta dedicação.

“Tenho me esforçado muito, trabalhando diariamente para conquistar isso. Eu sonho em ir dançar na Rússia”, disse à Gazeta Russa.

O sonho é comum a outros alunos da escola, como o brasiliense Vítor Augusto de Oliveira, de 15 anos, que ingressou há um ano na instituição.

“Todo bailarino sonha em entrar para o Bolshoi, e eu consegui realizar isso. Estou muito feliz por dançar na minha cidade. É uma sensação muito boa, depois de passar um ano treinando para ficar perfeito”, conta o rapaz, que pretende conquistar uma vaga na Companhia Jovem do Bolshoi após sua formatura, dentro de sete anos.

Entre o público, repleto de alunos de balé, a conceituada escola de dança instalada no Brasil – e a única fora da Rússia - também provoca entusiasmo.

É o caso do estudante Gabriel Ribeiro, de 16 anos, há um ano cursando as aulas de dança. “No início foi bem difícil, principalmente no colégio, por causa das brincadeiras dos colegas, mas eu quero seguir carreira no balé. Meu sonho é entrar para o Bolshoi”, afirma o rapaz, que acredita faltar ainda muito investimento na área para que o mercado de trabalho se torne mais promissor.

Grandes desafios


O espaço para a dança existe, e o mercado brasileiro pode crescer muito. Quem garante é o presidente da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, Valdir Steglich.

“Tem espaço não só para a dança clássica como para a contemporânea. Temos vários bailarinos dançando com destaque em grandes companhias do Brasil e do exterior. O país é imenso e há ainda muitas regiões que necessitam iniciar os trabalhos nessa área”, disse Steglich à Gazeta Russa. 

O presidente explica que é justamente para fomentar o setor que a escola trabalha há vários anos.

Mais do que percorrer os Estados em turnês, o objetivo do Bolshoi no Brasil é valorizar a dança e formar cada vez mais e melhores bailarinos para atuarem no próprio país, mudando o cenário cultural e a realidade social dos brasileiros que optam pela dança.

Para o futuro, Steglich aponta que o grande desafio da Escola no Brasil será formar uma companhia de dança de prestígio e qualidade técnica semelhante ao Bolshoi russo.

A pretensão é grande, como o próprio nome da companhia, que significa "grande", em russo. 

“Como acontece com o futebol, onde há um campinho e uma escola em todo lugar, o Brasil precisa ter escolas como a nossa em cada cidade, para fazer com que as crianças se ocupem no período fora da escola regular estudando arte ou dança. A cultura ajuda a melhorar as condições de vida e a educação do povo”, defende Steglich.

Cerca de 90% dos alunos da escola são bolsistas, vindos de classes sociais menos favorecidas economicamente. Daí a importância, para os dirigentes do Bolshoi no Brasil, do papel social que a Escola representa.

“Nossa missão é descobrir artistas que se perderiam por falta de oportunidade de trabalhar seu talento. A Escola os lapida para serem grandes artistas e cidadãos”, completa.

Diretor-geral da Escola do Bolshoi no Brasil, o russo Pável Kazarian ressalta o aspecto profissionalizante da instituição.

“É claro que há todo o brilho da apresentação ao público. Como escola, a gente precisa sempre melhorar o nível do ensino, se dedicar à prática cênica. Mas o nosso objetivo final é fazer com que o aluno, ao se formar, tenha uma profissão. E nesse aspecto, temos obtido bastante sucesso: 67% dos nossos alunos conseguem emprego ao deixar a escola”, destaca Kazarián.

A instituição funciona como um atestado de qualidade para os profissionais que saem de lá. Desde 2007, já são 26 bailarinos atuando no exterior e outros 68 em companhias brasileiras de dança, além dos 12 formados que continuam trabalhando na sede da escola, em Joinville.

A força do nome Bolshoi atrai todo ano centenas de aspirantes a bailarinos, vindos de toda parte do Brasil, como Acre ou Piauí. A escola abriga hoje estudantes de 18 Estados brasileiros.

Cooperação


Essa parceria entre Brasil e Rússia tem rendido ótimos frutos, como atestam os bailarinos formados aqui que atuam hoje em grandes companhias de dança na Áustria, nos Estados Unidos e até na própria Rússia.

“A escola tem importância estratégica nas relações entre Rússia e Brasil. Além de ser a única filial da mundialmente conhecida companhia do Bolshoi, é o maior e mais importante projeto permanente do intercâmbio cultural entre os nossos países”, aponta o embaixador da Rússia no Brasil, Sergey Akopov.

No que depender da vontade política dos governantes russos e brasileiros, esse intercâmbio não deve ficar restrito às sapatilhas ou às chuteiras da escola de futebol brasileiro que funciona atualmente por lá, de olho na copa do mundo de 2018.

Brasil e Rússia costuram um grande acordo de cooperação cultural, que deve ser anunciado em alguns meses. A parceria deve se estender a áreas como música, artes cênicas, audiovisual, museus, esporte e educação.

Para 2013, os dois países negociam a realização dos Dias da Cultura Russa no Brasil e dos Dias da Cultura Brasileira na Rússia. Serão dezenas de exposições, apresentações teatrais e festivais de música e de cinema, além de eventos gastronômicos.

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