Vovós cantoras conquistam a Europa

Dezenas de correspondentes de diversos países têm ido a Buranovo, na república da Udmúrtia para conhecer o grupo de senhorinhas que despertaram um autêntico interesse no público e representarão a Rússia no concurso musical Eurovision.

Foto: Reuters / Vostock Photo

No vilarejo de Buranovo a água para uso doméstico ainda é extraída de poços artesanais. Para aquecer a casa e preparar a comida é preciso acender a caldeira e isso, consequentemente, requer uma boa quantidade de lenha. Para incrementar o orçamento cada família possui vacas ou porcos que exigem atenção constante, desde cedo até a noite. No verão, todos trabalham nas hortas, cultivando batatas e verduras. Ali a vida é essencialmente uma árdua tarefa física e, nesse sentido, muito pouco mudou ao longo dos últimos cem anos.

Não devemos, porém, sentir pena das senhorinhas que ali vivem. Satisfeito com seu estilo de vida, as ‘Vovós de Buranovo’ foram selecionadas para representar a Rússia na 57° edição do Festival de Música Eurovision, em Baku, no Azerbaijão. Embora tenham adquirido fama nacional, elas não pensam em se mudar, por exemplo, para Moscou, onde a água flui da torneira e não há necessidade de acender a caldeira. Questionadas sobre tal possibilidades, as cantoras entoam um "não", horrorizadas. E começam todas ao mesmo tempo a lamentar o tipo de vida  dos moscovitas, presos no trânsito ou em escritórios sufocantes. "Como vocês descansam lá?", perguntam. "Aqui é outra coisa, basta sair pelo campo ou pelas matas, e você irá imediatamente recarregar as energias."

Elas também não consideram que o grupo represente algo excepcional. “Grupos como o nosso existem aos montes por aí.” Na verdade, é fato que no interior da Rússia há diversos coletivos musicais de veteranos ou aposentados. Afinal, o que poderiam fazer essas idosas nas longas noites de inverno, se não cantar em coro? As "Vovós de Buranovo", no entanto, alcançaram o estrelato por um golpe de sorte, mais precisamente, uma jogada inteligente. Em 2008, cantavam a seu modo as canções populares dos mais famosos cantores de rock russos, Viktor Tsoi e Boris Grebenschikov. Após uma apresentação, ficaram famosas no país inteiro.

Em 2010 elas já haviam participado de concursos nacionais do Eurovision, mas tinham então conquistado o terceiro lugar. Este ano voltaram à premiação e finalmente venceram. Independente do resultado final do concurso, nenhum dos participantes russos anteriores tinha jamais suscitado um interesse tão autêntico do público estrangeiro.

Não se passa um dia sem que Buranovo receba jornalistas estrangeiros para entrevistá-las. Em meados de abril, já haviam estado ali repórteres dos EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Japão, Eslováquia, Polônia e Finlândia. O governo local, maravilhado com tal sucesso, já está fazendo planos para o futuro: visitas turísticas no local onde as simpáticas senhoras vivem e excursões pelos estábulos.

O sucesso também teve impacto nas relações internacionais: o Ministro da Cultura da Estônia pediu aos seus compatriotas para votar no grupo russo. Se considerarmos que, nos últimos vinte anos, as relações entre a Rússia e as repúblicas do Báltico vêm sendo, no mínimo, distantes, esse apelo soa como ficção científica. De fato, há uma explicação: o idioma udmurte e as línguas do Báltico pertencem à mesma família. Pode-se dizer que esses povos estão, de certo modo, relacionados. Ainda assim, o pedido de voto para a Rússia foi de grande validade.

Essas senhoras nem sequer se exibiram no Eurovision ainda e já estão reforçando contatos políticos com outros governos. Além disso, algumas datas para turnê em outros países já foram fixadas, motivo pelo qual pode-se crer que o trabalho de construir uma imagem positiva da Rússia continuará no futuro.

O despertar da melhor idade

Mas, afinal, de onde vem todo esse interesse? As cores nacionais, o estilo de vida natural, as vestimentas de séculos passados – tudo isso é, sem sobre de dúvidas, atraente, mas por si só não bastaria. Também em outros países seria possível encontrar performances igualmente exóticas. Talvez a questão seja outra: o fato de se tratar de um grupo de idosas?


População com mais de 65 anos corresponde a:


20%  no Japão 

19%  na Itália

18%  na Alemanha 

17%  na Espanha


7,4% no Brasil



O culto da beleza e da juventude reina sobre o mundo contemporâneo. Paralelamente, entretanto, nota-se outra tendência: a população de todos os países desenvolvidos envelhece diante dos olhos da sociedade. No mundo inteiro há cada vez mais nações cujo número de idosos começa superar a quantidade de crianças. O mundo presencia hoje uma mudança de estrutura geracional.

Não é nenhuma surpresa que um jovem belo possa seguir uma carreira e correr atrás de quase tudo aquilo que deseja, desde que tenha vontade e os recursos para tal. Existem, contudo, essas mesmas possibilidades para uma pessoa acima dos 70 anos?

Aparentemente, grande parte das empresas dos países desenvolvidos começa seriamente a se fazer essa questão. Se a humanidade está conseguindo viver mais e melhor, graças aos avanços da medicina, da cosmética e a disseminação de hábitos saudáveis, quais são as perspectivas para o futuro? É claro que muito em breve todos os países com grande parcela da população idosa deverão repetir essa mesma pergunta.

As vovós de Buranovo já encontraram sua resposta. Quando há muitos anos começaram a cantar juntas na Casa de Cultura local, as senhorinhas não imaginavam conquistar, depois dos setenta, o universo do showbiz europeu. Se a vida, porém, oferece essa possibilidade, por que não arriscar.

Entre outras coisas, as simpáticas cantoras têm tanto uma forte motivação: sonham em reconstruir a igreja local destruída durante a época soviética e, portanto, uma parte da receita obtida com as exibições é destinada a esse projeto. Ao que tudo indica, ao longo dos próximos dez anos essas senhoras não terão tempo sobrando para ficar sentadas próximas à caldeira.

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