Cem anos do jornal Pravda

O veículo do Partido Comunista celebra um século de história, contada exclusivamente à Gazeta Russa por seu atual diretor Boris Komotski.

Além da estante com alguns livros de Marx, o enorme retrato de Lênin com uma edição no Pravda em mãos é a primeira coisa que salta aos olhos ao entrar no escritório de Boris Komotski no oitavo andar da rua Pravda, em Moscou. É como se fosse possível imaginar tudo que se passava naquele momento.

Tanta coisa se passou desde aquele dia no qual, enquanto operários russos organizavam greves, era impresso o primeiro volume do jornal que ao longo dos anos tornou-se não só símbolo, mas voz crescente da esquerda soviética.

“Aqui trabalhava-se quarenta vezes mais. Havia um maquinário gigante em torno da  redação, e trabalhávamos cotidianamente com grandes personagens, críticos e fatos importantes. Desde então muita coisa mudou”, conta.

Fechado em seu paletó escuro, Boris Komotski fala lentamente e interrompe a conversa a cada toque do telefone. Agora, daquela grande máquina que constituía o Pravda, restam apenas poucas engrenagens, porem igualmente sólidas e ativas: 15 pessoas na redação, seis colaboradores externos e 3 correspondentes internacionais. Nikolai Dmitrovitch Simokov é o mais antigo do grupo.

Hoje, aos 82 anos, Simokov folheia com orgulho a cópia original e empoeirada de 22 de junho de 1941, dia em que foi comunicada a entrada da Rússia na guerra. “Lembro-me como se fosse ontem”, diz, virando a página com cuidado.

Simokov passou 58 anos de sua vida naquela redação. “Veja”, diz, mostrando outra folha, “aqui, debaixo dessas poesias na página de cultura, selecionadas para a edição do dia, está escrito meu nome”.

Primeira edição do Pravda, datada de 22 abril de 1912 (pelo antigo calendário gregoriano, que corresponde a 5 de maio do atual calendário gregoriano) 

O apoio ao Partido Comunista também resistiu à poeira do tempo. “O jornal ainda é o principal órgão de informação do PCFR, embora, obviamente, as coisas sejam um pouco diferentes”, explica Komotski, ajustando o paletó.

“Hoje somos a oposição e devemos dar um jeito de sobreviver.” As verbas são, é claro, provenientes do partido, e “junto a ele ainda luta-se contra o capitalismo, perseguindo os ideais de Lênin”.

O orgulho dos tempos áureos permanece vivo. A tiragem chegava a cifra de seis zeros – como em 1987, quando daquelas prensas saíram 11 milhões de exemplares –, enquanto, atualmente, são impressas apenas cem mil cópias.

Entre os leitores mais fiéis estão os trabalhadores, comunistas, seguidores do partido de esquerda. Também diversos jovens, de acordo com Komotski.

“Tenho, contudo, a impressão de que a impressa perdeu sua autoridade hoje em dia”, diz. “Escreve-se aquilo que quer, mas não serve mais a ninguém: as notícias são impressas, lidas, e caem no esquecimento. Era uma vez em que a notícia deixava para traz qualquer rastro de si.”

A censura é um capítulo à parte. “Ela existia e sempre existirá”, diz. “Pode-se agir de maneira oficial ou por vias indiretas, de forma mais velada. Mas não conseguimos nos livrar dela. Nem agora nem futuro.”

Komotski mostra com entusiasmo a grande edição comemorativa, que está nas bancas russas neste 5 de maio. “Trata-se de um jornal que fala sobre o próprio veículo”, explica, apontando para as provas de impressão. “Um daqueles exemplares que podem ser lidos agora, como também daqui a cinquenta anos.”  

Na noite do centenário acontecerá ainda a cerimônia oficial na Salão das Colunas de Dom Soiuzov, palácio que foi sede dos encontros do Partido Comunista, com a presença de algumas autoridades, grandes veteranos e dos maiores expoentes do movimento.

Na primeira fileira, junto com os 20 representantes de jornais estrangeiros de esquerda – como o alemão “Unsere Zeit” e o espanhol “Mundo Obrero” –, estará, obviamente, Guennádi Ziuganov, atual líder do Partido Comunista.

“O futuro? É incerto”, conclui Komotski, continuando a folhear o esboço do exemplar para o grande dia. “Alguns gostam de brincar com cartas da nostalgia soviética. Mas sabe-se bem que não passa de teatro. Nós, contudo, ainda temos muita energia e recursos. E continuaremos seguindo em frente por muitos anos.”

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