‘Partida da Morte’ volta aos cinemas

Cartaz do filme que retrata ‘Partida da Morte’ e a estátua comemorativa no portão do estádio do Dínamo de Kiev.

Cartaz do filme que retrata ‘Partida da Morte’ e a estátua comemorativa no portão do estádio do Dínamo de Kiev.

No dia 9 de agosto de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, aconteceu em Kiev, então território da URSS ocupado pelo exército nazista, uma partida de futebol entre soldados alemães e jogadores soviéticos locais. Os jogadores ucranianos foram ameaçados caso não deixassem os adversários vencerem. Mesmo assim, ignoraram o aviso e viraram o jogo no segundo tempo para acabar ganhando por 5 a 3. O filme russo ‘Match’ (‘Partida”, em português), uma nova e ambiciosa produção dirigida por Andrêi Maliukov, retrata esse episódio.

A estreia oficial do filme na Ucrânia estava inicialmente marcada para 26 de abril. No entanto, as autoridades do país tinham receio de que a obra pudesse incitar violência contra a seleção alemã e seus torcedores na Eurocopa, evento que a Ucrânia vai sediar junto com a Polônia no mês de junho.

Desse modo, o lançamento foi prorrogado até o campeonato terminar. Por enquanto, o filme está parado na Agência Estatal de Cinema da Ucrânia, que pediu para uma comissão de especialistas analisar o longa e avaliar seu possível impacto. O veredito será revelado nas próximas semanas.

Mas a polêmica não termina aí. Um dos membros da comissão alertou que o filme pode estimular o conflito étnico. “Não há nada antiucraniano. Pelo contrário, gravamos um filme sobre as aventuras dos ucranianos e dos habitantes de Kiev durante a guerra”, defende-se o produtor do filme Dmítri Kulikov, cuja empresa (Rekun-Cinema) propôs 3 de maio como data alternativa para estreia na Ucrânia, assumindo um parecer favorável da comissão.

Independentemente de sua data de lançamento nas salas comerciais, ‘Match’ irá competir, no final de maio, na sessão oficial do festival de cinema sobre futebol CINEfoot no Rio de Janeiro.

Não será, porém, a primeira vez que a ‘Partida da Morte’ vai parar nas grandes telas. A história foi ficando popular e tornou-se uma lenda soviética, dando origem a obras literárias e cinematográficas.

Em 1958 os jornalistas ucranianos Petro Severov e Naum Khalemski publicaram o livro “O último duelo”. Depois, nos anos 60, foram produzidos alguns filmes soviéticos para realçar os valores de heroísmo e resistência que o episódio representava.

A história atravessou, inclusive, a Cortina de Ferro e inspirou filmes também no Ocidente. O mais conhecido foi “Fuga para a Vitória”, protagonizado por Michael Cane, Silvester Stallone e Pelé, embora seu roteiro (com final feliz) tenha pouca relação com os fatos históricos em que supostamente era baseado.

Em vez disso, o novo filme de Andrêi Maliukov pretende refletir de modo mais fiel possíveis os fatos em torno daquela partida.

Jogo de uma morte anunciada


Em 19 de setembro de 1941, as tropas alemãs entraram em Kiev. A Ucrânia foi a região mais devastada pela Segunda Guerra Mundial, e teve entre 12 e 15 milhões de mortos.

O futebol havia adquirido grande popularidade na URSS durante os anos 1930 e Kiev era casa de várias das melhores equipes da liga nacional. Mas quando chegou a guerra, o futebol deixou de ser uma prioridade.

Alguns jogadores morreram na frente de combate, outros foram feitos prisioneiros e os mais sortudos se refugiaram no anonimato da capital ucraniana ocupada pelos nazistas.

Um deles começou a trabalhar em uma padaria cujo dono de origem alemã era um grande fanático por futebol e pediu a ele para procurar antigos companheiros e formar uma equipe.

Assim surgiu o FC Start, que competiu satisfatoriamente em partidas amistosas com outros times de diferentes regimentos militares.

Depois de seis vitórias e nenhuma derrota, o FC Start havia se tornado bastante popular. Por esse motivo, foi desafiado pela equipe da força aérea alemã Lutwaffe no dia 9 de agosto de 1942.

Os jogadores locais foram ameaçados caso não deixassem os adversários ganhar. O juiz permitiu todo tipo de jogo sujo dos alemães, mas não conseguiu evitar a vitória soviética por 5 a 3 de virada.

Segundo a lenda criada pela propaganda soviética, todos os membros do FC Start morreram fuzilados depois da partida.

As investigações posteriores confirmam que uma semana depois as equipes disputaram uma segunda partida, em uma atmosfera mais cordial, embora tenha resultado em uma nova vitória soviética (por 8 a 0).

Após alguns dias, outros jogadores do FC Start foram presos e levados a campos de concentração, acusados de supostamente pertencer ao NKVD, o órgão de repressão de Stálin.

Um deles morreu torturado uma semana mais tarde, enquanto os outros três foram executados apenas um ano depois. O resto sobreviveu para contar essa história.

No entanto, um tribunal de Hamburgo estabeleceu em 2005 que não há uma relação direta entre a morte desses quatro futebolistas e uma vingança pela partida vencida.

Sete décadas depois, uma estátua na entrada do estádio do Dínamo de Kiev diz: “Da rosa só nos resta o nome”.

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