“Não vamos nos calar, vamos criticar os liberais”

Foto: RIA Nóvosti/Vladímir Viátkin

Foto: RIA Nóvosti/Vladímir Viátkin

Responsável pelas relações sociais da Igreja Ortodoxa Russa com a Sociedade, arcipreste Vsévolod Tcháplin fala sobre as principais polêmicas da atualidade envolvendo a instituição.

Presidente do Departamento Sinodal para Cooperação entre Igreja e Sociedade do Patriarcado de Moscou, Vsiévolod Tcháplin, 44, é autor de algumas das mais polêmicas declarações da instituição.

Entre outras situações que repercutiram na imprensa local e internacional, Tcháplin recentemente declarou aberta uma possibilidade de colaboração com o galerista Marat Guelman, julgado por “ofensa aos sentimentos religiosos” depois uma exposição de arte moderna, além de elaborar as bases de um “dress code ortodoxo” que ganhou manchetes mundo afora.

Na Catedral de São Nicolau, onde é pároco, o arcipreste recebeu a Gazeta Russa e falou de suas relações com representantes de outras religiões, de arte moderna, dos liberais russos e da banda punk Pussy Riot, que pode enfrentar até sete anos de prisão caso seus membros sejam condenados por cantar dentro da Catedral do Cristo Salvador.

- Como o senhor poderia descrever a posição atual da Igreja Ortodoxa Russa?

É possível falar muito sobre o assunto. Na sociedade continua o renascimento espiritual. As pessoas começam a tratar fé mais conscientemente.

Se na União Soviética apenas uma pequena parcela da população era praticante da religião, agora cerca de um terço da população conhece os conceitos básicos do cristianismo ortodoxo, tem em casa ícones da Igreja, literatura religiosa e reza em casa.

Durante os últimos 10 anos o perfil das pessoas que vão à igreja também mudou. Agora, em vez das mulheres de idade, são jovens famílias que frequentam o espaço com filhos. A igreja recebe um grande número de seguidores ativos e isso nos dá um novo impulso.

- Quais são suas relações com representantes de outras religiões no país e no exterior?

Temos múltiplas relações. O cristianismo, o islamismo, o judaísmo e o budismo são unidos pelo Conselho Inter-religioso da Rússia e dos Países da Comunidade dos Estados Independentes.

Mas, além de contatos oficiais, nós sempre consultamos uns aos outros sobre questões de direito, relações com o Estado, celebrações conjuntas.

Eu sempre vou a festivais muçulmanos, judeus e budistas, embora os últimos sejam pouco representados em Moscou, e líderes de outras religiões sempre frequentam nossos eventos.

Na Rússia existem muitas famílias compostas por pessoas de diferentes religiões, e assim nossa comunicação é algo natural. 

A Igreja Ortodoxa Russa tem projetos na América Latina?

Eu não chamaria isso de projetos. Existem muitas pessoas que pertencem à Igreja Ortodoxa na América Latina. São pessoas de ascendência ucraniana, russa e moldava que têm suas próprias paróquias.

Ultimamente, a Igreja Russa no exterior se uniu à Igreja Ortodoxa Russa. Isso significa que as paróquias na América Latina se tornaram parte da nossa Igreja.

Há muitos ortodoxos no Brasil, na Argentina, aparecem novos no Chile e em Cuba. O número de paróquias no exterior está aumentado. Não sei se isso é bom para a Igreja Ortodoxa Russa ou não.

- Como a Igreja Ortodoxa Russa atrai juventude? Há uma política especial em relação às jovens?

Existem várias formas dos jovens participarem na vida ortodoxa, e a Igreja quer se abrir mais aos jovens.

Mas sou contra estratégias premeditadas. Existem escolas ortodoxas dominicais, onde os estudantes, além de estudar a ortodoxia, também praticam esportes. Organizamos competições entre paróquias. Além disso, existe também um Colégio da Bíblia frequentado pelos jovens.

Realizamos os encontros “Vida e Fé”, que contam com a participação de pessoas muito diferentes, desde oligarcas a miseráveis. Discutimos a Escritura Sagrada e rezamos juntos. Nenhuma dessas ideias é minha, são as pessoas que propõem a criação desses eventos.

O senhor pode discorrer sobre o seu projeto de arte moderna?

Eu nunca chamei isso assim. Falei sobre um espaço para concertos e exibições no subsolo da catedral [de São Nicolau, em Moscou, onde ele é pároco]. Agora, o local é usado apenas para concertos. Se recebermos propostas interessantes de representantes da arte moderna, estamos prontos para considerá-las.

- E o senhor disse à imprensa que está pronto para colaborar com Marat Guelman?

Eu conheço o Marat há 20 anos. Ele vai realizar uma exposição que, do meu ponto de vista, é muito interessante. Quero encontrar um diálogo possível com jovens artistas. Nós já discutimos muito, e continuamos a discutir com o Marat.

O diálogo entre a Igreja e a arte moderna começou há 25 anos na Rússia. Em 1988, participei de uma exposição dedicada ao milênio do Batismo da Rússia. Nela foram mostrados ícones da coleção do falecido Patriarca Pímen [1910-1990] ao lado de obras de arte conceitual.

A atitude da Igreja Ortodoxa Russa à banda Pussy Riot [que tocou músicas punk de protesto contra o premiê Vladímir Pútin dentro da Catedral do Cristo Salvador] não prejudica a própria Igreja? Não contradiz a politica de atração dos jovens?

Existe um grupo agressivo de pessoas socialmente ativas em Moscou que não pertencem à Igreja Ortodoxa, ou que pertencem apenas formalmente. Eles tentam reformar a Igreja como bem entendem.

A ação sacrílega do Pussy Riot é uma das tentativas de forçar a Igreja a se adaptar ao mundo de consumismo e moralidade de pequeno-burguês. A Igreja não deve permitir isso.

A Igreja repete a mesma coisa que Jesus disse, há dois mil anos, e espero que continue assim, sem dar atenção a chantagens. Muitos intelectuais dizem que devemos reconhecer que essa ação é normal, que devemos perdoar - mesmo que ninguém peça perdão -, que devemos nos adaptar ou não teremos futuro. A história vai julgar quem tem o futuro ou não.

Por que a Igreja Ortodoxa Russa tem relações tão estreitas com o governo local?

Essas relações não são mais estreitas do que é na maior parte do mundo hoje em dia. Não são mais estreitas do que nos EUA, na França, na Itália ou na Espanha.

Em todos os tipos de sociedades existe um dialogo e interação entre comunidades religiosas e governos. E não falo sobre os países totalitários onde a política antirreligiosa continua a ser oficial.

Ao mesmo tempo, nós sempre criticamos as autoridades, especialmente sobre decisões na área social, cultural e moral. Sou um canal de interação e posso lhe dizer que discutimos muito sobre diferentes projetos de lei na área de cultura, saúde pública e moral na televisão.

Discuto muito com funcionários públicos, mas, logo em seguida, rezamos no mesmo altar. Isso não nos impede de fazer parte de um organismo público.

- Recentemente o Patriarcado de Moscou lançou uma circular chamando seus seguidores a lutar contra as "forças anticlericais e  falsos valores do liberalismo agressivo". Você não acha que essa circular pode dividir a sociedade ainda mais?

Não é uma circular, é um apelo do Conselho Supremo da Igreja. A sociedade já está dividida, e são essas pessoas que declararam uma guerra de informação e de ideias contra a Igreja que dividem a sociedade.

Não vamos nos calar, vamos incentivar as pessoas defender a fé, a Igreja e os santos. Portanto, vamos criticar os representantes do movimento liberal, que por algum motivo acreditam que só eles têm o monopólio da legislação, do estadismo.

Temos um espaço para debate comum. Não tenho nada contra os liberais, muitos deles são meus amigos. Eu mesmo cresci em um ambiente antissoviético, e meu caminho natural foi a Igreja e os círculos dos dissidentes liberais.

Mas sou contra os liberais que tentam convencer agressivamente diferentes partes da sociedade, incluindo igrejas, que todos devem viver seguindo as regras deles. Não, precisamos criar regras todos juntos. Quem disse que a lei só pode ser baseada em ideias liberais? Isso é uma tendência que poderia levar a um novo totalitarismo.

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