“Seria muito vantajoso estabelecer a exportação cruzada com o Brasil”, diz Dankvert

diretor do Rosselhkhoznadzor Serguêi Dankvert Foto: TASS

diretor do Rosselhkhoznadzor Serguêi Dankvert Foto: TASS

Em visita a Buenos Aires no início de abril, o diretor do Rosselhkhoznadzor (Serviço Federal de Controle Veterinário e Fitosanitário da Rússia), falou à Gazeta Russa sobre relações com a Argentina e os modelos de transações existentes com países latino-americanos que a Rússia gostaria de implementar no Brasil.

Para o diretor do Rosselhkhoznadzor (Serviço Federal de Controle Veterinário e Fitosanitário da Rússia), Serguêi Dankvert, o modelo de exportação cruzada utilizado nas transações com a Argentina seriam ideais para o Brasil. Rússia espera ainda colocar em ação plano de exportação de grãos nos moldes do que já é aplicado com o Chile.

- No início de abril o senhor visitou a Argentina. Foi fechado algum novo acordo com o país?


Neste ano, será realizada na Argentina a 10° Comissão Intergovernamental, com fins de cooperação econômico-comercial e técnico-científica. Tomou-se, então, a decisão de criar um mecanismo de contato permanente. A comissão tem vários grupos de trabalho para cooperação econômica, comercial, agrícola, técnica e científica.

- Porque surgiu a necessidade  de criar esse mecanismo?


O comércio entre a Rússia e a Argentina está se desenvolvendo muito rápido. Nos últimos anos, o volume total de negócios praticamente quintuplicou, aumentando de US$ 400 milhões até US$ 1,8 bilhões.

Além disso, os presidentes dos nossos países têm o objetivo de incrementar o comércio bilateral até a marca dos US$ 5 bilhões. Esse mecanismo foi criado para dar um novo impulso ao comércio.

A Argentina se tornou, por exemplo, o principal fornecedor de amendoim para a Rússia. Três anos atrás, nosso país não importava o produto. Curiosamente, os amendoins argentinos substituíram no mercado russo as nozes da Turquia, que tinham uma posição privilegiada.

Também aumenta a exportação de produtos russos à Argentina. Durante o ano passado, as exportações russas para a Argentina aumentaram 3,5 vezes graças à exportação de produtos combustíveis, energia e fertilizantes.

Explicamos a nossos colegas argentinos que nossos produtos se complementam. Os produtos agrícolas da Argentina chegam a nosso mercado no período de maior déficit, enquanto nossos produtos são necessários à Argentina.

Em Buenos Aires, concordamos em trabalhar nas seguintes áreas: genética de gado bovino, biotecnologia, armazenamento de colheita,  reprodução da energia utilizando massa biológica de resíduos agrícolas, com tecnologias da Argentina.

Ao mesmo tempo, esperamos que nossos programas de modernização econômica sejam aplicados no comércio. Atualmente, estamos elaborando uma série de projetos russo-argentinos na área de combustíveis e energia. Desenvolvemos a cooperação no uso do espaço para fins pacíficos.

- O senhor se refere ao Glonass?


Sim. A Argentina concordou em instalar o equipamento russo em seu território, e o mercado irá decidir se as empresas que trabalham com o sistema Glonass têm uma melhor projeção do que os concorrentes. Talvez o Glonass substitua na Argentina o GPS, ou os sistemas funcionem paralelamente.

- A Rússia passa a fazer parte da OMC (Organização Mundial de Comércio) neste ano. Muitos acreditam que essa adesão vai ter más consequências para a economia do país. Essas previsões pessimistas correspondem à realidade?


Analisamos com muita atenção a experiência da Argentina e entendemos que os desafios de entrar na OMC não são difíceis de superar. A Argentina introduziu uma série de restrições à importação de produtos e faz todos os esforços para desenvolver sua própria indústria.

Isso condicionou a capacidade de importar por meio da exportação cruzada de produtos argentinos. Hoje, por exemplo, a Porsche deve exportar o vinho argentino, a Hyundai, amendoim, a BMW, couro e arroz, e a Pirelli, o mel de abelha. Muitos especialistas criticaram essa política, mas os países dos Brics, entre os quais está a Rússia, nunca expressaram nenhuma reclamação.

Seria muito vantajoso para a Rússia estabelecer esse tipo de relação econômica, por exemplo, com o Brasil. Durante os últimos dez anos o país sul-americano importou grãos da Rússia e exportou carne para o nosso país. Chegamos a um acordo sobre simplificação de fornecimento de grãos para o Chile e estamos terminando o memorando sobre a exportação de grãos com o Brasil.

O Chile e o Brasil são grandes importadores de grãos. Neste ano a exportação de grãos da Rússia pode atingir 25 ou 26 milhões de toneladas, o que será um recorde. Uma parte irá para a América do Sul. Se eles exportassem soja para a Rússia, o mesmo meio de transporte poderia trazer a mesma quantidade de grãos de volta.

- Os proprietários de restaurantes russos reclamam dizendo que, devido as restrições à exportação de carne argentina, foram obrigados a importar carne dos EUA e da Austrália. O senhor conseguiu resolver o problema?


As medidas tomadas pelo governo argentino obrigaram os empresários russos a interromper o desenvolvimento dos projetos bilaterais na área de carne.Três grandes empresas russas queriam comprar frigoríficos na Argentina e criar as estruturas adequadas para produção de gado semental e aumentar exportações à Rússia.

A empresa russa "Miratorg", por exemplo, importa 100 mil cabeças de gado, e queria importar gado da Argentina. Mas as proibições de exportações de carne não permitiram o início da cooperação com o país.

Se em 2009 a Argentina exportou para a Rússia aproximadamente 202 mil toneladas de produtos agropecuários, em 2011 o volume de exportações caiu para 63 mil.

Infelizmente, a Argentina também perdeu a oportunidade de participar na venda de soja para a  Rússia. O Paraguai se tornou o maior exportador do produto, e no ano passado exportou 480 mil toneladas de soja. Quando a Argentina liberalizou a legislação relativa aos produtos geneticamente modificados, apareceram novos problemas na cooperação com a Rússia. Farelo de soja é o único produto do gênero que é importado da Argentina pela Rússia.

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