Antídoto para as intervenções ocidentais

Ilustração: Niyaz Karim

Ilustração: Niyaz Karim

Apesar das inúmeras diferenças entre si, os países do Brics se unem para escapar das armadilhas do mundo unipolar.

Poderia o Brics, uma organização que une países tão díspares como o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, tornar-se um jogador internacional? Um economista diria que não – e olha que o Brics foi, de certo modo, “criado” por um economista, Jim O’Neil, um analista da Goldman Sachs, que identificou os quatro países (na época, apenas Bric) como as potências mundiais de mais rápido crescimento econômico do mundo.

A África do Sul juntou-se ao bloco no ano passado por causa de seu crescente peso econômico e papel de liderança na África. Este continente, o maior aglomerado mundial de países em desenvolvimento, estava se tornando muito importante para não ser representado na sigla Bric.

Fato é que não apenas um economista, mas também um acadêmico ligado a culturas mundiais diria não à pergunta inicial. Ele nos lembraria de que chineses e indianos não mantêm boas relações e que a Rússia, ainda amplamente desprezada por seus vizinhos ocidentais como “não europeia”, também não é vista como um verdadeiro país asiático por seus vizinhos orientais.

Quanto ao Brasil e África do Sul, esses dois países parecem estar tão distantes um do outro e dos “tradicionais” centros dos Estados Unidos e União Europeia, que suas localizações são encaradas como o principal obstáculo para suas indústrias de turismo.

Ainda assim, os líderes dos Brics, por certo pessoas ocupadas, têm dado um jeito de convocar cúpulas anuais. Seus ministros de Assuntos Exteriores e outros diplomatas se encontram com mais frequência ainda e conseguem sair das reuniões com declarações conjuntas – mesmo com a falta de entusiasmo da China na adesão permanente da Índia no Conselho de Segurança da ONU. Em suma, o que une esses gigantes tão diferentes?

A resposta é – o descontentamento com as políticas dos tradicionais líderes do mundo. Mesmo as datas dos dois encontros recentes do Brics são sugestivas. O primeiro, na ilha chinesa de Hainan, aconteceu durante a crise na Líbia. O segundo, em Nova Déli, preocupou-se, entre outras coisas, com os desdobramentos na Síria.

Ficou evidente durante a cúpula do Brics em Hainan que o bloco não compartilha a mesma euforia predominante no Ocidente em relação à “Primavera Árabe”, enxergando nela mais problemas do que ganhos futuros.

Quando Washington, Bruxelas e outras capitais europeias estavam aplaudindo a queda de Mubarak no Egito e estimulando insurgentes na Líbia, a declaração do Brics sobre o assunto pareceu um balde de água fria atirado sobre uma multidão eufórica.

Na ocasião, Jacob Zuma, presidente da África do Sul, levou a fundo uma iniciativa da União Africana para alcançar uma solução negociada entre Gaddafi e seus inimigos, expressando “grande preocupação” sobre as consequências do conflito no Norte Africano. Observe: isso aconteceu na primavera de 2011 – quando a moda era festejar a “vitória da democracia”.

A contínua guerra de milícias na Líbia e os desdobramentos problemáticos no Egito com perseguições anticristãos, bem como as tensões entre islamistas e o exército, provaram, ao menos, a validade de algumas das preocupações apresentadas pelos países do Brics.

A última cúpula do grupo em Nova Déli aconteceu com a Rússia e China enquanto a chefe da diplomacia norte-americana, Hillary Clinton, criticava ambos os países por serem o principal obstáculo no caminho da paz e democracia na Síria.

Infelizmente já ouvimos isso antes: na Líbia, o consentimento russo e chinês em uma resolução mal redigida pelo Conselho de Segurança da ONU levou a uma pesada intervenção ocidental na Síria. Diante desse histórico, existem algumas razões pelas quais Moscou e Pequim preferem ver Hillary Clinton descontente a presenciar uma repetição dos fatos. 

Portanto, é exatamente o intervencionismo do Ocidente que une essas diferentes nações e cimenta a parceria dos Brics melhor do que as velhas ilusões de esquerda, de alguma forma presentes em todos esses países durante o século 20.

Aliás, até mesmo o nosso passado trágico comunista é de vez em quando usado pelo Ocidente como uma artimanha para diminuir a legitimidade da Rússia e da China no cenário mundial – como se crimes de Mao ou de Stálin tivessem produzido novas gerações de russos e chineses relativamente inferiores à nova prole de letões, por exemplo.

Na verdade, as políticas assumidas pelos EUA e União Europeia tornaram-se mais um motivo para a Rússia e a China – dois países cujos interesses são mais conflituosos do que do que, digamos, os interesses objetivos da Rússia e dos países da UE – ficassem lado a lado em questões como a Síria ou a ex-Iugoslávia.

O intervencionismo ocidental não se limita, contudo, aos casos da Líbia ou Síria. A presidente Dilma Rousseff expressou recentemente seu repúdio à política cambial de Washington – a desvalorização do dólar limita as exportações brasileiras e de outros países em desenvolvimento para os EUA.

Como resposta, a presidente do Brasil foi tratada com certo descaso durante sua recente visita a Washington.

Fora isso, a recusa de Obama em rever a possibilidade de suspender o bloqueio econômico a Cuba – anunciada durante a recente Cúpula das Américas, em Cartagena, na Colômbia – provocou a indignação não só do Brasil, mas de todos os países latino-americanos.

O presidente da Colômbia se viu obrigado a fazer uma viagem especial a Havana para pedir desculpas pessoalmente ao presidente de Cuba, Raúl Castro.

No que diz respeito às “guerras cambiais”, eis aqui as estatísticas: se o Real do Brasil cresceu 2% em relação ao dólar, o rublo da Rússia saltou 9,2%. Não é à toa que a Rússia não exporta nada para os EUA.

Isso significa que o Brasil, juntamente com a Rússia, Índia e China, não deseja uma democracia para Cuba ou Síria? Obviamente queremos um sistema justo para esses países, não somos menos humanistas que nossos vizinhos ocidentais.

Mas não queremos que o modelo seja “exportado” por meio de intervenções militares e “salários” norte-americanos para incentivar as deserções de soldados sírios – uma possibilidade discutida durante a recente cúpula dos “amigos da Síria” em Istambul.

Com tais “amigos”, como os quais podemos ver em Istambul, quem precisa de inimigos? É por isso que os diferentes países do Brics tornam-se amigos de verdade em momentos de necessidade real.

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