Andrêi Tarkóvski, o cineasta que viu um anjo

Existencialista e espiritual, assim o definem amigos e colegas

Existencialista e espiritual, assim o definem amigos e colegas

Vostock Photo
Um dos maiores nomes do cinema, Tarkóvski morreu em 1986. Na sua lápide foi gravada a mensagem: “Ao homem que viu um anjo”.

Andrêi Tarkóvski (1932-1986) passou a vida inteira fazendo um único filme, costumava dizer o próprio diretor: um filme sobre um homem em busca da verdade, do ideal.

O cineasta, pupilo do documentarista Mikhail Rom (1901-1971), foi uma figura de destaque entre os personagens da nova geração de talentosos diretores que despontaram na União Soviética no início dos anos 1960.

Seu longa de estreia, “A infância de Ivan”, recebeu o prêmio Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza em 1962. Seguindo esse promissor início de carreira, vieram “Andrêi Rubliov”, “Solaris”, “O Espelho” e “Stalker”.

Fez mais três filmes enquanto estava em exílio forçado durante a era soviética: “Nostalgia”, “O Sacrifício” e o documentário “Tempo de viagem”, que filmou com o italiano Tonino Guerra.

Suas obras foram bem recebidas no país e os números falam por si. “Stalker” foi lançado em 1980, com apenas 196 cópias, das quais somente três foram distribuídas pela cidade de Moscou. Mesmo assim, em poucos meses, dois milhões de pessoas tinham ido ao cinema assistir ao filme.

No início dos anos 1980, 
Tarkóvski foi convidado para rodar um filme na Itália e nunca mais retornou à União Soviética. Embora “Nostalgia”, escrito com Guerra, fosse, de modo geral, apolítico, causou grande mal-estar. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar no exterior, Tarkóvski mergulhou de cabeça. As autoridades soviéticas exigiram seu retorno repetidas vezes, mas o diretor se negou a obedecer e foi declarado traidor.

O diretor do Museu de Cinema de Moscou, Naum Kleiman, afirma que Tarkóvski ganhou destaque no momento certo: em 1962.

“Tínhamos chegado a um impasse em nosso país: o ‘degelo de Khruschov’ estava prestes a ganhar impulso ou ser erradicado por completo. E foi então, nesse momento de reviravolta, que Tarkóvski e suas questões triunfaram”, diz Kleiman.

Questão existencialista

“Todo mundo sabe que na língua espanhola os pontos de interrogação são colocados no início e fim das frases. Isso também serve para Tarkóvski: ele sempre abre com uma pergunta e nos deixa com uma nova questão ao final, uma dúvida direcionada a cada um de nós individualmente, e não apontada para a sociedade como um todo”, acredita Kleiman.


Imagens dos filmes de Tarkóvski

O cineasta costumava enfatizar que a principal mensagem de seus trabalhos existencialistas tinha como base questões morais. “Ao atingirmos um novo nível de conhecimento, temos que nos direcionar rumo a um novo nível de moralidade também”, dizia Tarkóvski.

“Quis provar com meu trabalho [Solaris] que tanto a força como a integridade moral permeiam toda nossa existência, manifestam-se até mesmo naquelas áreas que aparentemente não têm nada a ver com a moral, como exploração espacial, o estudo do mundo objetivo, e assim por diante”, afirmou.

Figura espiritual

Protagonista de alguns filmes de Tarkóvski, o ator Nikolai Burliaev, conta que o cineasta era profundamente religioso. “Isso pode ser sentido em todos os seus filmes”, diz Burliaev.

“Todos seus filmes, independentemente da época, apontam para o futuro, para a eternidade, para Deus”, afirma a atriz russa Natália Bondartchuk.

Tarkóvski morreu de câncer, na França, em dezembro de 1986, e foi enterrado no cemitério Sainte-Geneviève-des-Bois, próximo a Paris. Em sua lápide foi gravada a mensagem: “Ao homem que viu um anjo”. 

Alguns vasos de flores estão plantados ao redor do terreno retangular de solo escuro. Uma árvore se inclina sobre a lápide derramando suas folhas uniformemente sobre o túmulo; a cruz está envolta em uma trança de pérolas brancas, um colar deixado pelo cineasta e roteirista soviético Serguêi Paradjanov.

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