Não pense, fotografe

Contrariando as tendências digitais, um crescente número de pessoas se encanta com os efeitos produzidos pelas câmeras analógicas da marca soviética Lomo. Para celebrar a lomografia, uma exposição na capital paulista reúne imagens dos fotógrafos Caito Ortiz e Jorge Sato feitas exclusivamente com essas máquinas.

Fotos de Jorge Sato e Caito Ortiz na mostra "Lomografia"


Apesar da incessante busca pela excelência fotográfica e digitalização de imagens, há hoje uma comunidade internacional cujos interesses são mais libertários.

Para esses, as cores explosivas, vazamentos de luz, enquadramento de vinheta e todas as demais limitações técnicas características de câmeras analógicas simples de alta sensibilidade são capazes de originar uma estética única.

São assim as imagens produzidas pelas máquinas da marca soviética Lomo (abreviatura de “Leninsgrádski Óptiko-Mekhanitcheskoe Obiedinênie”, em russo, ou, em português, “União Ótico-Mecânica de Leningrado).

Dez mandamentos do movimento lomográfico


1. Leve sua câmera onde quer que você vá

2. Tire fotos a todo momento – dia e noite

3. A Lomografia não é uma interferência na sua vida, é parte dela

4. Tente fotografar de todas as maneiras

5. Aproxime-se o máximo possível dos elementos fotografados

6. Não pense

7. Seja rápido

8. Você não precisa saber o que foi capturado no filme

9. Nem mesmo depois

10. Não leve nenhuma regra a sério

 

De acordo com Jorge Sato, fotógrafo que expõe seu material lomográfico neste mês em São Paulo, os lomógrafos estão cansados das fotos “perfeitas” tiradas em máquinas digitais.

Assim, procuram algo diferente, mesmo que isso implique em possíveis ruídos nas imagens, como um foco não tão definido e excesso de luz, por exemplo. “Isso sem contar a expectativa para ver o resultado. Afinal, você nunca sabe exatamente como a imagem vai aparecer no negativo”, diz Sato.

A linguagem diferenciada é justamente resultante do conflito entre o controle da composição e o inesperado, e vem ganhando cada vez mais espaço entre os aficionados por fotografia.

Sato começou a usar câmeras da marca Lomo de forma tímida em 2008. Mas foi em 2010, quando adquiriu o modelo LC-A, que as coisas começaram a acontecer.

Na época, era assistente do fotógrafo de “fine art” Claudio Edinger, e usava apenas câmeras digitais, por achar mais rápidas, versáteis e baratas.

“Mas Edinger sempre me dizia que a relação entre o fotógrafo e a fotografia era mais intimista no analógico, e isso tinha um grande peso para o trabalho autoral”, conta.

Durante uma pesquisa por referências, Sato encontrou a Lomo. “Foi paixão instantânea e o começo da minha relação com o filme.”

Soltando o dedo

O cineasta Caito Ortiz, por sua vez, fotografa seriamente desde os 20 anos e vivia fascinado pela técnica fotográfica.

Mas só ao conhecer as câmeras Lomo, percebeu a existência de um novo conceito de fotografia: simplesmente soltar o dedo. “Dane-se a técnica e aproveite o erro”, pensou naquele momento.

Com o tempo, passou a focar na imprevisibilidade. “Eu tinha várias câmeras profissionais, mas a Lomo me deu um suporte fotográfico mais interessante, e foi onde achei minha voz”, diz.

Assim como eles, muitas pessoas ligadas à fotografia enxergaram nessas máquinas um potencial criativo.

A grande comunidade de lomógrafos espalhados pelo Brasil, assim como as perspectivas financeiras e artísticas do país, estimularam a abertura, em 2009, da primeira unidade brasileira da Lomography, loja que comercializa os produtos da marca.

As câmeras Lomo surgiram na ex-União Soviética por volta de 1982, quando o general soviético Igor Kornitzki ordenou ao diretor da empresa Lomo, Mikhail Pantiloff, em Leningrado (atual São Petersburgo), a produção maciça de máquinas fotográficas pequenas, robustas e fáceis de usar. A intenção era que todos os cidadãos pudessem registrar momentos do cotidiano e fazer propaganda do regime.

O movimento lomográfico só despontou, contudo, em 1991, quando dois jovens austríacos descobriram a LC-A durante umas férias na capital da República Tcheca. Fascinados com a qualidade das imagens obtidas, começaram um movimento para impedir que as pequenas câmeras soviéticas desaparecessem, sobretudo porque a fábrica de São Petersburgo havia parado de produzi-las.

Desde então, a Sociedade Lomográfica, ou Lomography, funciona em diversos países para manter viva a tradição dessas simples, porém fascinantes, máquinas fotográficas de origem soviética.  

 

A primeira unidade brasileira apareceu no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro, e foi reinaugurada em 2012 em Copacabana. Dois anos depois, devido à grande procura, a empresa inaugurou sua segunda loja na capital paulista.

“Hoje o Brasil está entre os principais consumidores da marca”, disse à Gazeta Russa o gerente regional da Lomography no sul e sudeste, Bruno Siqueira.

“É difícil dimensionar o sucesso, porém vemos que cada dia mais essa comunidade cresce, consume e cria coisas novas utilizando nossos produtos”, completa.

Boom a la Instagram

Caito Ortiz diz ter a sensação de que a fotografia de um modo geral está experimentando um boom e que isso a conduzirá a um novo caminho.

Segundo ele, a própria fotografia digital e os aplicativos para celular, como o famoso Instagram, também cumprem seu papel, pois, ao compartilharem imagens facilmente nas redes sociais, promovem uma espécie de democratização da arte.

“Obviamente há um excesso de imagens e certa banalização, mas quando a imagem é boa, é boa e pronto”, diz.

Além disso, no final do mês de março foi inaugurada a exposição “Lomografia”, que traz fotografias de Caito Ortiz e Jorge Sato feitas exclusivamente com câmeras Lomo.

Em um trabalho minucioso de edição, o selo de fotografia Compota, escolheu mais de 40 imagens da dupla.

A ideia de utilizar tais fotografias na atual mostra, contudo, surgiu ao acaso. “Eu tinha um trabalho legal sobre o Japão e já existia a vontade de montar uma exposição, mas não havia nada certo”, conta Caito.

Foi então que Sato entrou na história: as curadoras Marina Prado e Leslie Markus, da Compota, sugeriram mesclar os dois trabalhos.

“Ambos usaram câmeras da Lomography. O curioso é o fato de Sato ser um descendente de japonês que fotografou São Paulo e Rio de Janeiro, e eu ser carioca, mas ter tirado as fotos no Japão”, explica.

No ano passado, Caito foi para Tóquio rodar as cenas finais de seu mais recente filme, “Estação Liberdade”. Fã da Lomography há muitos anos, decidiu comprar no primeiro dia de viagem uma nova câmera Lomo LC-W.

Apenas uma lente de 17 mm a diferenciava da antiga máquina LC-A do fotógrafo, que, no entanto, se maravilhou. “Com essa lente superdiferente, surgiu a oportunidade de ver o mundo com outros olhos”, conta.

Paralelamente, Jorge Sato já produzia fotografia autoral há um bom tempo, mas, como a maioria dos jovens fotógrafos, tinha grande dificuldade em conseguir expor seu trabalho.

“Para minha sorte e alegria, as meninas da Compota me encontraram pela internet”, conta.

Embora a exposição chegue ao fim na próxima sexta-feira (28), os interessados poderão conferir e até mesmo comprar as imagens em versão reduzida (ou em ímãs) na loja Amoreira.  Para mais informações, visite nosso calendário cultural.

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