O russo que descobriu o Titanic

Destroços enferrujados do luxuoso navio permanecem há cem anos no fundo do oceano. Agora, graças à tecnologia russa, é possível saber como são seus destroços e pertences a 3,8 mil metros de profundidade, no fundo do Oceano Atlântico.

Ievguêni Tcherniaiev tem o porte de um típico “herói russo”. É um homem de traços fortes, postura ereta, bigode grisalho e uma grande bandeira nacional estampada na manga da jaqueta.

Mas a expressão desse homem de 57 anos toma ares de menino quando ele conta sobre suas aventuras no fundo do mar.

Ele fala sobre lâmpadas de bronze que continuam a brilhar depois de décadas debaixo da água, garrafas ainda fechadas e ornamentos talhados em colunas de madeira.

O cenário que ele compõe é real: retrata o Titanic, o transatlântico que capturou a imaginação e o entusiasmo das pessoas como nenhum outro navio na história. O que restou da lenda continua a 3,8 mil metros abaixo do nível do mar, no fundo do Oceano Atlântico.

Talvez ninguém conheça tão bem quanto Tcherniaiev os destroços do navio, cuja história volta à tona com o centenário de seu trágico naufrágio, celebrado no dia 14 de abril.


Oito vezes a bordo


Como piloto do submarino de pesquisa russo Mir 2, Tcherniaiev realizou oito expedições ao Titanic, num total de aproximadamente mil horas de mergulho.

O russo diz nunca ter cogitado assumir um papel na história do navio. No entanto, isso aconteceu.

Pouco depois da queda da Cortina de Ferro, russos e norte-americanos fizeram sua primeira expedição conjunta ao Titanic, cujos destroços foram revelados pela primeira vez no outono de 1985 pelo arqueólogo submarino estadunidense Robert Ballard.

Dois anos depois, a companhia finlandesa Rauma-Repola entregou à Rússia os submarinos de pesquisa Mir 1 e Mir 2, desenvolvidos pelo Instituto de Oceanologia Chirchov, em Moscou. No mesmo período, os canadenses da Imax procuravam um submarino para captar cenas da embarcação para o documentário “Titanica” (1995).

Embora equipamentos de outros países também pudessem mergulhar a essa profundidade, nenhum atendeu aos requisitos dos cineastas tão bem quanto o Mir. Além de oferecer espaço suficiente para a câmera e os mergulhadores, o Mir também tinha um ampla escotilha que facilitou a filmagem.

Quando o diretor Stephen Low perguntou a Ievguêni Tcherniaiev quanta energia e luz o pequeno submarino poderia fornecer, a resposta de Tschernjajew foi certeira: “Você terá a quantidade de luz que for necessária”.

O destino de Mstislav Keldich


Com seu filme de 1997, “Titanic”, James Cameron trouxe de volta a lembrança do trágico naufrágio. Nesta sexta-feira (13), o filme volta aos cinemas brasileiros em versão 3D.

Para realizar a filmagem subaquática, o diretor optou por um navio de pesquisa russo chamado Akademik Mstislav Keldich.

“Jamais teríamos feito o filme sem o pessoal do Keldich e o submarino Mir”, disse Cameron na estreia russa, em Kaliningrado, onde a embarcação de pesquisa está ancorada. Isso aconteceu há 15 anos.

A situação atual do Keldich é um tanto precária. “Mil e quinhentos euros por dia em taxas portuárias?”, questiona Robert Nigmatullin, diretor do Instituto de Oceanologia Chirchov. “Não podemos arcar com esse custo por muito tempo.”

Para ajudar o submarino nos custos imensos, ele vem sendo utilizado também em viagens comerciais. “É realmente uma vergonha”, diz seu ex-piloto, Tcherniaiev, com aparente tristeza.


Em 10 de maio de 1991, o navio de pesquisa russo Acadêmico Mstislav Keldich partiu de Kaliningrado com dois submarinos Mirs a bordo, além de tripulação internacional que incluía Tcherniaiev.


Um mergulho profundo


A situação da Rússia e do Instituto Chirchov não eram exatamente boas em 1991. O país estava em turbulência e a economia tinha desmoronado.

Além disso, os pilotos dos submarinos Mir tinham experiência quase nula em expedições a essa profundidade, e as condições climáticas sobre o Atlântico pareciam desfavoráveis.

Entretanto, as dificuldades não impediram que os dois submarinos Mir finalmente atingissem os destroços do Titanic. Tcherniaiev, obrigado a dividir seu pequeno assento com a câmera do Imax e dois membros da equipe de filmagem, tinha que se contorcer para alcançar o timão.

Ele já tinha visto diversas carcaças de navios antes – e também depois – do Titanic. Entre outras peripécias, Tcherniaiev viu de perto o navio alemão Bismarck e mergulhou no fundo do Polo Norte.

Mas, mesmo após 20 anos, a lembrança da primeira vista do Titanic, aquele esqueleto de navio surgindo repentinamente em meio à escuridão, o deixa completamente sem palavras.

Tcherniaiev viu grades enferrujadas, moedas de prata e louças perfeitamente intactas. “A água é meu elemento, e cada expedição é como um conto de fadas”, diz.

Talvez pudesse ser um “final feliz” para a história que alguns anos depois o diretor norte-americano James Cameron retratou em seu clássico “Titanic” (1997), com a ajuda das tripulações dos dois Mirs – e todas as dificuldades de trabalhar com o perfeccionista Cameron.

A equipe passou cerca de 18 horas debaixo d’água. Só as subidas e descidas levaram cinco horas. O diretor quis repetir as complexas cenas duas ou três vezes cada.

Filmagens dos destroços


Cameron queria a melhor tecnologia, a melhor equipe e os melhores submarinos”, conta Tcherniaiev, admirado. O fato de Cameron ser fascinado pelo mundo subaquático há um bom tempo teve um impacto positivo na captação das imagens. “Ele é como um engenheiro: entende de tudo”, completa.

Ievguêni Tcherniaiev com James Cameron Foto: Aleksêi Vlasov/ RIA Nóvosti

Mesmo depois de “Titanic”, Cameron continuou a se dedicar ao mundo submarino russo e, em 2010, participou de uma expedição com o Mir 1 ao fundo do Lago Baikal.

Sua mais recente expedição, ainda em abril deste ano, o levou a região mais profunda do oceano, a Fossa das Marianas, 50 anos após o pesquisador suíço Jacques Piccard visitá-la pela última vez.

Diana Laarz é repórter na agência de notícias Zeitenspiegel Reportagen.

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