Brics buscam maior coesão

Ilustração: Serguêi Vinogradov

Ilustração: Serguêi Vinogradov

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul tornam-se cada vez mais fortes e influentes no cenário internacional, confirmando a hipótese lançada há mais de dez anos pelo economista-chefe do Goldman Sachs, Jim O'Neill, autor da sigla Brics (atual Brics com a entrada da África do Sul no ano passado). A recente cúpula do bloco em Nova Déli, na Índia, foi a prova de que seus membros estão cada vez mais dispostos a fortalecer parcerias.

Os países do Brics estão interessados em emplacar a imagem da nova ordem econômica mundial e isso ficou evidente na 4a cúpula do bloco realizada recentemente na Índia.

Entre seus líderes é perceptível, por exemplo, a insatisfação com o uso do dólar como moeda mundial. No entanto, o desejo de conjugar esforços visa não tanto fazer frente aos EUA, mas sobretudo defender seus próprios interesses econômicos.

Embora os Brics não abdiquem definitivamente do dólar, os acordos de investimento e comércio em moedas locais pretendem diminuir a influência da moeda norte-americana e da Reserva Federal dos EUA sobre suas economias.

Cabe lembrar que, após o Conselho de Ajuda Mútua Econômica criado pela União Soviética para cooperar com as economias socialistas em uma moeda coletiva chamada “rublo transferível”, o Brics é a segunda aliança no pós-guerra a fugir do dólar em pagamentos recíprocos.

União política

 

No campo político, a posição do bloco em relação ao Irã e outros conflitos tem divergido das iniciativas propostas pelos EUA e seus aliados.

“Reconhecemos o direito do Irã de usar energia nuclear para fins pacíficos conforme as resoluções internacionais, e defendemos que todas as questões associadas sejam solucionadas por meios políticos e diplomáticos”, declararam os Brics após a reunião, enfatizando a importância de um diálogo entre as partes interessadas, inclusive entre a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica)  e o Irã.

“Não podemos permitir que essa situação desencadeie um conflito, cujas consequências catastróficas não serão do interesse de ninguém”, completaram. Por esse motivo, os países do Brics também não aderiram às sanções contra o Irã como, por exemplo, o embargo petroleiro.

No caso da Síria, a Rússia e a China vetaram as resoluções do Conselho de Segurança. Além disso, embora a Índia tivesse apoiado anteriormente as resoluções anti-sírias, o grupo se pronunciou a favor de uma solução negociada do conflito.

Na defensiva 

 

A posição dos Brics sobre essas questões internacionais é, antes de tudo, uma reação aos métodos violentos usados pelos países ocidentais contra os governos que não dançam conforme seu ritmo.

Como esse é o caso dos Brics, eles se veem forçados a consolidar suas posições no cenário político internacional.

A imprensa internacional vem, contudo, discutindo a estabilidade e tendências dos Brics. Nesse aspecto, a comparação com o G8, um clube informal sem acordos jurídicos e órgãos executivos, tem sido inevitável.

Durante a crise de 2008, o G8 virou G20 sem alterar seus mecanismos de decisão. Tal façanha também poderia ser alcançada pelos Brics, uma vez que o México e a Indonésia já demonstraram o desejo de conhecer melhor os trabalhos da organização.

De certo modo, ninguém contesta a existência de problemas internos, entretanto, a ideia unificadora do Brics e o reforço da soberania de seus países-membros representam pontos fortes para evolução do bloco.

“Almejamos a transformação gradual do grupo em um mecanismo pleno de interação nas questões cruciais relacionadas à economia e política internacionais”, concluiu o presidente russo Dmítri Medvedev durante a cúpula.

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.