Depois da tempestade

Ilustração: Niyaz Karim

Ilustração: Niyaz Karim

Após diversos manifestantes exigirem mais honestidade nos processos políticos, a sociedade russa parece decidida a aceitar seu destino. As questões sociais, porém, permanecem, bem como a necessidade de outros partidos expressarem suas convicções. Diante de tal cenário, a principal dúvida que resta é como o Vladímir Pútin irá se comportar ao assumir seu terceiro mandato no comando do país.

“Amigos! Preciso muito de alimento seco para um abrigo de animais.” O anúncio foi publicado recentemente no grupo “Contra Pútin e Rússia Unida” que reúne mais de 170 mil usuários na rede social russa VKontakte.

Os moderadores não excluíram o anúncio, atendendo à nova tendência de alternar de mesclar os apelos de sair às ruas com os pedidos de doar sangue para uma criança doente ou juntar dinheiro para uma intervenção cirúrgica complexa.

O engajamento cívico que alimentava o movimento de protesto na Rússia começou a assumir outras formas, e as ações de rua voltaram a ser exclusividade de um número restrito de ativistas políticos.

“Depois dos protestos na Praça Bolótnaia, participei de outras ações de rua e notei que cada vez sentia menos vontade de protestar”, diz a jovem ativista de rua, Sofia Tchaidúlina, explicando as mudanças ocorridas em suas determinações políticas.

Sofia conta que à medida que as eleições presidenciais se aproximavam, a frase “não faz sentido protestar” passou a ser repetida com maior frequência nas conversas com seus amigos.

“Outra razão é que me apaixonei. Eu me apaixonei por uma menina de um orfanato que comecei a visitar como integrante de um grupo de voluntários”, acrescenta.

Mudança de atitude


A ação de protesto organizada pela oposição nos dias 17 e 18 de março em Moscou reuniu, no máximo, mil pessoas.

Desse modo, o desejo dos líderes da oposição de chamar o protesto previsto para 6 de maio de “Marcha de Milhões” tem sido vista por muitos como uma visão romântica e utópica, totalmente alheia à realidade.

Na melhor das hipóteses, os manifestantes conseguirão levar às ruas algumas milhares de pessoas.

Essa ação deve ser a última tentativa de protesto, colocando um ponto final no período de atividades da oposição em Moscou.

“As pessoas entenderam que os balões e as fitas brancas não são a melhora forma de discutir com a polícia de choque. Acho que agora teremos um período de consternação social”, diz o escritor Boris Akunin, um dos organizadores das manifestações ocorridas no inverno.


Outra razão para o fim dos protestos é o cansaço dos cidadãos comuns que, ao contrário dos ativistas políticos, não estão acostumados a participar de manifestações com a mesma frequência com que vão ao trabalho.

Nas eleições presidenciais, a liderança do país foi mais prudente do que nas eleições parlamentares em dezembro. A significativa queda do número de violações nas eleições presidenciais, pelo menos em Moscou, teve efeito positivo junto à sociedade.

Muitos daqueles que haviam protestado em dezembro aceitaram a vitória de Pútin.  Até mesmo uma contagem paralela dos votos demonstrou que o atual premiê teria angariado mais de 50%. Esse fato contribuiu muito mais para a retirada das pessoas das ruas do que quaisquer outras iniciativas do governo.

Futuro da política


Atualmente, a principal questão é saber quantas pessoas engajadas nas recentes ações de protesto pretendem realmente permanecer na política. Disso depende o futuro das novas siglas políticas que surgirão com a entrada em vigor da nova lei, mais branda, sobre o registro de partidos políticos.

“Um grande número de partidos dividirá o eleitorado da oposição. Portanto, os partidos oposicionistas terão mais dificuldades em superar a barreira de 5% para obter assentos no parlamento, o que é interessante para o Rússia Unida”, diz o presidente do Centro de Análise Política, Mikhail Tulski.

Isso também dificultará as intenções de Mikhail Prôkhorov de criar um novo partido liberal, certamente na parceria do ex-ministro da Fazenda, Aleksêi Kúdrin.

O resultado obtido por Mikhail Prôkhorov nas eleições presidenciais é um bom trampolim para sua ascensão política. Entretanto, uma coisa é obter 7% dos votos na luta contra os cinco políticos que, em 20 anos de presença no cenário político, foram apenas um encosto para os eleitores, e outra é lutar pela empatia das pessoas em um cenário densamente povoado por siglas políticas de toda a espécie que surgirão com a nova Lei Dos Partidos Políticos.

Muita coisa dependerá da forma como Vladímir Pútin vai atuar durante seu terceiro mandato presidencial. A situação criada às vésperas das eleições presidenciais não lhe deu outra alternativa senão demonstrar sua disponibilidade para estabelecer um diálogo.

Embora a reforma política tenha sido impulsionada por Dmítri Medvedev, em seus artigos de campanha Vladímir Pútin se declarou disposto a um diálogo mais profundo com a sociedade e prometeu lançar mão de referendos, simplificar os processos legislativos e aumentar o controle público sobre o poder executivo.


“Os eleitores não têm expectativa de encontrar um novo Pútin”, afirma o cientista político Viatcheslav Níkonov, enquanto o diretor do Centro de Informações Políticas, Aleksêi Múkhin, considera que os “círculos próximos ao presidente entendem que o não cumprimento das promessas eleitorais manterá ativo o potencial de protesto na sociedade”. 

Dificuldades pela frente


Pútin tem de pensar em como irá se relacionar com seus opositores bem como partidários. As relações com estes últimos são mais importantes.

Conforme o presidente do Centro de Estudos Estratégicos, Mikhail Dmítriev, conhecido por ter previsto a mais recente crise política no país, o problema de Pútin não está na legitimidade. A dificuldade é saber quanto tempo conseguirá fazer durar sua legitimidade face ao crescente descontentamento social fora dos grandes centros urbanos.

“Na verdade, sua eleição foi garantida pelos eleitores provincianos. Mas o problema é que, nas cidades menores, as tendências sociais estão mudando. Como resultado, pode acontecer que, dentro de um ano ou dois, esses lugares deixarão de apoiar Pútin”, adianta Dmítriev.

“Algo semelhante foi verificado na década de 90. Em 1996, Boris Iéltsin foi eleito presidente. Nos finais dos anos 90, sua popularidade caiu abaixo de 10%. Para Pútin, tais riscos são muito possíveis”, completa.

Pútin foi sempre prudente na seleção de sua equipe e nunca entregou seus companheiros. Todos os processos anteriores sobre os crimes de corrupção não atingiram altos funcionários do governo.

Portanto, se Pútin não quiser que o descontentamento social nesses locais passe dos burocratas regionais para ele, deverá então rever sua política.

“O futuro presidente irá mexer em muitas peças de seu tabuleiro regional (a prova disso foi a recente demissão do governador da Região de Primórie, Serguêi Darkin) e levar o combate à corrupção dos escalões administrativos inferiores para os escalões de poder do nível médio e superior”, acredita Aleksêi Múkhin.

Caso contrário, Pútin não conseguirá reter o apoio da população, pois não poderá mais conquistar sua empatia com o aumento de serviços sociais.

“As pessoas nesses cidades são a favor da política de aumento dos gastos públicos. No entanto, o orçamento federal não tem recursos suficientes para acolher essa demanda. Assim sendo, qualquer deterioração da situação econômica no país terá como consequência cortes nas despesas sociais”, diz Mikhail Dmítriev, explicando os riscos a ser enfrentados por Pútin.

Nesse contexto, o futuro político de Dmítri Medvedev é bastante obscuro. Ao renunciar ao segundo mandato, ele só confirmou sua imagem como político dependente.

Mesmo que ele venha a ocupar o cargo de premiê, nenhum dos analistas políticos lhe dá a chance de se manter à frente do governo russo durante os seis anos de mandato presidencial de Pútin, encarando-o como uma eventual vítima após as medidas impopulares de seu governo. Entre elas, o inevitável aumento da idade de aposentadoria e outros passos para a reforma do sistema de pensões.

Fato é que só o sacrifício de uma figura política importante poderá salvar a imagem e o futuro político de Vladímir Pútin e não há dúvidas de que esse sacrifício será feito. 


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