Jogadores brasileiros contam como é a vida na Rússia

Jogadores de salão Pula e Cirilo receberam cidadania russa Foto: LegionMedia

Jogadores de salão Pula e Cirilo receberam cidadania russa Foto: LegionMedia

Cirilo e Pula, jogadores do Dínamo e da seleção da Rússia, contam sobre seu dia a dia em Moscou.

Os primeiros jogadores brasileiros apareceram no futebol de salão russo na década de 90. Em 2010, eles já eram maioria nas equipes da Premier League. Agora, em cinco dos 11 clubes da Super Liga atuam entre dois a cinco brasileiros em cada clube, e nos clubes Tiumén e Iugrá até aos técnicos são brasileiros.

Cinco brasileiros foram chamados, em épocas diferentes, para jogar pela seleção russa. Cirilo e Pelé Júnior ajudaram os russos a levar o bronze no Campeonato Europeu de 2007. Na Copa do Mundo de 2008, Cirilo recebeu reforço na pessoa de Pula, reconhecido como o melhor artilheiro do torneio. Para a Eurocopa de 2010, foram convocados Robinho e Eder Lima.

No entanto, um grupo de pessoas autodenominadas “torcedores da seleção russa de futsal” escreveu uma carta ao ministro do Esporte, Vitáli Mutkó, expressando sua preocupação com a incessante prática de naturalização de jogadores estrangeiros. Como resultado, para a EuroCopa de 2010, foram convocados apenas Cirilo e Pula.

No Euro 2012, o time russo contou com três brasileiros: Cirilo, Pula e o goleiro Gustavo e faturou a prata, deixando a Espanha tomar a liderança.

O enviado especial da Gazeta Russa, Timur Ganeev, falou com Cirilo e Pula, jogadores do Dínamo e do time nacional da Rússia, para saber como eles vivem no país, o que significa para eles a nacionalidade russa e por que devem aprender a falar russo.

- Qual foi o maior problema que vocês encontraram na Rússia?

 

Cirilo: Para mim, foi a língua. Não foi o inverno, nem congestionamento, nem comida. Quando cheguei à Rússia, não sabia uma só palavra em russo. Como não queria me contentar só com os termos de futebol, fui a uma livraria, comprei manuais e comecei a estudar. Estou na Rússia há nove anos e já sei bem o idioma local. Aconselho todos os brasileiros recém-chegados a estudar a língua. Quando você pode se comunicar com as pessoas, muitas barreiras desaparecem.

Pula: Vim à Rússia um ano depois de Cirilo, mas não consegui aprender bem a língua. Não tenho problemas em me explicar na rua ou em lojas, mas falar em russo sobre coisas como literatura e cultura é para mim um problema. Acho que a coisa mais difícil em um país estrangeiro é viver sem a família. Agora minha família chegou e tudo voltou ao normal. Estou feliz na Rússia.

- Uma pergunta tradicional a um jogador estrangeiro: o que acham do inverno russo?

 

Cirilo: Estamos a acostumados a viver em um país quente. Na Rússia, o inverno dura seis meses, por isso é muito difícil para a gente sobreviver a essa época. No inverno, sigo sempre um único caminho: de casa para as sessões de treino e de volta para casa.

 

Pula: Ainda bem que jogamos em um ginásio e não na rua. Nossos amigos brasileiros do futebol de campo sofrem muito quando têm de jogar em temperaturas abaixo de zero.

 

Cirilo Foto: LegionMedia

- Como obtiveram a nacionalidade russa?

 

Cirilo: A direção do Dínamo me sugeriu adotar a nacionalidade russa. Segundo o regulamento, no campeonato russo podem jogar três estrangeiros. Para ter a possibilidade de jogar mais, aceitei a proposta. Quando fui convocado pela primeira vez para a equipe nacional russa, fiquei muito feliz. Qualquer jogador de futebol sonha em jogar em um nível internacional.

Pula: Tomamos essa decisão de importância vital juntamente com a direção do Dínamo. Depois de adotar a nacionalidade russa, comecei a jogar mais por meu clube e tive meu salário aumentado (o salário depende do número de jogos realizados pelo clube). Comecei a atuar também em torneios para a Copa do Mundo e da Europa. Portanto, a nacionalidade russa só me trouxe benefícios. Jogar por uma equipe nacional é algo especial e jogar por um país tão grande quanto a Rússia é um duplo prazer.

- Como vocês foram recebidos na seleção russa?

 

Cirilo: Conheci muitos dos jogadores quando cheguei ao Dínamo. Os outros se tornaram meus conhecidos durante os treinos. Eu sabia que, para jogar pela equipe nacional russa, eu devia ser duas vezes mais forte do que um jogador russo. Tentei dar meu melhor. Meus companheiros viram isso e começaram a me tratar com respeito.

Pula: A globalização fez com que os brasileiros jogassem em quase todas as equipes nacionais de futsal da Europa. Por exemplo, a seleção italiana trouxe ao penúltimo Campeonato Europeu 11 brasileiros. Somos três ou quatro brasileiros no elenco russo. Este ano, temos ainda o goleiro Gustavo. Ele teve excelente desempenho na última Eurocopa. É pena não termos conseguido segurar a vitória sobre os espanhóis. Faltavam 10 segundos para que a partida terminasse e a gente trouxesse à Rússia as medalhas de ouro.

- Vocês viajaram por quase toda a Rússia, de qual cidade gostaram mais?

 

Cirilo: São Petersburgo. É uma bela cidade com uma arquitetura maravilhosa. Estive lá cinco vezes e sempre quero voltar, embora meus amigos russos digam que, no inverno e outono, lá faz mais frio do que em Moscou.

Pula: Não fiquei muito impressionado com as cidades russas. Muitas cidades têm aparência ruim e estão atrasadas uns 30 anos em relação a Moscou. Lá as pessoas vivem na pobreza. Isso é visível, embora no Brasil as pessoas vivam em uma pobreza ainda maior.

 

Pula Foto: LegionMedia


- Como preenchem o tempo livre em Moscou?

 

Cirilo: Encontramos nossos amigos. Em Moscou, há muitos jogadores brasileiros. Mantivemos contato com os jogadores do CSKA, Vágner Love e Jô, e do Spartak, Alex e Íbson. Já foram embora da Rússia.

 

Pula: Como toda a gente normal. Frequentamos restaurantes brasileiros, jogamos bilhar e ouvimos música. Moscou é uma cidade muito desenvolvida, uma verdadeira metrópole. Se você tem dinheiro, pode encontrar aqui um monte de diversões.

- E como é a situação em termos de salário, dá para se divertir?

 

Cirilo: Cresci em uma família pobre, por isso, para mim, o dinheiro que ganho é um dom. Vivemos bem, quando fazemos compras não olhamos para etiquetas de preços, é uma maravilha.

Pula: Eu tenho o suficiente para tudo, não tenho do que reclamar. É claro que nossos salários não são tão altos quanto os dos jogadores do futebol de campo, mas o Dínamo nos paga bem. Meus amigos no Brasil vivem na pobreza, estou ajudando muitos deles.

- Vocês gostariam de ficar na Rússia depois de terminar a carreira de jogador?

 

Cirilo: Ainda não pensei nisso. Ainda tenho pela frente muito tempo para jogar. Quando for preciso tomar uma decisão, vou me reunir com a família para decidir sobre nosso futuro.

Pula: Em meu caso, tudo está claro. Após terminar a carreira de jogador, voltarei ao Brasil. Lá está minha casa e lá quero passar a velhice.

- Quantas vezes conseguem visitar seu país por ano?

 

Cirilo: Cerca de três vezes por ano. Volto de lá com força renovada.


Pula: Vou ao Brasil sempre que possível, em média três ou quatro vezes por ano. 

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.