Um holofote para Rijkov

Vladímir Rijkov Foto: TASS

Vladímir Rijkov Foto: TASS

Depois do pedido, em dezembro, do presidente Dmítri Medvedev por uma emenda que simplifique o registro de partidos políticos no país, o Ministério da Justiça decidiu retirar do Tribunal Superior um pedido de fechamento do Partido Republicano, de Vladímir Rijkov. Conhecido líder da oposição e um dos organizadores dos protestos que tomaram a capital, o ex-deputado agora volta às manchetes como uma das figuras mais prometedoras da política russa.

“Neutro e inofensivo.” É assim que o político e oposicionista Vladímir Rijkov, 45 anos, é descrito por seu rival Boris Nemtsov.

Pode até existir um pingo de verdade nessa designação ofensiva. Entretanto, ao que tudo indica, a neutralidade de Rijkov e sua imagem que mais parece com a de um jovem professor universitário do que com um defensor dos direitos da população, está gerando frutos.

Graças à reforma política proposta pelo atual governo, seu Partido Republicano, fundado em 2007, está prestes a ser registrado novamente e Rijkov pode retornar à política parlamentar muito em breve. 

Em um recente protesto, entretanto,Rijkov não se parecia nada com um homem prestes a se tornar deputado na Duma (câmara dos deputados na Rússia). De jaqueta e gorro sobre um palco, ele conduzia a manifestação quase como um democrata da perestroika.

VLADÍMIR RIJKOV


Formação: Historiador

Profissão: Político

Idade: 45

Vladímir Rijkov nasceu em 1966 na cidade de Rubtsovsk, na região de Altai. Após terminar o serviço militar e o curso de história, tornou-se um dos principais políticos da região.

Em 1991, foi vice-governador de Altai, e, em 1993, eleito pela primeira vez como deputado da Duma de Estado (câmara dos deputados na Rússia), tornando-se o político mais jovem do órgão.

Permaneceu no parlamento por quatro mandatos legislativos.

Rijkov voltou-se sobretudo à política regional. Na década de 1990, tornou-se um dos principais membros do partido “Rússia é nosso lar”, que apoiava o então presidente Boris Iéltsin.

Após a renúncia de Iéltsin, Rijkov se viu sem partido.

Em 2003, foi candidato independente em Altai.

Em 2007, retirou-se da política parlamentar e, desde então, pertence a diferentes alianças da oposição.

Recentemente ajudou a organizar manifestações “Por eleições limpas”.


Esse tipo de eventos de grande porte não é novidade para ele. Rijkov adora falar sobre os primeiros protestos pela democracia por ele organizados em sua terra natal, a região de Altai, na Sibéria oriental.

Historiador por formação, Rijkov adquiriu experiência política e a habilidade de escolher as palavras certas a partir de sua atuação - desde democrata da perestroika até deputado da Duma de Estado e vice-presidente do partido pró-Iéltsin  “Rússia é nosso lar”.

Rijkov foi eleito deputado da Duma de Estado aos 27 anos, em dezembro de 1993. Quatro anos depois, tornou-se vice-presidente do órgão e, em 1998, foi nomeado por Iéltsin como vice-premiê para assuntos sociais. O político, entretanto, renunciou pois não tinha experiência suficiente.

Até hoje seus adversários políticos o acusam de colaborar com os governos de Iéltsin e Pútin.

“Sim, cometi muitos erros, mas na tentativa de obter um mercado maior e mais democracia. Durante o tempo em que estive no poder, o parlamento era um local de debate”, diz.

Rijkov afirma também que é hoje oposição e que passou a criticar o recém-eleito presidente russo Vladímir Pútin imediatamente após a prisão do magnata da mídia Vladímir Gusínski, no ano 2000.

Por isso, Rijkov se auto-intitula a mais antiga figura da oposição, afirmando ter iniciado suas críticas a Pútin antes de outros oposicionistas de relevo, como Boris Nemtsov e Mikhail Kasianov.

“Esse homem destruiu os últimos resquícios da democracia”, afirmou ainda quando Pútin, após o ato terrorista na escola de Beslan, em 2004, começou a afastar todos os governadores eleitos até 2005 e a nomear outros para o cargo.

Em 1999 foi presidente da bancada do partido “Rússia é nosso lar”, pelo qual foi reeleito deputado no mesmo ano. Em 2003, foi eleito como candidato independente de partidos políticos.

Rijkov manteve o cargo na Duma até 2007. Desde então, é personagem frequente da oposição fora do parlamento.

Além disso, ele é professor na Escola de Economia de Moscou, apresenta um programa na rádio Echo Moskvi (em russo, “Eco de Moscou”) e é articulista em diversos meios de comunicação.

O que ele adora mais do que qualquer outra coisa é conversar sobre Aleksandr II, o tsar que aboliu a servidão. “Ele deu início a fantásticas reformas educacionais, criou colégios e um exército moderno. A economia floresceu então. Agora, a Rússia precisa de um líder como esse, assim como de um ambiente propício para mudanças”, afirma.

Potencial russo


Seus sonhos, entretanto, estão distantes da realidade atual. “Pútin governou o país como uma gangue criminosa por uma década. Precisamos criar novas instituições políticas. A Rússia pode se tornar um dos países mais ricos do mundo, um Canadá multiplicado por sete”, acredita.

Rijkov tem problemas pessoais com Pútin. Em uma transmissão televisiva em dezembro de 2010, Pútin o acusou, junto aos políticos Nemtsov e Vladímir Milov, e do oligarca foragido Boris Berezóvski, de cometerem crimes durante a década de 1990 e de possuírem “milhões escondidos”.

As acusações provocam um sorriso irônico de Rijkov. “Que bilhões eu poderia ter desviado como membro do parlamento? Uma análise dos verdadeiros ladrões não favorece Pútin. Ele foi vice-prefeito de São Petersburgo, então conhecida como a cidade dos bandidos. Os cidadãos dali sabe muito bem quem foi o ladrão”, afirma.

Negociando com bandidos


Rijkov tem hoje 45 anos, mas aparenta menos. Sua maior fraqueza é a conhecida hesitação. Durante os protestos que ajudou a organizar, Rijkov foi questionado sobre a reeleição de Pútin e a participação cada vez menor da população nas manifestações.

"Devido à pressão política e social, Pútin e Medvedev foram obrigados a fazer concessões", responde.

Um exemplo das mudanças é a emenda que facilita o registro de partidos políticos, aprovada em março e publicada no início de abril. Além disso, espera-se que governadores sejam novamente eleitos pelo povo.

“Sei que sou considerado indeciso. Mas é preciso ter cuidado e, às vezes, até ser indeciso se você não quiser prejudicar a colheita”, diz. “Se fosse um político determinado, eu teria incentivado a invasão do Kremlin.”

Rijkov promete participar dos próximos protestos, independentemente de quantas pessoas estarão presentes. Porém, acredita que só o diálogo pode levar a mudanças. “Vou participar da negociação, mesmo que seja com bandidos”, arremata.

Aleksandr Bratérski escreve para o jornal The Moscow Times e para a revista Rolling Stone da Rússia.

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