Aposta alta em Camp David

Barack Obama Foto: AP

Barack Obama Foto: AP

O presidente dos EUA, Barack Obama, receberá os líderes do G8 em sua residência presidencial de Camp David nos dias 18 e 19 de maio. Esta será a primeira reunião do presidente eleito Vladímir Pútin com o chefe de Estado norte-americano. Embora Washington se mostre suscetível a acordos, Pútin insiste que negociações sobre o desarmamento nuclear devem ser multilaterais.

A agenda do encontro dos países do G8 (Rússia, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e o Canadá) foi traçada pelo presidente dos EUA durante pronunciamento na cúpula sobre Segurança Nuclear, em Seoul.

O próprio conselheiro adjunto de Segurança Nacional da Casa Branca, Ben Rhodes, confirmou que, em Seoul, Obama convidou o futuro presidente da Rússia, Vladímir Pútin, a iniciar as negociações sobre a redução das ogivas nucleares estratégicas e armas táticas não posicionadas, bem como tratar do escudo antimíssil na Europa, visto por Moscou como a mais grave ameaça a sua segurança.

Em um discurso aos alunos universitários também na capital sul-coreana, Obama ressaltou que um dos objetivos do encontro será discutir a contenção de armas.

A imprensa norte-americana destacou, no mês passado, as novas propostas elaboradas pelo governo Obama para redução de armas estratégicas entre os EUA e a Rússia.

As medidas preveem uma diminuição substancial das armas nucleares de longo alcance e a possibilidade de reduzir as ogivas posicionadas para um nível entre 1100 e 300-400. Atualmente, cada um das partes possui o limite máximo permitido de 1550 ogivas.

“Os próximos passos devem ser multidisciplinares e o processo de desarmamento nuclear tem que envolver todas as potências nucleares”, havia declarado Pútin. “Não podemos continuar nos desarmando enquanto outras países estão agindo de modo contrário.”

Pútin também deixou claro que o desarmamento nuclear não deve ser usado para o alcance da superioridade em outros tipos de armas.

Segundo ele, a Rússia deve continuar desenvolvendo armas de precisão que sejam equiparáveis às de destruição em massa. “Abdicaremos das armas nucleares só quando tivermos armas semelhantes”, disse.

O assunto teve início em dezembro de 2010 durante a ratificação do tratado de desarmamento nuclear START-3, quando o Congresso dos EUA já tinha anunciado a necessidade de reduzir os estoques de armas nucleares táticas.

A Rússia insiste que as medidas relacionadas à redução de armas ofensivas dependem do recuo norte-americano nos planos de expansão de seu escudo antimíssil, conforme consta na introdução do START-3.

Gafe do bem


Mesmo com as ressalvas anteriormente citadas, isso não significa que o encontro em Camp David esteja condenado ao fracasso. A maior prova disso é a gafe cometida por Obama durante uma conversa privada com Medvedev em Seoul captada por microfones.

Na ocasião, Obama pediu ao presidente russo que enviasse um recado a Vladímir Pútin. “Quanto a essas questões, especialmente aquela relativa à defesa antimíssil, elas podem ser solucionadas. O importante é que ele me dê uma margem de manobra. Esta é minha última eleição. Depois das eleições, serei mais flexível”, disse o presidente norte-americano, segundo informações da rede de televisão russa ABC.

O ocorrido deu munição a seus concorrentes, sobretudo, Mitt Romney, favorito na corrida presidencial pelo Partido Republicano, que condenou Obama de estar favorecendo o “principal inimigo geopolítico dos EUA”.

Dentre os cidadãos norte-americanos, a declaração de Romney teve, contudo, uma percepção mais negativa do que o próprio fato em Seoul. Cerca de 72% dos americanos entrevistados pelos veículos “Chicago Tribune” e “US News” consideraram a afirmação Romney de mau gosto.

Mais do que isso, todas as principais iniciativas norte-americanas em relação a arsenais estratégicos é fruto do trabalho conjunto de republicanos e democratas.

Em 1996, por exemplo, o democrata Bill Clinton deu vida aos planos de defesa antimíssil do republicano Ronald Reagan.

Em seguida, George W. Bush foi tão longe em seu desejo de implementá-los que se retirou do tratado de mísseis antibalísticos (ABM) de 1972, assinado entre a ex-URSS e os EUA, e decidiu de acelerar os trabalhos para a instalação de elementos do escudo antimíssil norte-americano na Europa.

O presidente Obama, por sua vez, a fim de apaziguar as contradições com a Europa, usou uma “abordagem alternativa” que concede aos EUA o direito de participar da criação da defesa antimíssil europeia.


Ainda assim, a informação vazada durante reunião dos presidentes mostra que a princípio a Casa Branca está disposta a buscar acordos.

Um tom confiante que, aliás, tem faltado nas negociações russo-americanas nos últimos tempos. De qualquer modo, é óbvio que nenhuma das partes precisa de um novo confronto.

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