Relações perigosas

Reunião entre os presidentes dos EUA, Barack Obama, e da Rússia, Dmítri Medvedev Foto: AP

Reunião entre os presidentes dos EUA, Barack Obama, e da Rússia, Dmítri Medvedev Foto: AP

Reunião entre os presidentes dos EUA, Barack Obama, e da Rússia, Dmítri Medvedev, na cúpula sobre a Segurança Nuclear gera controvérsia nos Estados Unidos após frase não destinada à imprensa vir a público.

A polêmica foi causada por uma rede de televisão russa que deixou o microfone ligado durante um encontro privado entre os presidentes dedicado principalmente à problemática do escudo antimíssil norte-americano na Europa.

“Todas essas questões, especialmente aquelas referentes à defesa antimíssil, podem ser solucionadas, mas é importante que ele me dê mais espaço”, disse Obama, em aparente alusão ao presidente eleito, Vladímir Pútin, inclinando-se em direção a Medvedev.

O presidente americano também falou que, após as eleições presidenciais nos EUA, ele terá mais possibilidades de resolver esse assunto. “Estou entendendo. Vou passar essas informações para Vladímir”, respondeu o presidente russo.

Diante das declarações, Mitt Romney, eventual candidato à presidência pelo Partido Republicano, aproveitou a oportunidade para acusar o chefe de Estado norte-americano de favorecer seu “inimigo geopolítico número um”.

“Estou muito preocupado em ver que nosso presidente está planejando alguma ação com eles sobre a qual não pode informar os cidadãos antes das eleições”, declarou Romney a respeito da conversa.

Os 28 Estados-membros da Otan e Rússia colaboram como parceiros iguais no Conselho Otan-Rússia, criado em 2002. A aliança estratégica pressupõe a participação de seus membros nos processos de tomada de decisão ligados a temas de interesse mútuo.


De acordo com o documento “Conceito Estratégico da Otan”, aprovado na cúpula de Lisboa em novembro de 2010, os membros da aliança salientam a importância de uma "verdadeira parceria estratégica  entre a Otan e a Rússia", bem como seu compromisso de "reforçar as consultas políticas e cooperação prática com a Rússia nas áreas de interesse comum" e "usar o potencial de diálogo e ação conjunta do Conselho."

A Casa Branca se apressou em explicar que o presidente dos EUA não fez nenhuma promessa ao presidente russo, e lembrou apenas que, em um futuro próximo, Obama não teria tempo de tratar os problemas do escudo antimíssil.

Além disso, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, qualificou a declaração de Romney como desajeitada e ressaltou que os principais inimigos de Washington são Al-Qaeda e o Irã.

Medvedev, por sua vez, condenou o uso de expressões como “cheiram a Hollywood” por Romney e o aconselhou a “usar argumentos de razão”, lembrando que os tempos de “guerra fria” já acabaram.

Em resposta às críticas, Romney publicou um artigo na revista “Foreign Affairs” em que critica a posição do presidente Barack Obama sobre a defesa antimíssil.

“Se Obama não conseguir vencer os republicanos nessas eleições, as relações entre Rússia e EUA sofrerão mudanças”, disse o vice-diretor do Instituto de Estudos sobre os EUA e Canadá, Pável Zolotarev, em entrevista ao jornal russo “Vzgliad”.

“O processo de ‘reinício’ das relações bilaterais será estagnado, embora os interesses nacionais de ambos países coincidam na maioria das questões da agenda internacional”, completou. 

O comentarista político russo Konstantin von Eggert também publicou um artigo no jornal “Kommersant”, deixando claro que não leva a sério as declarações de Romney sobre a Rússia.

“Para Romney, é importante criticar Obama. Em compensação, Medvedev poderia ter se limitado à desculpa do “acerto de relógios” (por si só sarcástica) em vez de fazer alusões vagas à época do macartismo nos Estados Unidos”, assinala o jornalista.

O analista político Dmítri Suslov diz que as declarações de Romney são de natureza (pré-) eleitoral. "Se analisarmos as circunstâncias, as relações russo-americanas tornaram-se vítima de brigas internas nos EUA e um motivo encontrado pelos republicanos e seu candidato principal para descredibilizar Obama", comenta Suslov.

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