“O Idiota”, um mergulho em Dostoiévski

Aury PortoU e Sergio Siviero Foto: Caca Bernardes

Aury PortoU e Sergio Siviero Foto: Caca Bernardes

Música ao vivo, marchinhas de carnaval, candomblé, pausas em que os atores saem dos personagens e “revelam” a encenação e uma festa em que o público participa e bebe champanhe compõem a dramaturgia que costura a cultura russa à brasileira na montagem de “O Idiota – Uma Novela Teatral”

Jorge Luis Borges achava que ler Dostoiévski (1821-1881) era “penetrar em uma grande cidade que desconhecemos”. Já para a peça “O Idiota – Uma Novela Teatral”, adaptação do escritor russo, penetramos num casarão mais que centenário da rua Três Rios, região central da cidade de São Paulo.

No edifício, localizado no Bom Retiro, funcionou uma antiga escola de farmácia. No final do século 19, o bairro era ocupado por antigas chácaras de veraneio de famílias abastadas – equivalentes às “datchas” russas.

Inaugurado em 1905, o prédio hoje abriga um centro cultural que celebra seus 25 anos com a encenação de Dostoiévski pela “mundana companhia”, cujo coletivo de atores prefere ser grafado com letras minúsculas.

Aury Porto, Luah Guimaraez, Segrio Siveiro Foto: Ligia Jardim


A montagem já foi apresentada no Festival de Artes Europalia, em Bruxelas, ganhou o prêmio especial da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e teve indicação para vários outros: prêmio Bravo, Cooperativa Paulista de Teatro (melhor elenco e espaço não convencional), Shell (cenário, figurino, iluminação e direção) e Questão de Crítica (iluminação, figurino, direção, ator, atriz, adaptação e elenco).

A diretora Cibele Forjaz não abre mão de montagens sensoriais e do encontro vivo com o público. No casarão, monta um espetáculo de seis horas e meia (com dois intervalos) e opta pela “ocupação do espaço”.

A plateia se desloca por um saguão com teto de vidro, por um pátio interno sob uma frondosa árvore e ao largo de uma cozinha industrial. É uma experiência, um rito teatral. A trama sintetiza os 50 capítulos da obra original, publicada em folhetins, entre os anos de 1868 e 1869.

Hoje, as mais de seis horas de espetáculo são encenadas num único dia. Porém, em outras oportunidades (as primeiras apresentações foram feitas em 2010), eram divididas em três dias, ao estilo dos capítulos de novelas televisiva, reproduzindo um traço marcante de nossa cultura. Em cena, retrata-se a história do príncipe Míchkin, um virgem piedoso que volta a São Petersburgo depois de se tratar de epilepsia na Suíça. No regresso, encontra uma sociedade corrompida e interesseira, com a qual se relaciona ingênua e compassivamente – daí porque o chamam de “idiota”.

Sylvia Prado, Silvio Restife, Fredy Allan, Luis Marmora, Aury Porto e Luah Guimaraez Foto: Caca Bernardes

O crítico Otto Maria Carpeaux resumiu o personagem principal como um “Quixote do cristianismo”. Ele notou que, assim como na Rússia, Dostoiévski faz conviver nos seus romances personagens celestiais e infernais, qual vozes de uma grande família dividida por ódios fratricidas. É esse carnaval de vozes que se mostra na peça. A mistura radical mescla os atores com a plateia, que tem acesso ao drama real dos personagens e aos seus delírios.

Música ao vivo, marchinhas de carnaval, candomblé, pausas em que os atores saem dos personagens e “revelam” a encenação e uma festa em que o público participa e bebe champanhe compõem a dramaturgia que costura a cultura russa à brasileira.O elenco é composto por dez atores (Aury Porto, no papel do ético e piedoso príncipe Míchkin, Luah Guimarãez, interpretando Nastássia Filípovna, além de Beatriz Morelli, Fredy Allan, Luís Mármora, Otávio Ortega, Sergio Siviero, Silvio Restiffe, Sylvia Prado e Vanderlei Bernardino), e uma equipe de apoio que totaliza quase 30 pessoas na montagem do espetáculo.

A adaptação do livro para o teatro foi feita por Aury Porto. “Ainda adolescente, o Aury se encantou com o romance. Mas, hoje, achamos importante trazer o discurso do amor feito por um homem bom que as pessoas achavam ridículo”, disse à Gazeta Russa a atriz Luah Guimarãez. Aury Porto elogia os efeitos visuais da encenação de Cibele Forjaz, mas também sublinha que a montagem foi idealizada pelos membros da "mundana companhia", grupo criado com a proposta de promover a retomada da participação mais ativa dos atores nas produções.

“Não abrimos mão dos encenadores de força, mas queremos um teatro rico em criatividade”, afirma Porto, explicando que a companhia não tem um diretor fixo e prefere escolher a equipe conforme o espetáculo e as afinidades. Em fins de abril, por exemplo, o diretor russo Adolf Shapiro estará novamente no Brasil para trabalhar na montagem de “Pais e Filhos”, de Ivan Turguêniev, com a “mundana companhia”.

Sua parceria com a trupe data de 2010, no centenário da morte de Anton Tchekhov, quando dirigiu a peça “Tchekhov 4 - Uma Experiência Cênica”. A encenação de temas russos, cada vez mais frequente em nossos palcos, conta, só no mês de março, em São Paulo, também com uma adaptação do poeta surrealista Daniil Kharms (“Ridículos, Ainda e Sempre”, do grupo Parlapatões) e com a história de Ivan Mishukov (“Ivan e os Cachorros”), o menino que, dos quatro aos seis anos, viveu nas ruas de Moscou na companhia de cães.

“O Idiota – Uma Novela Teatral” será encenada em eventos por todo o país. Inicialmente, no Festival de Teatro de Curitiba, entre os dias 28 de março e 2 de abril, sempre às 19:30, no Cietep Horácio Coimbra. Depois, a montagem será levada ao Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte, nos dias 19, 20, 22, 23 e 24 de junho. E entre um festival e outro, ficará em cartaz em outras cidades brasileiras.

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