Uma fábrica de carros sem depósito

Foto: Artem Zagorodnov

Foto: Artem Zagorodnov

A gigante dos carros Sollers mostra como instalar uma fábrica de automóveis rentável no extremo oriente da Rússia.

No auge da crise econômica em 2009, a cidade de Vladivostok, no extremo leste da Rússia, eclodiu em protestos após uma decisão de Moscou de aumentar os impostos de importação sobre carros. Os moradores saíram às ruas para defender a principal fonte de renda de todo o extremo leste – dirigir carros de segunda mão japoneses até os territórios ocidentais do país para revenda a um lucro substancial. Depois da introdução das novas tarifas, o número de carros importados anualmente despencou de mais de 200 mil para cerca de 60 mil.

Quando milhares de policiais de choque de Moscou foram enviados para restabelecer a ordem, o primeiro-ministro Vladímir Pútin deu uma solução – montar os carros no extremo oriente, tornando as marcas japonesas e coreanas de fabricação nacional e, assim, não sujeitas aos mesmos impostos. Até o fim do naquele ano, a fábrica de automóveis Sollers, em Vladivostok, que atualmente fabrica cinco modelos de SUV da SsangYong, foi inaugurada após transferir sua produção anterior no Tartaristão. "Foi uma decisão política", explicou Vassíli Avtchenko, autor e correspondente do jornal Novaia Gazeta em Vladivostok. "Era parte de uma estratégia mais ampla de incentivo e castigo para posicionar a produção de carros na Rússia.”

Após dois anos de trabalho, o projeto está sendo considerado um sucesso pela gerência da Sollers, que prontamente nega qualquer vínculo político. “A Sollers é uma empresa privada com um conselho independente de diretores; o governo não define nossa estratégia de desenvolvimento”, explicou o diretor da Sollers no extremo oriente, Aleksandr Korneitchuk, em seu ostentoso escritório no terceiro andar da fábrica com vista para o porto de Vladivostok. Essa semana, a Sollers do extremo oriente lançou a produção do seu quinto modelo, o Action – o primeiro cujo motor não é movido a diesel. A produção do Action isoladamente deverá ultrapassar 15 mil unidades este ano, enquanto a estimativa total de produção carros deverá atingir 35 mil contra 25 mil unidades de 2011.

“Embora tivéssemos pensado em relocar a produção dos modelos SsangYong de nossa fábrica no Tartaristão para a costa marítima há algum tempo, era preciso uma decisão política para justificar os investimentos de infraestrutura necessários”, explicou Korneitchuk. As instalações empregam atualmente 650 trabalhadores, em sua grande maioria jovens. A idade média dos funcionários é 27 anos, e quase um terço deles ocupa posições de gerência ou treinamento nos escritórios localizados nos andares superiores da fábrica.

A Sollers construiu uma fábrica praticamente do zero em tempo recorde no espaço de uma estação de reparação naval desativada. Suas instalações laranja e azul contrastam com os tijolos e janelas quebradas dos prédios vizinhos. Quando a empresa se mudou para o local, a água era disponível apenas por duas horas ao dia. Sessenta milhões de dólares foram gastos em infraestrutura da fábrica até agora, com uma conexão de gás ainda a 800 metros de distância. “Quando tivermos a conexão de gás pronta no fim deste ano, seremos capazes de começar a pintar os carros aqui no local. Teremos uma linha completa de produção de carros até 2014”, afirmou Korneitchuk. 

Todas os itens são importadas da Coreia do Sul. Cada modelo é montado peça por peça até que ocorre, no fim de um dos dois tipos de linhas de montagem, o processo que os trabalhadores chamam de “o casamento”, quando a carcaça é associada ao esqueleto do carro. Os automóveis então passam por um teste de segurança antes de serem enviados por trem para a Rússia Ocidental. Menos de 5% dos carros produzidos na fábrica de Vladivostok da Sollers são consumidos no próprio extremo oriente. As exportações para países vizinhos não estão nem sendo consideradas, pois a Rússia “possui o segundo maior mercado em crescimento de veículos “off-road” – carros para terrenos acidentados – do mundo, após os Estados Unidos”, completou Korneitchuk.

Apesar da vista sombria pela janela, o local tem sido ideal para a operação da Sollers. "Nós trazemos os kits de montagem direto da docas para cá", apontou Korneitchuk, “e os colocamos na ferrovia por ali. Tudo está a uma distância de um quilômetro. Nossa fábrica não possui um depósito, pois não precisamos disso. Se o transporte atrasa, temos que parar a produção”. Transferir a linha de montagem para as instalações de Vladivostok permitiu a Sollers reduzir o preço dos modelos SsangYong em todo o país (e vender mais, de acordo com Korneitchuk), cujo preço atual no extremo oriente varia entre 24 e 40 mil dólares. 

Os críticos apontam que a operação tem sido rentável graças aos subsídios federais que conferem a Sollers um enorme desconto no transporte dos carros pela rede ferroviária russa – subsídios que irão eventualmente acabar. Porém, Korneitchuk tem seus olhos num andar ainda mais alto: “Ao longo das últimas duas décadas, os carros japoneses conquistaram uma certa reputação por toda a Sibéria. As pessoas conhecem e gostam tanto deles que não é preciso fazer nem publicidade, uma grande economia em termos de custo”, explicou.

A Sollers está atualmente em negociações com a Mazda e s Toyota para iniciar a montagem de alguns de seus modelos em Vladivostok (o Toyota Land Cruiser Prado pode ser lançado no fim deste ano). “A fase inicial desse projeto foi realizada para convencer os principais parceiros internacionais de que é possível montar carros aqui, e nós fizemos isso”, disse Korneitchuk, acrescentando que “quando os carros japoneses forem montados aqui em Vladivostok, vamos esmagar o mercado de carros de segunda mão”. As novas linhas de montagem serão lançadas nos prédios desocupados vizinhos, independente da disputa pela propriedade. “Esses prédios podem estar abandonados, mas eles ainda possuem donos”, enfatizou.

Enquanto isso, a Sollers tem um compromisso com o governo federal de implementar a produção de autopeças a cada ano que passa. Até 2015, não menos que 10% das peças presentes nos carros produzidos em Vladivostok terão que ser de produtores locais. “Encontramos parceiros dispostos a investir no início de tais operações na região”, contou.

Ainda assim, Avtchenko se mostra cético em relação a possibilidade de surgir um complexo de design e fabricação automobilística de larga escala no extremo oriente em um curto período de tempo. “Acredito que as políticas de países vizinhos podem impedi-los de instalar fábricas aqui, embora as barreiras para estabelecer negócios fossem provavelmente compensar eventuais economias nos custos de mão de obra”, disse.

Mesmo com todo o sucesso, a fábrica da Sollers no extremo oriente só monta ainda carros estrangeiros em suas instalações. Os russos frequentemente lamentam a ausência de uma marca nacional com reputação. “Chegou a hora”, afirma Korneitchuk. "A Rússia tem cerca de cinco anos pela frente até que a demanda interna seja saciada e o mercado comece a apresentar taxas de crescimento normais. A Lexus mostrou que se pode erguer uma marca mundial de automóveis respeitável em meio a um mercado interno normal, mas será muito mais difícil depois se não fizermos isso agora.”

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