As verdades de Elke Maravilha

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Ex-modelo, ex-jurada de programas de auditório, atriz, estilista, cantora, poliglota, nascida em Leningrado, onde viveu até os sete anos, Elke (Gronup) Maravilha bate um papo com a Gazeta Russa sobre referências, passado na Rússia e sucesso no Brasil.

Quando eu vejo a Lady Gaga, ela me lembra um pouco você. Ela copiou seu estilo?

Todo mundo fala. Dizem: ela te copiou. Não, ela não me copiou. Algum assessor dela... Bem, tem umas coisas que não podem nem ser coincidências. Deve ter algum assessor que gostou, achou bonito. Eu me sinto honrada com isso. Por exemplo, alguns anos atrás eu inventei um casaco de cabelo. Seis meses depois, Jean-Paul Gaultier fez um casaco de cabelo! A ideia foi minha! Dizem que eu fui a primeira a usar cabelos coloridos. Não. As primeiras a usar cabelo colorido foram as mulheres-faraós do Egito. Elas raspavam a cabeça e usavam perucas coloridas. Eu peguei essa ideia do passado e remeti para o futuro.  Antes de mim eu nunca tinha visto.

Você já voltou à Rússia?

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Eu fui três vezes à Rússia. Da primeira vez, eu tinha 22 anos. Eu gosto da Rússia, acho legal. Mas não é uma paixão. Eu estive lá duas vezes no alto comunismo e uma vez depois que caiu. Eu gostei.

Eu gostei do povo porque é um povo transparente. Mesmo que ele seja mau ele não tem medo de mostrar o mau que ele é. Então, a gente sabe bem onde está pisando com ele. Ele não fica dando risada da tua cara e depois dá uma facada nas costas, não. 

Se ele quiser dar uma facada ele vem direto na tua frente. Nesse ponto eu acho legal. Se estão bravos, estão bravos. São muito amorosos. Dos povos brancos é o mais amoroso e também o mais bravo. É um povo sem filtro. E é bipolar.

Você reencontrou seu passado?

A última vez que eu estive na Rússia, já tinha caído o comunismo. O meu bisavô foi a pessoa mais rica da Rússia depois dos czares.

Ele era muito, muito rico, uma riqueza que não tem no Brasil. Banqueiro. Da noite para o dia ele perdeu tudo na revolução comunista. Bem feito. Ficou louco, foi amarrado, e ficou em chagas até morrer.

O sobrenome era Cerezniof. As pessoas me diziam: “Cerezniof? Você tem que pedir ao governo o dinheiro dele, agora que caiu o comunismo”. Eu falo: “Não, meu amor. Primeiro, porque é um dinheiro maldito e segundo: eu não fiz nada para ganhá-lo”.

Seu sucesso no Brasil também se deve ao fato de você ser russa?

Acho que não. Bem, claro que, com a bipolaridade, pode ser. Porque o russo é um povo que ri muito. É um povo que dança muito, que bebe muito e eu sou assim.

Isso talvez ajude, sim. Mas tem o outro lado. O brasileiro não gosta de ouvir as verdades que o russo fala. E eu falo as verdades que o russo fala.

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Certo dia você disse: “Silvio Santos é a pior pessoa do mundo!”

Ah, sim. E é mesmo (risos). Perguntaram pra mim: qual é a melhor pessoa do mundo? “Chacrinha”. E qual é a pior? “Silvio Santos”. Eu trabalhei com o pior e o melhor.

Mas por que Silvio Santos é o pior?

Tem uma palavra em alemão de que eu gosto muito: feingefühl. Literalmente, seria “sentimento fino”. Mas é muito mais.

É uma daquelas palavras alemãs sobre as quais você pode fazer um compêndio. Engloba respeito, educação e muitas outras coisas. E é uma coisa que o Silvio Santos não tem.

Ele já teve a cara de pau de comparar Jesus Cristo com Collor de Mello! Eu não sou judia, mas não comparo Moisés com Collor de Mello! Respeito é bom! Feingefühl! E, ali naquela convivência, eu não vi respeito.

Aliás, Pedro de Lara tem uma frase que é ótima. Agora eu posso dizer porque o Pedro já morreu. Ele disse um dia, se referindo a Silvio Santos: “É, Elke, tem gente que é tão pobre, tão pobre, que só tem dinheiro”. Eu gostaria que essa frase fosse minha.

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E por que Chacrinha é o melhor?

Durante os 14 anos que trabalhei com Chacrinha vinha gente do mundo inteiro, inclusive da Rússia, estudar o fenômeno Chacrinha.

Era comunismo na época, e eu perguntei aos russos: “Por que vocês vieram estudar o Chacrinha?” Eles me disseram:  “Nós temos os melhores palhaços do mundo e nós sabemos que palhaço não dá certo na televisão, só em circo. Então, viemos estudar o Chacrinha porque ele deu certo em televisão”.

Ele gostava muito de mim e eu muito dele. Eu não ganhava muita grana com ele, mas era uma ótima vitrine.

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Essa vitrine permitia fazer shows no país todo. Era seguro fazer show em Serra Pelada?

Eu fiz vários shows na Serra Pelada. 140 mil homens. Quando eu fui ensaiar um dia eu cheguei lá e tinha oito caras com metralhadora para a minha segurança. Eu estranhei. Falei: “Eu não quero”. “Tem que ter. Você não sabe o que aconteceu com a Gretchen? Com a Rita Cadillac?”

Por que você foi presa durante a ditadura?

Em 1971, eu fiquei presa no Dops [Departamento de Ordem Política e Social], perdi a cidadania brasileira - eu era naturalizada - e virei apátrida.

Até hoje sou apátrida. Não porque eu seja de esquerda – não acredito em direita nem em esquerda. Fui presa porque arranquei uns cartazes de “procura-se terroristas” no aeroporto do Rio de Janeiro.

Você era muito assediada, muito paparicada?

Uma vez, quando eu tinha 30 e poucos anos, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana eu dou de cara com Carlos Drummond de Andrade. Falo com ele? Não, não tenho coragem.

Aí ele veio falar comigo. Ele me abraçou, me abraçou e falou: “Elke, eu sou doido por você!” Quase caí de bunda, né? Imagina o Drummond dizer que é doido por mim...

Ele falou: “Pois é, você sabe que eu sou fechado, sou uma pessoa triste, taciturna. E quando estou bem triste, ligo a televisão, te vejo, fico alegre, fico até feliz. Mas uma coisa eu não entendo: como é que você é desse jeito, e é de Itabira, de Minas Gerais.? Você é muito diferente da gente!”

“Por que eu sou alta e loira?”, perguntei. Ele falou: “Não é a imagem, é tua alma. Muito diferente. Nós, mineiros, somos fechados, somos taciturnos, ficamos em cima do muro. E você é o oposto disso”. “Meu coração é mineiro, mas eu nasci em Leningrado”. E ele: “Ah, então não precisa dizer mais nada. Já entendi tudo!”

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