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Bandas russas se apresentam no Brasil neste final de semana Foto: Arquivo pessoal

Bandas russas se apresentam no Brasil neste final de semana Foto: Arquivo pessoal

Duas bandas russas anarco-punk se apresentam no Brasil a partir da próxima sexta-feira (9). Ankylym faz mistura de folk e metal com letras irônicas, enquanto x_O.C.A._x estreia grindcore com letras tiradas de fórum da internet.

Se na sua cidade a previsão do tempo indicasse temperaturas entre 9°C negativos ou, na melhor das possibilidades, 1°C positivo para os próximos dez dias, com neve à vontade em oito deles, e surgisse a oportunidade de conhecer o Brasil em pleno verão, você não pensaria duas vezes, certo?

Pois foi o que rolou com as bandas russas Ankylym e x_O.C.A._x. Fugindo do frio de São Petersburgo, as duas resolveram fazer uma turnê pelo Brasil, onde se depararam com um verão ensolarado. Em Santos, primeira parada da tour, a previsão para período variava de 21°C a 32°C positivos.

 

O vocalista Iliá Alekseiev canta em São Paulo Foto: Arquivo pessoal

Os grupos têm basicamente a mesma formação, com poucas variações. O que mais muda é o estilo: enquanto o Ankylym mistura música folk russa e rock - seja metal, hardcore ou até mesmo pitadas de ska -, o x_O.C.A._x faz um som mais comum aos ouvidos dos amantes de sons extremos – grindcore ultrarápido e trash metal ou, em bom português, aquela boa e velha “disgracêra” de urros guturais e gritaria exacerbada.

Em São Paulo, os grupos já se apresentaram no final de fevereiro no Sattva Bordô, na Praça Roosevelt. Antes do show, a Gazeta Russa conversou com Iliá Alekseiev, 33, vocalista e fundador das duas bandas.

Como foram os shows no Sattva Bordô, em São Paulo


Quem ouve as letras da x_O.C.A._x gritadas em ritmo frenético não pode imaginar que elas sejam tiradas de um fórum de discussão na internet.

Mais do que uma banda, x_O.C.A._x é um projeto que une uma série de bandas, e surgiu quando o vocalista Iliá Alekseiev percebeu que textos do fórum Punk.Ru poderiam passar por letras de uma banda punk-hardcore. Assim como um comentário na internet, seu show é bem pesado, porém curto -  tem pouco mais de 30 minutos.    

 

 Misturando música tradicional russa e rock pesado, o Ankylym faz o que intitula folk-slaughter e art-chaos folk.

As letras são baseadas em trechos “fofos” de poemas, canções de ninar etc., cantadas de modo brutal. Cria-se, assim, um efeito irônico – pelo menos para quem entende a língua, ainda mais cantada àquela velocidade.

Depois de seguirem para a a Argentina, as bandas voltam ao Brasil para três shows: dias 9 e 10 de março no Rio de Janeiro e 11 de março novamente em São Paulo. Para saber mais, confira o calendário cultural da Gazeta Russa.

 

Iliá conta que todos os integrantes têm outra vida além das bandas, outros empregos. A música é uma maneira de abrir a mente e expressar seus sentimentos. “Quando gravamos discos nós gastamos dinheiro, quando estamos em turnê nós gastamos dinheiro”, disse á Gazeta Russa. “Fazemos isso para conhecer novas pessoas, conhecer novas culturas, viajar e dividir nossa música e nossas emoções com pessoas diferentes”, completa.

Ao contrário de outras bandas punk e hardcore russas, que se restringem a apresentações na Europa, eles resolveram inovar. E foi assim que resolveram excursionar pela América do Sul: a ideia original era passar por Brasil, Argentina e Peru, mas não tiveram resposta do contato peruano.

Na melhor tradição do it yourself aliada às atuais facilidades tecnológicas, Iliá digitou no google “punk”, “hardcore”, “Brazil”, “clubs”. Em um dos sites encontrados pela ferramenta, postaram uma mensagem expressando a vontade de tocar na região. Para sua surpresa, receberam diversas respostas.

O músico vê similaridade no “jeito” de brasileiros e russos, mas não em tudo. O que o impressionou em São Paulo foi o tamanho da cidade - a população da cidade é o dobro da de São Petersburgo. Outra coisa que chamou a atenção de Iliá foi o abismo social entre as classes. Segundo ele, as diferenças na Rússia não são tão gritantes como no Brasil.

 

Punks misturam o folk russo da balalaika a sua música Foto: Arquivo pessoal


E o que ele conhece de música brasileira? A resposta é a mesma há mais de 20 anos: Sepultura (durante o show eles fizeram uma versão ska de Refuse/Resist). A banda já foi uma das mais populares da Rússia, de acordo com Iliá, e tocou no país ainda durante os anos 90. Ele também conhece Ratos de Porão e algumas bandas de grindcore, punk rock e hardcore extremo brasileiras, cujos nomes não se recorda, porém.

De acordo com Iliá, houve repressão, ainda depois da queda da União Soviética, aos roqueiros do país. “Alguns músicos que tocavam rock eram intimidados pelos agentes da KGB. Se tocasse rock, você podia ter problemas no trabalho, com a família”, lembra.

Por isso, segundo ele, O “Monsters of Rock”, festival que teve edições em São Paulo e também em Moscou, ainda em 1991, foi marcante para a nova Rússia que florescia naquele momento. Durante o evento, a capital russa recebeu bandas como AC/DC, Metallica e Pantera

Foi então que os estilos passaram a se diversificar, e bandas de pós-punk, new wave, blues, folk davam mais importância às que à música em si.

Versado, Iliá só para de falar para provar seu espetinho de queijo com caipirinha de pinga. Mas diz que preferiria o queijo em forma de porção e uma taça de vinho no lugar da bebida tradicional brasileira.

Para saber as datas e locais dos shows, confira o calendário cultural da Gazeta Russa.

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