De pôsteres a ícones, a trajetória dos cartazes russos

Exposição em cartaz no Instituto de Arte de Chicago, atraiu atenção internacional para os pôsteres soviéticos antiguerra.

A história dos pôsteres produzidos pelos estúdios TASS, 1941-1945

A exposição “Janelas da Guerra: Pôsteres Soviéticos dos estúdios TASS em casa e no exterior, 1941-1945”, exibida no Instituto de Arte de Chicago, atraiu atenção internacional para os pôsteres soviéticos antiguerra. O historiador de arte Konstantin Akincha foi um dos curadores convidados da mostra e colaborou na produção do catálogo. Na entrevista abaixo, ele explica como os pôsteres foram encontrados e por que eles são tão importantes.

O catálogo compõe uma abrangente reflexão sobre a arte dos pôsteres dos estúdios TASS de Moscou, e os curadores e pesquisadores esperam criar um site independente dedicado aos cartazes de guerra. 

Como esses pôsteres dos estúdios TASS foram descobertos?

 

Há algum tempo, um grande rolo de pôsteres de propaganda soviética foi encontrado entre dois muros falsos durante reformas no Instituto de Arte de Chicago. Ninguém sabiam que os colocou ali, quando e por qual motivo. Os pôsteres foram então restaurados. A questão era o que deveríamos fazer com eles. Então Peter Zegers, um dos curadores, deu a ideia de realizarmos uma exposição com esse material. Ele também trabalhou bastante para que isso acontecesse; diria que foi praticamente fruto do seu empenho. Nós começamos a pesquisa e, em nossas visitas por todo o país, descobrimos que muitas instituições nos Estados Unidos têm pôsteres do gênero, porque na época soviética havia uma grande distribuição desse material no exterior, até mesmo por assinatura. O único problema é que esses pôsteres haviam sido impressos em papel de jornal, que era bastante frágil; sendo assim, após algum tempo os cartazes estavam literalmente caindo aos pedaços. Muitas instituições norte-americanos tinham exemplares, mas em péssimas condições.

É importante saber que durante a Segunda Guerra Mundial alguns cartazes foram impressos em diversas partes, que posteriormente eram coladas juntas. Então, quando fomos à Instituição Hoover de Stanford, encontramos muitas partes separadas que haviam sido impressas em papel resistente, algo bastante incomum. Fomos coletando esse material, pedaço por pedaço, como um quebra-cabeça…

Como esses pôsteres sobreviveram ao tempo? 

 

Esse lote foi impresso em um papel grosso especialmente para uma exposição no Instituto Americano Soviético de São Francisco, e um lote similar foi encontrado nos depósitos do MOMA. A parte mais intrigante da história é que a URSS não tinha esses pôsteres, porque muitos dos primeiros, de 1941, não sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Infelizmente, a maioria se perdeu ou foi destruída, especialmente quando o exército de Hitler estava próximo a Moscou – todos estavam em pânico e, é claro, salvar os pôster dos estúdios TASS não estava no topo das prioridades naquele momento.

Algumas dessas imagens ainda existem na Rússia, mas somente em pequenas fotografias em preto e branco. Então, ao preparar a mostra, nos deparamos com descobertas impressionantes. Todas as instituições de arte e colecionadores particulares aos quais recorremos nos emprestaram aquilo que desejávamos. Não tivemos que entrar em contato com a Rússia para isso – o que foi bom, já que, no ano passado, as normas russas para empréstimo e transporte de obras de arte tornaram-se mais restritas. Portanto, se tivéssemos precisado da ajuda da Rússia, nossa exposição poderia ter sido bem diferente do que realmente foi. 

Você poderia nos contar um pouco a história desses pôsteres na União Soviética? 

 

Os chamados pôsteres “Okna TASS” foram um fenômeno exclusivo. Poucos dias depois da Alemanha ter declarado guerra à União Soviética, no dia 22 de junho de 1941, um grupo de artistas teve a iniciativa de criar alguns materiais de propaganda para elevar o espírito de luta do povo soviético na tradição artística do Okna Rosta, a série de cartazes da Guerra Civil. A lista de artistas incluía grandes nomes, como, por exemplo, Mikhail Tcheremnikh, que havia trabalhado com Vladímir Maiakóvski. Na verdade, Maiakóvski teve uma influência nesse projeto muito maior do que se pode imaginar.

Em 1940, o país inteiro estava comemorando o 10° aniversário da morte do poeta futurista. Joseph Stálin tinha se referido a ele como um dos melhores poetas de nossa época, então a linha geral do partido era clara. O ano de 1940 foi dedicado a Maiakóvski, às vezes de um modo bem estranho. Todo mundo tentava se aproveitar da imagem do poeta. Do nada, alguns antigos artistas de vanguarda, ignorados pelo regime, passaram a escrever memórias sobre quão próximos eram de Maiakóvski, pois essa era a única maneira de retornarem à comunidade artística. Pessoas de diversas origens tentavam demonstrar sua conexão com o poeta, o que, por vezes, não passava de mera invenção – mas foi um grande impulso social na época. Uma enorme exposição permanente dedicada a Maiakóvski deveria ser inaugurada no dia 22 de junho de 1945, em Moscou, mas o bombardeio a Kiev pelos alemães atrapalhou os planos.

Todas essas histórias sobre como os pôsteres foram distribuídos na linha de frente e inspiraram os soldados e oficiais soviéticos a lutar melhor contra o inimigo, ou como os guerrilheiros cruzaram a linha de frente envoltos nesses pôsteres e depois coloram os cartazes no lado inimigo não são nada além de belíssimas lendas.  Os pôsteres “Okna TASS” estavam presentes sobretudo em Moscou. Entretanto, eles se tornaram mais e mais populares – talvez não entre aqueles lutando pelo país na linha de frente, mas entre os moradores das cidades. Em determinado momento, suas versões menores, litográficas, que eram muito mais fáceis de produzir, começaram a se espalhar por todos os cantos, e esse foi o principal motivo de tamanha popularidade. Algumas imagens tornaram-se icônicas e acabaram sendo transformadas em cartões postais.

Nesse meio tempo, a tecnologia de produção tornou-se mais complicada, com mais cores, então os artistas geralmente ultrapassavam o seu próprio orçamento. Segundo Stálin, na hierarquia da arte as pinturas ocupavam o topo, portanto a ideia era produzir um objeto que fosse ao mesmo tempo único e massificado, o que é um paradoxo por definição.

O conselho dos estúdios TASS queria melhorar o trabalho e produzir filmes – com luz e slides – e desenhos animados baseados nas imagens “Okna Tass”, um gênero de animação totalmente revolucionário. Naquela época havia caixas de luz nas ruas de Moscou, passando esses pôsteres e fotografias de guerra.

Como os pôsteres de propaganda soviética se tornaram tão conhecidos fora da União Soviética? 

 

Esses pôsteres e imagens ganharam vida nova quando repentinamente se tornaram um item comum de exportação. Alguns pareciam estranhos, outros bonitinhos, alguns eram bem engraçados, então acabaram chamando muita atenção em países estrangeiros. Os pôsteres dos estúdios TASS foram exportados por diferentes canais, incluindo o Partido Comunista. Primeiro eles foram enviados para os Estados Unidos, depois para o Reino Unido, e então para muitos outros países da América Latina à China, a partir de 1942. Inúmeras exposições de pôsteres soviéticos antiguerra foram realizadas em diversos países, uma atrás da outra, incluindo mostras no Metropolitan Museum e no MOMA, em Nova York, e em algumas instituições de arte de Chicago. Os pôsteres foram bastante noticiados pela mídia, e também traduzidos e usados, por exemplo, nos Estados Unidos, para elevar o espírito dos Aliados na Segunda Guerra. Porém, depois do fim da guerra, todo mundo meio que esqueceu a existência deles.

Qual foi a reação das pessoas à exposição em Chicago? 

 

Em primeiro lugar, gerou uma reação emotiva muito forte dos imigrantes soviéticos de gerações anteriores: eles ficaram muito emocionados e vieram repetidas vezes. Estou falando sobre pessoas com 60 anos ou mais, aquelas que emigraram da União Soviética, e não da Rússia. Embora tenham passado por momentos muito difíceis na União Soviética, elas adoraram a exposição. Também tem um grupo grande de pessoas fascinadas por histórias de guerra e que vêm de muitas outras cidades e estados do país.

Aconteceram algumas mostras relacionadas na Universidade Noroeste e na Universidade de Chicago...tudo acabou se tornando uma espécie de festival de pôsteres soviéticos, então foi um grande acontecimento em Chicago. 

Fale um pouco sobre a organização da mostra e do catálogo… 

 

Contamos com quatro curadores, além de alguns pesquisadores. Posso comparar o trabalho à construção de uma catedral. Era difícil pelo fato de serem muitas opiniões. A ideia original era ilustrar cada dia da guerra, mas ficamos com receio de que o visitante se cansasse antes da metade…Ainda assim, trata-se de um conteúdo bastante abrangente dos momentos da guerra. Inicialmente, o plano era inaugurar a mostra no dia 22 de junho, data em que ocorreu o ataque fascista contra a União Soviética, mas tivemos que ajustar alguns detalhes e a inauguração acabou ficando para julho. 

Nossa exposição em Chicago foi enorme, um pouco grande demais, creio eu. Havia 250 pôsteres, fora os materiais adicionais. Era realmente difícil visitar tudo de uma única vez, parecia interminável. Fizemos algo que nunca havia sido feito antes, foi a maior exposição de pôsters de propaganda soviética da história.

A primeira edição do catálogo esgotou instantaneamente, então tivemos que imprimir uma nova edição. [Nota do Editor: O catálogo está disponível no site do Instituto de Arte de Chicago]  

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