“Brasil e Rússia estão deixando dinheiro em cima da mesa”, lamenta o presidente da Febraban

Anatóli Aksakov (no centro) e Murilo Portugal (à dir.) Foto: Divulgação

Anatóli Aksakov (no centro) e Murilo Portugal (à dir.) Foto: Divulgação

Encontro histórico entre bancos russos e brasileiros visa incrementar comércio entre os dois países.

Desde 1967, quando foi fundada, a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), que congrega os 167 bancos do país, recebeu pela primeira vez uma delegação de banqueiros russos na última terça-feira (27), em sua sede.

O presidente da Febraban, Murilo Portugal abriu os trabalhos diante de uma grande mesa, em torno da qual perfilavam-se, de um lado, 13 brasileiros e, do outro, 13 russos.

Não havia plateia, e uns poucos jornalistas puderam acompanhar o encontro histórico. Foi meio a portas fechadas porque o maior objetivo era executivos da área bancária dos dois países trocarem informações para conhecerem melhor os sistemas de cada país.

Durante as quatro horas de reunião, ouviram-se 12 exposições, sete feitas por brasileiros e cinco por russos. Ficaram muito nítidas as diferenças e as semelhanças entre os dois países e os seus sistemas bancários. “Nós tínhamos 3 mil bancos antes da crise de 2008, e agora infelizmente temos 1.000”, disse o Anatóli Aksakov, presidente da Associação dos Bancos Regionais da Rússia. O que para ele foi um recuo, para Portugal é um avanço.

 “Acho que em algumas áreas talvez o Brasil esteja um pouco mais adiantado no processo do que a Rússia. Me chamou a atenção, por exemplo, a menção do presidente Anatóli para o processo de consolidação bancária pelo qual a Rússia vem passando, com 3 mil bancos comerciais se reduzindo a 1.000. Aqui no Brasil também estamos nesse processo, talvez numa fase um pouco mais avançada: temos apenas 167 bancos no país inteiro. Então, talvez haja algumas lições aí que se possam inferir”, disse Portugal. 

“Na minha opinião, se o banco é fraco, ele tem que fechar. Mas diminuir por diminuir não é o caso”, disse Aksakov. Outro ponto de divergência diz respeito à internacionalização. “A crise de 2008 foi muito pesada para a Rússia, dos países do G-8 tivemos os níveis mais altos de queda do PIB, de 8%. A produção industrial caiu 10%”, conta Aksakov.

A recuperação deu-se com forte ajuda do governo, que injetou 200 bilhões de dólares no sistema financeiro (dos 590 bilhões das reservas acumuladas). “Todas as empresas sobreviveram porque os bancos puderam oferecer uma vasta quantidade de crédito, e os 200 maiores bancos não sofreram perdas”, disse Aksakov.

Debelada a crise, os bancos russos entraram num período de vacas gordas. “A disponibilidade de crédito cresceu 1,5 vezes nos últimos cinco anos.  O crédito para a população cresceu 36% em 2011, a população deixou de guardar dinheiro em casa para colocá-lo nos bancos”, completa.

 A onda de prosperidade dos bancos conduziu à aquisição de bancos fora da Rússia. “Bancos russos começam a comprar bancos europeus, que estão mais baratos agora”, disse o representante da delegação russa.

Portugal, entretanto, não considera este um bom caminho. Segundo ele, os bancos brasileiros estão também num processo de internacionalização. “Não para a Europa, porque as oportunidades lá não nos parecem as mais brilhantes, mas estamos num processo de expansão aqui na América Latina.”

Rússia e Brasil apresentam participação semelhante de bancos estatais em seus sistemas, em torno de 48%. Mas divergem quanto ao futuro. “Até 2020 não haverá mais nenhum banco estatal na Rússia por decisão do governo russo”, declarou Aksakov.  Portugal não comentou a questão, que parece não incomodar tanto o sistema bancário brasileiro quanto o russo.

Encontro histórico entre bancos e brasileiros visa incrementar comércio entre os dois países Foto: Divulgação

Mas querer o Estado fora do sistema bancário não significa prescindir do apoio do governo. “Todos sabem que o Sr. Putin será o novo presidente. Isso garante a estabilidade econômica e social do país. Temos medo de mudanças”, disse o vice-presidente da União Russa de Industriais e Empreendedores, Aleksandr Múritchov.

Os números não o deixam mentir: o imposto de renda russo é de 13%, a dívida pública da Rússia é uma das mais baixas do mundo e o desemprego é de 5%.

Há mais semelhanças entre os dois países, no entanto, do que diferenças. São países que têm níveis semelhantes de PIB per capita, da ordem de 11 mil dólares por pessoa, são países que têm índices semelhantes de desemprego, ambos tiveram uma recuperação rápida da crise de 2007 a 2009, e ambos enfrentam desafios comuns nessa época do pós-crise: como manter uma taxa de crescimento forte e sustentável face a esse conturbado cenário externo que ainda estamos vivendo na zona do euro e como continuar o processo de combate à inflação que ainda apresenta desafios.

 “ Nossos dois países são grandes exportadores de comodities, mas de comodities diferentes. A Rússia é muito forte nas comodities minerais, especialmente petróleo, mas é um importador de algumas comodities agrícolas, que é uma área onde o Brasil produz em abundância e com muita competitividade internacional. Assim como as semelhanças nos aproximam, as nossas diferenças nos complementam”, diz Portugal. “Esse comércio tem crescido ao longo dos anos, mas ainda é muito pequeno. No caso do Brasil representa apenas 1,5% do comércio exterior total”, completa. “Estamos deixando dinheiro em cima da mesa e nós da área bancária não gostamos de deixar dinheiro em cima da mesa”, arrematou.

Aksakov concordou, abrindo um sorriso: “Temos todo interesse em colaborar com o sistema bancário brasileiro”. E aproveitou para convidar o Sr. Portugal e os executivos brasileiros para uma nova reunião, em setembro próximo, em Moscou, durante o Fórum Internacional de Bancos.

O presidente da Febraban aceitou o convite e ainda estimulou os participantes brasileiros a continuarem em contato com seus colegas russos, via e-mail, para avançarem nas questões que serão colocadas na mesa em setembro. 

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