O Klabin “pobre”

Mauris Warchavchik, neto de Maurício Klabin Foto: Heloisa Ballarini/Svela Fotos

Mauris Warchavchik, neto de Maurício Klabin Foto: Heloisa Ballarini/Svela Fotos

Passados 125 anos, a fortuna de Moishe Elkana de Posselva se multiplicou, mas não para seus descendentes.

"Deve haver quase 200 Klabin. Tem até Klabin trabalhando na embaixada de Bucareste... Uns são muito ricos, outros são intermediários... Eu não posso me queixar de nada naturalmente, mas não tem comparação com os outros."

Não, não fiquem com pena de Mauris Klabin Warchavchik. Esse senhor forte, de 83 anos, está muito bem instalado num apartamento de fino trato. Só o que tem em quadros, desenhos e esculturas vale mais que a maioria dos imóveis de São Paulo. As assinaturas: Lasar Segall, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral... Os móveis também são assinados, por sinal. Ele é servido por um mordomo de uniforme elegante. Tem dois cachorros chineses. A sua mulher, que neste momento atravessa a sala, é uma grande dama.

Maurício Klabin.

 Coleção Gregori Warchavchik Fonte Bibliográfica: Aquino, Paulo Mauro Mayer de (org.). Gregori, Warchavchik - Acervo Fotográfico vol.I e vol.II, São Paulo, edição Família Warchavchik, 2005 e 2007

No entanto, ele poderia ser muito mais rico. Rico a ponto de nem me receber para uma conversa sobre aquele que começou essa fortuna toda, seu avô, Maurício, pai de sua mãe Mina Klabin Warchavchik, e sobre como essa fortuna migrou para os descendentes dos parentes que ele – Maurício - trouxe ao Brasil. E não para seus filhos e netos.

Nuvens espessas envolvem o passado de grandes homens. Consta que na cidadezinha de Posselva, no Império Russo, onde nasceu em 1860 e viveu até os 25 anos, Maurício se chamava Moishe Elkana de Posselva – é o que conta sua filha Jenny Klabin Segall, que o adorava, num texto de 1957. Não tinha Klabin no nome. Mauris conta de onde veio a palavra Klabin.    

“O Klabin veio do seguinte:  não sabemos em que geração, se na do meu bisavô ou trisavô, para evitar que o filho fizesse o serviço militar, seu pai inventou um outro sobrenome. Parece que o nome verdadeiro da família era Lafer. Esse bisavô ou trisavô pegou o nome de uma floresta que tinha lá e pôs no filho o nome da floresta. Klabin.”

Moishe Elkana nasceu e passou a juventude numa aldeia chamada Posselva, formada por algo em torno de vinte a trinta casas e umas 100 pessoas, praticamente todas judias, onde se falava mal dos outros mais em ídiche do que em russo. O pai mandava no povoado (era uma espécie de prefeito), mas quem mandava na casa era a mãe.

Enquanto o pai orava dia e noite - o principal dever de todo judeu religioso -, a mãe providenciava o dia a dia deles e dos três filhos. Comandava uma pequena venda, improvisada no quarto da frente, de onde tirava todo o sustento da família.

Posselva e outros povoados judaicos conhecidos como “shteitl” foram varridos do mapa a partir de 1917, quando militantes comunistas invadiram suas casas, roubaram seus bens e mataram ou desterraram os moradores para a Sibéria. Todos os Klabin, então, já estavam no Brasil.

Sonhador inveterado

O jovem Moishe Elkana era um sonhador inveterado e sem limites. Não se sabe com que dinheiro, comprou terras na Rússia. Certamente, pelo menos um pedaço de terra. Mas, não importa o tamanho, cometeu um crime. Por decreto do tsar Aleksandr III, judeus não podiam ser donos de terras. Denunciado pelo sujeito de quem a comprou, lançou-se numa fuga desenfreada, percorrendo a pé Polônia e Alemanha até chegar, de navio, à Inglaterra.

Mas o sonho de ter uma terra sua não o abandonou. Quando soube, dois anos depois, que um imperador estava oferecendo terras de graça num país a milhares de quilômetros de distância do qual nunca tinha ouvido falar, viu aí a sua oportunidade.

O pequeno Moishe, então renomeado Maurício Freeman Klabin desembarcou no porto de Santos, em 1887, com um carregamento de papel de cigarro. Comprou tabaco. Ele mesmo enrolava os cigarros, um a um, e os vendia, garantindo seu sustento, pois era uma grande novidade no país.  Só havia cigarro de palha. Tornou-se, de cara, o pioneiro do papel de cigarro no Brasil.

Família Klabin. Da esquerda para a direita, os filhos: Jenny (nascida em 1898), Luiz (1900), Mina(1986) e Emannuel (1902). Bertha Osband (em pé) e Maurício Klabin. Foto: Coleção Gregori Warchavchik Fonte Bibliográfica: Aquino, Paulo Mauro Mayer de (org.). Gregori, Warchavchik - Acervo Fotográfico vol.I e vol.II, São Paulo, edição Família Warchavchik, 2005 e 2007

As tais terras que Dom Pedro II oferecia eram para plantar uva, no que ele não estava interessado. “Meu avô foi trabalhar de empregado numa papelaria da rua Direita esquina com Praça da Sé. Acabou comprando a papelaria. Dez anos depois, mandou vir a noiva, os irmãos, todo mundo, trouxe a família toda, inclusive o pai. A irmã depois casou-se com Samuel Lafer”, conta Mauris.

“Antes de 1900, Maurício, seu irmão Salomão, sua irmã Hessel e o marido Samuel alugaram um moinho de papel em Salto de Itu, onde moíam papel velho e trapos para fazer papelão, provavelmente um papel vagabundo. Devem ter ganho um bom dinheiro porque em 1900 e pouco eles compraram um grande terreno na Ponte Grande. Meu avô deixou os irmãos aqui tomando conta e foi para Alemanha para aprender a fazer papel e trazer as máquinas. Minhas tias e a minha mãe ficaram durante anos em internatos em Genebra e na Alemanha. E meu avô ia e voltava.”

Com o dinheiro das novas fábricas de papel, segundo Mauris, começaram a comprar terras em Itaquaquecetuba, Guarulhos, nos arredores do Brás, na Vila Mariana. “Compraram até uma ilhota no meio do rio Tietê”, conta.

A morte de Maurício, em 1923,  aos 63 anos, de câncer no estômago, afetou profundamente a vida de suas filhas.

“Minha mãe e suas irmãs tentaram ficar no grupo quando meu avô morreu, mas não conseguiram. É muito difícil o relacionamento entre mulheres artistas e tios empreendedores”, diz.

A mãe de Mauris (cantora, foi casada com o arquiteto ucraniano Gregóri Warchavchik, que construiu a priemria residência modernista do Brasil)  e suas irmãs (Jenny, pianista, casada com o pintor Lasar Segall  e Luisa, violinista) ficaram somente com suas respectivas partes nas imensas terras do pai: 50 mil metros quadrados à beira da Marginal, 700 mil metros quadrados na Vila Mariana etc.  

Depois da morte de Maurício, os irmãos e outros parentes continuaram com a fábrica. Mauris destaca os nomes de Wolff Klabin e Horácio Lafer, filho de Samuel.

“Wolff era filho da irmã do meu bisavô.  Ele chegou ao Rio de Janeiro quando os irmãos Klabin já tinham fábrica de papel. Era um subordinado do meu avô. Foi vender papel no Rio Grande do Sul e ficou amicíssimo de um estancieiro chamado Getúlio, que ainda era um caipira de São Borja, em 1914. Wolff era uma pessoa inteligentíssima, maravilhosa, contava  histórias da Europa, e Getúlio se encantou com ele.”

“Getúlio chegou ao poder em 1930 e a vida inteira financiou a Klabin, a construção da fábrica do Paraná e forneceu o dólar baixo. Naquele tempo, o dólar tinha diferentes cotações, e a Cacex resolvia qual era a cotação do dólar que cada um merecia. Deram dinheiro ao Wolff a 16, quando o câmbio negro já estava a 60. Carlos Lacerda berrava pelos jornais, pela televisão”, diz Mauris.

“Essa amizade do Wolff com o Getúlio também deve ter produzido a ida de Horácio Lafer para o Ministério da Fazenda. Por indicação do Wolff.  O Wolff não podia ser ministro. Primeiro, porque ele tinha documentos falsificados. Getúlio podia arrumar qualquer documento que precisasse, só que ele tinha um sotaque horroroso, não poderia nunca fazer um discurso como ministro da Fazenda.” 

Dos três filhos de Wolff, um se tornou prefeito do Rio de Janeiro (Israel Klabin) e outro, Armando Klabin é o atual presidente da Klabin. O outro principal acionista é Miguel Lafer, filho de Horácio Lafer.

A Klabin é a maior fabricante de papel do Brasil, tem 17 fábricas, faturamento de 3 bilhões de reais por ano e 400 mil hectares de florestas, entre plantadas e preservadas. “Se meu avô tivesse vivido até os 80 eu seria muito mais rico”, lamenta Mauris.  Não há como discordar.

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