Entre os Brics, Rússia é país mais vulnerável à crise global

Ilustração: Niyaz Karim

Ilustração: Niyaz Karim

Nações emergentes devem ser menos afetados pela recessão na zona do euro; China tem economia mais forte.

O risco do impacto negativo da queda do crescimento mundial nas economias nacionais do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) permanece bastante elevado, mas varia de país para país – especialistas tendem a avaliar de forma mais otimista a sua economia do que a dos outros.

Essa foi a principal conclusão nos discursos dos participantes da videoconferência de Moscou – Déli sobre o tema "Riscos para as economias do Brics. Existirá uma cura para a turbulência do mundo?", que reuniu uma série de economistas proeminentes da Rússia e da Índia.

Em janeiro deste ano foi divulgado um relatório do Banco Mundial que prevê uma deterioração geral da situação da economia mundial em 2012: crescimento em ritmo mais lento como um todo (o FMI prevê uma decaída do ritmo de crescimento do PIB mundial para 3,3%), depressão na zona do euro, queda do preço do petróleo, falta de liquidez no mercado e, como o pano de fundo, a continuação da instabilidade no Oriente Médio. Vale ressaltar que o Banco Mundial reduziu seu prognóstico para o crescimento econômico nos países em desenvolvimento este ano de 6,2% para 5,4%. Os países do Brics têm uma tarefa particularmente difícil, uma vez que existe a ameaça da "contaminação" financeira de suas economias nacionais pelas crises enfrentadas na zona do euro através dos canais de exportação e dos movimentos de capitais internacionais.

O banco de investimentos Goldman Sachs prevê um crescimento do PIB nos quatro países do Brics em 2012 de 7,1%, sendo que na Rússia o crescimento será ainda mais fraco: cerca de 3,9%.

Na opinião geral de especialistas estrangeiros, a Rússia é o elo mais fraco na estrutura do Brics. Embora o potencial de recursos do país seja grande, será impossível demonstrá-lo sem sérias reformas institucionais, sem criar um quadro jurídico sólido de atividades de negócios e sem reforçar a proteção dos direitos de propriedade.

Neste espírito foram sustentados os discursos de Partha Sen, economista da Escola de Economia de Londres, do pesquisador sênior do Conselho Nacional de Pesquisa Econômica Aplicada Rajesh Chadha e do professor sênior do Instituto Indiano de Estatística de Déli, Chetan Ghate.

Analistas de Déli acreditam que a crise financeira global e a situação na zona do euro não terão qualquer impacto adverso significativo sobre a economia indiana, enquanto outros países emergentes podem ser vítimas da desaceleração econômica.

"A economia da Índia depende de questões internas e é baseada no mercado interno", explicou Rajesh Chadha. "Choques externos não terão impacto material sobre nossa economia, que está cada vez mais focada na China, nos Emirados Árabes Unidos e em outros países", salientou o pesquisador, fazendo menção a países que estão afastados da espiral da crise econômica.  

Analistas russos, em sua maioria, concordam que há o risco de "contaminação" da economia russa, mas quanto aos outros países do BRICS, o perigo é presente, mas não deve ser exagerado. “A situação na zona do euro será esclarecida até meados de 2012, e daqui a dois ou três anos será resolvida por completo”, afirmou o diretor do setor de prevenção da economia mundial do Instituto de Economia Mundial e de Relações Internacionais, Givi Machavariani.

Também concorda com ele o diretor do Centro de Estudos Asiáticos da Faculdade de Economia da Universidade Estadual de Moscou, o professor Evguêni Avdokushin, que não espera a "contaminação" das economias do Brics advinda da crise europeia. No entanto, a instabilidade global da taxa de câmbio das moedas europeias e do dólar americano podem ameaçar a estabilidade dos países do grupo. "Mesmo assim, é improvável que o 'efeito de gatilho da moeda' ocorra neste ano", ele acredita. Entre os países do BRICS, a Rússia é o mais suscetível a influências externas negativas: "A economia mais estável é a China, seguida pela Índia, Brasil e, finalmente, a Rússia".

O especialista principal do Centro de Análise Macroeconômica e de Previsão a Curto Prazo, Aleksandr Apokin, reconhece que há diferenças significativas entre as estruturas das economias da Rússia e dos outros membros do Brics. Ele admite que a China é o motor indiscutível do crescimento para os países emergentes. "Com o crescimento do consumo interno entre 13 e 15% por ano e o baixo ritmo de crescimento das exportações, a questão do iene barato vai sair da esfera econômica e ir para a política", afirma o especialista, que acredita na existência de uma ameaça de impacto econômico negativo vinda da crise na zona do euro sobre a Rússia. De acordo com novos dados estatísticos, o superávit da balança comercial externa dos 17 países da zona do euro ficou, em dezembro de 2011, em 9,7 bilhões de euros ante ao déficit de 1,7 bilhões de euros em dezembro de 2010, enquanto o PIB total da área do euro e da UE caiu 0,3% no quarto trimestre de 2011.

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