Fotógrafa ganha bolsa da Fundação Magnum para retratar cidade em abandono

Natural de Tiksi, Evguênia Arbugaeva ganhou bolsa da Fundação Magnum para registrar cidade portuária.

A fotógrafa russa Evguênia Arbugáeva foi a ganhadora de uma das bolsas da quarta edição do Magnum Emergency Fund, programa da Fundação Magnum destinado a premiar histórias que abordem temas e grupos humanos que não são destaque entre as notícias publicadas pelos meios de comunicação.

Os protagonistas das imagens de Arbugáeva não costumam aparecer nas primeiras páginas dos jornais. É o caso de Tiksi, cidade portuária na costa do Oceano Ártico, na República de Sakha (Iakútia), que hoje vive um processo de abandono.

Arbugaeva propõe um documento gráfico de extremo lirismo: consegue mesclar a paisagem de suas memórias com a realidade do presente através dos olhos de uma companheira inesperada, uma garota chamada Tânia.

 “Uma das razões pelas quais voltei a Tiksi e comecei a tirar fotografias do local é porque senti que estava envelhecendo, embora pareça ridículo dizer isso com minha idade, 26 anos. Queria revisitar minha infância antes de tornar-me adulta. Fazia dezoito anos que não colocava os pés em Tiksi. Com o tempo, comecei a me perguntar se aquele lugar ainda existia e se parecia com as imagens surrealistas que guardava na memória”, conta Evguênia Arbugáeva à Gazeta Russa. 

O histórico de Arbugáeva não difere muito do resto das famílias da costa ártica, uma vez que o governo de Moscou deixou de financiar projetos no norte do país em 1991. Rodeadas por quilômetros de tundra (vegetação rasteira típica da região), essas famílias não viram outra saída senão fazer as malas e emigrar para cidades maiores. Arbugaeva tinha então oito anos. Em sua memória, levou a noite polar, momento em que Tiksi tornava-se um grande espaço sombrio. “A gelada tundra se estendia ao nosso redor, mas os campos não eram brancos, como se pode pensar, porque a aurora boreal coroava o céu. A neve tinha um aspecto esverdeado. E logo chegava o verão, a neve derretia e a tundra tornava-se o planeta Marte. O dourado se estendia até o infinito por todos os lados.” Arbugáeva confessa que foi difícil relembrar sentimentos tão intensos à medida que foi envelhecendo.

 Mas esse projeto não se limita à experiência de vida da fotógrafa. No meio da história, surgiu um personagem inesperado, uma garota de treze anos, chamada Tânia. No próximo outono, sua família planeja se mudar para uma cidade maior e a história da fotógrafa irá se repetir através da garota.

“É possível que quando fique mais velha, Tânia tente se lembrar de Tiksi, assim como eu, e sua mente viaje pelos sonhos até chegar ali. Queria que as imagens fossem como postais da infância de Tânia. O mundo de Tiksi desaparecerá assim que ela começar sua nova trajetória. Ou melhor, ao envelhecer, talvez já não veja em Tiksi só um lugar belo e divertido, mas também um povo que se debate para sair da pobreza, com um clima muito adverso, prestes a se tornar um deserto.”

Seu outro projeto paralelo, chamado “Seguindo as renas”, consiste no registro de um ano junto às tribos nômades da República da Iakútia. Atualmente restam apenas 1.500 iakutos que com dificuldade conseguem manter a ancestral cultura nômade.

“O universo dos pastores de renas, como o de muitas outras culturas indígenas, está desaparecendo diante do mundo moderno, e as novas gerações não estão dispostas a levar uma vida tão dura quanto a de seus antepassados. Durante dois ou três meses convivi com alguns pastores. Fazia as mesmas coisas que eles: tomava conta do rebanho, cozinhava e cuidava das crianças; desse modo, eles nunca estiveram muito preocupados com minha câmera, não me viam como uma fotógrafa, eu era simplesmente uma estrangeira”, disse Arbugáeva.

“São pessoas muito acolhedoras e sinceras. Os nômades conhecem o resto do mundo pela rádio e pelas viagens a outros povoados, mas não o associam com sua forma de vida. Têm seu próprio ideal na natureza selvagem e no isolamento. Os pastores de renas, como quaisquer outros pais de família, também desejam o melhor para seus filhos, ainda que isso signifique enviá-los para estudos na cidade grande. Entretanto, muitos se assustam com a distância em relação a sua realidade.”

Com um pé em Nova York e outro em Moscou, a fotógrafa ainda conserva um certo estranhamento em relação à cidade. “Sinto uma grande conexão com a natureza siberiana e tenho saudade disso quanto estou em Nova Iorque. Se não escapasse de vez em quando, creio que ficaria louca na cidade.”

Mais informações nos sites  http://www.magnumfoundation.org/emergencyfund e www.evgeniaarbugaeva.com

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