Púchkin, o mais russo dos poetas

Desenhos feitos por Púchkin no rascunho de seu poema Poltava (1928), sobre Maria Volkônskaia, esposa de um dos dezembristas que o seguiu em seu exílio na Sibéria em 1812. Imagem de arquivo

Desenhos feitos por Púchkin no rascunho de seu poema Poltava (1928), sobre Maria Volkônskaia, esposa de um dos dezembristas que o seguiu em seu exílio na Sibéria em 1812. Imagem de arquivo

Nesta sexta-feira (10), completam-se 175 anos de morte do poeta Aleksandr Sergueievitch Púchkin. Descendente de escravos africanos, romântico exacerbado e fora dos padrões, o escritor é considerado o pai da língua russa moderna, e é, de longe, o mais lido do país.

Púchkin é genial. Em primeiro lugar, por sua obra poética, versos que a maioria dos russos conhecem, recitam e utilizam nas situações mais inesperadas.

Com sua obra, Púchkin criou a língua moderna russa. Talvez isso sintetize sua importância para a cultura russa. Púchkin é adorado pelo seu povo.

Alguns podem preferir Tostói ou Dostoiévski, Gógol ou Tchekhov, Marina Tsvetáieva ou Anna Akhmátova. Mas uma coisa que ninguém discute é a supremacia do poeta russo. “Púchkin é o nosso tudo”, dizem. É verdade.

Baixo, de pele morena e de cabelo cacheado, muito distante dos padrões de beleza russos, Aleksandr Púchkin nasceu em 6 de junho de 1799.

Seu pai era descendente de uma família nobre e sua mãe, de um escravo abissínio (proveniente de uma região da África que hoje corresponde à Somália), que passou de criado de libré a almirante de frota na Rússia do tsar Pedro, o Grande.

Durante a adolescência, Púchkin devorava literatura, especialmente francesa, da biblioteca de seu pai. Seu tio por parte de pai, Vassíli Púchkin, foi um poeta conhecido em seu tempo.

Casa de Puchkin na cidade de Pskov. Fotos: William Brumfield


Segundo os costumes da aristocracia, Aleksandr iniciou seus estudos com a língua francesa, ensinada por professores nativos. Felizmente, a babá lhe ensinou o folclore e a língua de seu próprio país.

Mais tarde, Púchkin tornou-se personagem da elite intelectual ao redor do czar. Sua sensualidade, seu gênio, seu caráter orgulhoso, seu romantismo exacerbado e sua ironia seduziam a alta sociedade russa afrancesada do início do século 19.

Estudou no Liceu, uma instituição criada por Aleksandr I e destinada à formação dos descendentes do tsar, mais tarde aberto também à elite da nobreza.

No Liceu não foi um bom aluno devido a sua criatividade indecente e festiva, o que lhe obrigou a passar anos no exílio. Púchkin, entretanto, recebeu esse exílio com certa alegria, já que seu destino parecia cumprir o passo a passo dos românticos.

Nos territórios longínquos de Kichiniov, Odessa ou do Cáucaso, Púchkin continuou a escrever versos escandalosos que lhe afastaram do círculo do poder.

Durante esse período, inicia a novela em versos Evguêni Onéguin, primeiro trabalho que deixa entrever seu gosto pelo realismo. Em 1825, seus amigos dezembristas fracassaram na tentativa de revolta contra a Rússia Imperial.

Em 1831, casa-se com Natália Gontcharova, que fascinou toda a corte com sua beleza e foi cortejada por numerosos pretendentes, incluindo o tsar.

Muito ciumento, Púchkin não admitia a ideia de sua amada satisfazendo os caprichos do tsar, e tentou de todos os modos se afastar do círculo cortesão libertino.

Ele lutou para fazer de seu talento uma profissão e ganhar a vida com a escrita, e até fundou sua própria revista, O Contemporâneo. Mas o tsar não o deixou escapar tão facilmente, forçando-o a participar das festas com sua bela esposa.

O pobre Púchkin acumulou inimigos na alta sociedade e, depois de ser humilhado em uma carta anônima, o “Byron russo” passou a suspeitar de um dândi francês, com quem acabaria se lançando em duelo.

Em 10 de fevereiro de 1837, o melhor poeta russo levou um tiro mortal no estômago. Temendo desordens públicas, já que Púchkin era amplamente amado pelo povo, o tsar mandou enterrá-lo em segredo.

"Pushkin está morto, faleceu no auge da vida, no meio de um caminho glorioso... Não há coração russo que ignore o valor dessa perda irreparável", rezava o único obituário que divulgou sua morte.

O que outros escritores disseram sobre Púchkin:


 Nikolai Gógol: "Púchkin é um fenômeno extraordinário e talvez único do espírito russo: o homem russo em sua evolução, tal como pode chegar a ser dentro de duzentos anos".

 Fiódor Dostoiévski: "Púchkin não apenas encarna o espírito russo, mas também tem uma habilidade especial para entender e assimilar os ideais de outras nações".

 Vladímir Nabokov, que dedicou vários livros ao trabalho do poeta dizia: "Ele é parte da nossa vida, tão inevitável como a tabela de multiplicação".

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