Conferência de Munique propõe saída para impasse entre Rússia e Otan sobre defesa antimíssil

Conferência de Segurança de Munique Foto: AP

Conferência de Segurança de Munique Foto: AP

Um grupo de especialistas internacionais criado pela Fundação Carnegie em 2009 apresentou durante a Conferência de Segurança de Munique uma nova proposta para a defesa antimíssil na região europeia.

Um grupo de especialistas internacionais criado pela Fundação Carnegie em 2009 apresentou durante a Conferência de Segurança de Munique uma nova proposta para a defesa antimíssil na região europeia. Segundo a agência Interfax, o grupo composto por especialistas dos EUA, União Europeia e Rússia e copresidido pelo ex-vice-ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Wolfgang Ischinger, o ex-ministro russo do Exterior, Ígor Ivanov, e o ex-senador dos EUA Sam Nunn propõe que as partes envolvidas troquem e avaliem conjuntamente as informações de interesse para a defesa antimíssil.

Isso não significa que os sistemas de defesa antimíssil da Rússia e da Otan (Aliança do Atlântico Norte) serão unificados. Os dados obtidos pelos satélites russos e norte-americanos de aviso prévio de lançamentos de mísseis e pelos radares russos em Gabala e Armavir e o radar norte-americano móvel TRY-2, na Turquia, serão transmitidos para dois centos de operações comuns em Moscou e Varsóvia, onde estarão presentes militares da Rússia e da Otan. De lá, as informações serão transmitidas para os postos de comando da Otan e da Rússia, responsáveis pela tomada de decisões de lançar mísseis interceptores. O objetivo é que sejam usados mísseis de ambas as partes de acordo com cada situação de interceptação de alvos. Do lado norte-americano serão usados mísseis Aegis SM-3, baseados em terra e no mar, e do lado russo, mísseis S-300, S-400 e S-500, baseados em terra e no mar.   

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Nesse caso, nenhum vazamento de tecnologia será possível e nenhuma  soberania será violada. Assim, o objetivo do sistema de defesa antimíssil europeu será interceptar os mísseis de médio alcance, até 4.500 km - equivalente à distância entre o Irã e o Reino Unido.

Segundo a agência Interfax, o relatório do grupo de peritos internacionais integrado à Iniciativa de Segurança Euro-Atlântica (Easi, na sigla em inglês), apresentado na Conferência de Munique em 4 de fevereiro, assinala que a criação de um sistema de segurança euro-atlântico inclusivo é a única maneira de garantir a segurança a longo prazo na Eurásia e América do Norte. Os países integrantes usarão nas negociações apenas instrumentos diplomáticos e legais e não recorrerão à violência. Para os autores do relatório, o principal objetivo desse trabalho é criar um sistema de segurança em que os Estados membros se respeitem mutuamente, abdiquem dos métodos obsoletos de política internacional e cuidem da segurança de outros países.

Apesar da proposta da Easi, as negociações entre a Rússia e a Otan sobre a cooperação na construção de um sistema de defesa antimíssil na Europa continuam em um impasse, conforme informou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguêi Lavrov, durante seu discurso na Conferência sobre a Segurança em Munique.

A iniciativa da Easi não está longe das propostas feitas por Dmítri Medvedev em Lisboa no outono de 2010 e rejeitadas pela Otan. É pouco provável que a proposta dos peritos internacionais seja acolhida favoravelmente em Bruxelas e Moscou, por várias razões.

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Uma dela é que os militares russos não são contra os EUA instalarem sua defesa antimíssil no sul da Europa - na Turquia ou na Romênia, por exemplo - ou seja, perto da fronteira com o Irã. Nessa região, os EUA poderão interceptar facilmente mísseis de médio alcance iranianos que venham a ser lançados contra os aliados de Washington.

Nesse caso, os mísseis americanos não poderão alcançar complexos estratégicos russos e, portanto, não preocupam Moscou. Mas Moscou é terminantemente contra os EUA instalarem seus mísseis interceptores baseados em terra e no mar no norte da Europa, na Polônia, Noruega ou nos mares Báltico, do Norte e da Noruega, por exemplo, ou seja, no caminho dos mísseis balísticos intercontinentais russos. A distância de 4.500 km entre o Irã e o Reino Unido, mencionada na iniciativa da Easi, pode virar um obstáculo a um acordo entre Rússia e Otan.


Além disso, há razões para pensar que a administração Obama não está disposta a buscar um acordo sobre a defesa antimíssil com Moscou antes das eleições presidenciais nos EUA. Nessas circunstâncias, qualquer concessão, por menor que seja, a Moscou poderá valer a Obama o segundo mandato na Casa Branca.

Para justificar seus planos de criar um sistema de defesa antimíssil na Europa, os EUA citam a necessidade de proteger os aliados da Otan contra a ameaça dos mísseis iranianos. A Rússia, por sua vez, considera que a tese de ameaça iraniana é utilizada pelos EUA para disfarçar seu verdadeiro objetivo: defender o território norte-americano contra as forças de dissuasão russas instaladas na parte europeia do país.

Moscou exige de Washington garantias jurídicas de que seu escudo antimíssil não estará apontado contra a Rússia. Washington é fortemente contra, alegando que tais garantias, por um lado, restringiriam seu direito soberano de defender seu território nacional e o de seus aliados, e, por outro, não seriam aprovadas pelo congresso norte-americano.

Nenhuma das iniciativas da Rússia no campo da defesa antimíssil - nem a intenção do presidente Dmítri Medvedev de criar um sistema de defesa antimíssil conjunto em que a segurança do território russo fosse da competência da Rússia e a segurança europeia competisse à Otan - foi aprovada pela Aliança do Atlântico Norte. Segundo o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, a aliança não pode confiar a defesa de seus Estados membros a um país estranho.

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