Uefa impõe controle financeiro a clubes europeus

 Os jogadores de futebol Andzhy Balazh Dzhudzhak, Roberto Carlos e Yuri Zhyrkov (E.-D.) no treinamento antes do jogo entre Spartak Moscou  (Rússia) e Andzhy Makhachkala (Daguestão) durante o campeonato de futebol da Rússia Foto: Aleksêi Kudenko / RIA

Os jogadores de futebol Andzhy Balazh Dzhudzhak, Roberto Carlos e Yuri Zhyrkov (E.-D.) no treinamento antes do jogo entre Spartak Moscou (Rússia) e Andzhy Makhachkala (Daguestão) durante o campeonato de futebol da Rússia Foto: Aleksêi Kudenko / RIA

Os manda-chuvas do futebol europeu querem obrigar os clubes a viver de acordo com seus meios. Como o fair-play financeiro vai funcionar em relação aos clubes russos?

O novo regulamento financeiro da Uefa, mais conhecido como fair-play financeiro, obriga os clubes a desistir da compra de jogadores caros e a apresentar, nos próximos três anos, contas equilibradas ou positivas.

As regras do fair-play financeiro vigoram parcialmente a partir de janeiro de 2012, devendo começar a valer plenamente só a partir de julho de 2014. Enquanto isso, durante um período de transição de três anos, os clubes europeus terão um limite máximo de gastos financeiros no valor de 45 milhões de euros (US$ 64 milhões).

Para a Uefa, o novo regulamento visa não só limitar os gastos dos grandes clubes, mas também pôr fim à prática em que clubes menos conhecidos compram passes de jogadores caros para entrar no grupo dos times mais fortes. “Não tentamos nivelar todos os clubes. Queremos que os clubes de nível médio não gastem milhões que não têm.”

Alguns times têm donos ricos que compram passes de jogadores com seu dinheiro e depois perdoam as dívidas do clube. Segundo as novas regras, tal procedimento fica proibido e passa a ser visto como violação da concorrência. De acordo com um relatório da Uefa, metade dos 650 clubes europeus registram resultados anuais negativos e 20% dos clubes fazem despesas 20% maiores que suas receitas.

No entanto, os proprietários ricos ainda podem investir seu capital na construção de novos estádios e escolas de futebol. Os clubes que desobedecerem o novo regulamento poderão ser excluídos dos calendários de torneios europeus. As regras do fair-play financeiro impostas pela Uefa em relação aos clubes europeus serão igualmente aplicáveis à Rússia.

Segundo um relatório especial sobre as finanças dos clubes feito pela organização em 2009, os times russos gastaram, em média, 92% de seus orçamentos em salários de jogadores e treinadores.

 “Se nossos clubes ficarem mais atentos a seus gastos, sobretudo aqueles com a transferência de jogadores e salários, eles poderão facilmente preencher os requisitos do novo conceito. O Cska, por exemplo, consegue fechar o ano com as contas equilibradas”, disse o diretor-geral do Cska, Roman Babaev, após um encontro com o diretor de licenciamentos e fair-play financeiro da Uefa, Andrea Traverso.

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O Locomotive também não tem problemas com o fair-play financeiro, segundo informação da presidente do clube, Olga Smoródskaia. Os demais clubes russos apresentam resultados negativos. Os maiores devedores são o Zenit de São Petersburgo e o Anji de Makhatchkala, capital do Daguestão (república federada da Rússia no Cáucaso Setentrional). Esses clubes gastam muito dinheiro com a transferência de jogadores sem receber nenhum benefício em troca.

Com efeito, só na Rússia clubes podem pagar 29 milhões de euros por um jogador modesto da seleção húngara, Balazs Dzhudzhaka (o Anji comprou o passe do húngaro por 13 milhões e o vendou ao Dínamo por 16 milhões) e só na Rússia o salário de Samuel Eto pode superar o rendimento anual com o merchandising de um dos clubes financeiramente mais bem sucedido da Europa, o Ajax de Amsterdã. Segundo o site mais credenciado em matéria de transferências de jogadores, transfermarkt.com, as quatro transferências mais caras das 12 realizadas durante o intervalo de inverno foram feitas no futebol russo.

Os técnicos não ficam atrás de seus pupilos. O salário do treinador principal do Zenit, Luciano Spalletti, é de 4 milhões de euros, segundo o “La Gazzetta dello Sport”. Na Itália, nenhum clube pode oferecer a seu compatriota um salário como esse, nem mesmo o Inter de Milão, cuja proposta foi rejeitada por Luciano, que não quis trocar o dinheiro ganho na Rússia pela possibilidade de atuar em um clube italiano, por mais prestigioso que fosse.

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Ruud Gullit trabalhou como treinador do Terek de Grózni (capital da Tchechênia, república federada da Rússia no Cáucaso Setentrional) durante apenas cinco meses e recebeu como indenização tanto dinheiro que pode ficar de braços cruzados durante vários anos. As breves missões na Rússia renderam também fortunas a Michael Laudrup, Nevio Scala, Artur Jorge e Juande Ramos. Mesmo contratando especialistas estrangeiros e lhes pagando altos salários, a Rússia não tem até agora um campeonato nacional de qualidade.

Nas próximas três temporadas, as despesas financeiras dos clubes russos com as transferências serão limitadas a 45 milhões de euros.

No entanto, ainda não é clara a posição da Uefa em relação às doações. Na Rússia, os patrocinadores gerais estão, muitas vezes, entre os acionistas dos clubes por eles patrocinados e muitos clubes regionais são financiados pelos orçamentos regionais. Para entender melhor as especificidades financeiras do futebol russo, a Uefa criou um grupo de peritos. Interessa saber como os peritos europeus vão reagir a explicações como “o dinheiro chegou da prefeitura”.

O presidente do Cska, Evguêni Guíner, disse apoiar sem reservas as novas regras: “A iniciativa da Uefa é útil não só para o nosso clube como também para todo o futebol russo. 90% dos clubes russos são deficitários, são necessárias medidas urgentes para corrigir essa situação. Muita coisa mudou para melhor nos últimos anos, mas ainda falta muito trabalho”.

A mesma opinião é compartilhada pelo presidente do Dínamo de Moscou, Iúri Issáev: “Gosto da idéia da Uefa. Acho que também conseguiremos fazer com que nossos clubes abram seus orçamentos. Isso vai acontecer em pouco tempo. Nossos clubes abrem suas despesas e escondem suas receitas porque, às vezes, não está claro de onde eles tiram dinheiro”.

Nesse contexto, surge a pergunta: o que vai ser do ambicioso Anji com um controle financeiro tão rígido por parte das autoridades futebolísticas europeias? Claro que Suleiman Kerimov não abandonará seu clube, mas como sua ajuda será acolhida pela Uefa?

De qualquer maneira, o Anji, assim como os outros clubes russos, terá de se preocupar em diversificar suas fontes de renda e deixar de contar com doações de patrocinadores e injeções financeiras do governo. Talvez o fair-play financeiro faça com que os clubes russos se dediquem finalmente à formação de jogadores nacionais. A alternativa é mais barata do que comprar passes de jogadores estrangeiros e assume especial relevância para a Rússia quando se tem em vista a Copa do Mundo de 2018. 

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