Rússia ainda é alvo de espionagem estrangeira

 “Pedra espiã” descoberta pelo Serviço de Segurança Federal (FSB, da sigla em russo) em um parque da capital russa em 2006 Foto: RIA Nóvosti

“Pedra espiã” descoberta pelo Serviço de Segurança Federal (FSB, da sigla em russo) em um parque da capital russa em 2006 Foto: RIA Nóvosti

Você até pode ser paranoico, mas isso não significa que eles não estão atrás de você.

Embora Moscou possa estar sujeita a ver mãos estrangeiras por trás de cada acontecimento, do surgimento de uma nova cultura de protestos ao fracasso da sonda espacial Phobos-Grunt, não há como escapar do fato de que a Rússia é um alvo de inteligência. A recente confissão de que a “pedra espiã” descoberta pelo Serviço de Segurança Federal (FSB, da sigla em russo) em um parque da capital russa em 2006 era realmente parte da operação britânica MI6 evidenciou a contínua atividade de espiões estrangeiros no país.

O que eles fazem? As fontes pró-governo tendem a promover a ideia de que os agentes estrangeiros estão trabalhando para mudar o regime na Rússia. O guru da televisão russa Mikhail Leontiev se referiu ao embaixador norte-americano Michael McFaul como um desses especialistas e destacou de modo misterioso que o Instituto Nacional para Democracia, no qual ele havia trabalhado, era “conhecido por sua proximidade com os serviços de inteligência dos EUA”.

Embora muitos países ocidentais não escondam seu apoio a indivíduos e organizações que promovem valores de democracia e liberalismo na Rússia, não existe nenhuma evidência real de qualquer campanha secreta. Sinceramente, tais iniciativas são muito perigosas e imprevisíveis. Todas as operações de inteligência devem conviver com a possibilidade de exposição – e o risco de desacreditar as próprias causas que se deseja apoiar são grandes. 

Além do mais, por que alguém precisaria de espiões para apoiar movimentos e protestos? Como é possível notar, a ingenuidade, a mídia social e a retórica populista dos agitadores estão tirando melhor proveito de suas oportunidades.

As agências de inteligência estrangeiras estão obviamente em atividade na Rússia. Porém, suas missões são mais propensas a ações convencionais, como reunir informações políticas, militares e econômicas para informar as políticas nacionais. Se eles conseguem ou não ter mais acesso a informações hoje em dia do que um usuário assíduo do Google não vem ao caso.

O Ocidente continua a encarar a Rússia com certa inquietação, não tanto como um rival, mas como um fator de complicação. Os responsáveis pela elaboração de políticas contam com seus espiões para obter respostas sobre todos os tipos de questões, desde as políticas de Moscou em relação às instalações nucleares iranianas (eles prestaram assessoria num programa de armas?) até as intenções do país no contexto da Eurásia (a Rússia pretende intervir em algum país vizinho?) ou mesmo na provável constituição de um novo governo liderado por Pútin (quem irá subir ao poder e quem ficará de fora?).

O Ocidente não é, contudo, a única fonte de espionagem. O ministério da Segurança da China é um personagem cada vez mais ativo no cenário global de inteligência. Obviamente, atua de sua própria forma, misturando habilidades de espionagem tradicional com uma paciência incalculável para reunir “um bilhão de grãos de areia” – todos os tipos de fragmentos de informação – na esperança de criar uma perspectiva útil.

A prioridade da China parece ser espionagem técnica. No ano passado, a Rússia anunciou a prisão de um tradutor chinês que estava tentando obter dados sobre tecnologia militar. No entanto, a China é cada vez mais um poder operante e agressivo de cyber-espionagem e há também motivos para acreditar que eles estão invadindo sistemas russos.

Os espiões russos ainda geram manchetes pelo mundo afora. Ainda na semana passada, um oficial naval canadense foi preso, acusado de trabalhar para Moscou, e quatro diplomatas russos foram expulsos de Ottawa. Entretanto, o caso da “pedra espiã” nos relembra que a Rússia é também um alvo da atividade de espionagem estrangeira.

Mark Galeotti (Twitter: markgaleotti) é professor de Assuntos Globais no SCPS, Centro de Assuntos Globais da Universidade de Nova York. Seu blog, “In Moscow’s Shadows” (“Nas sombras de Moscou”, em português), pode ser lido no endereço http://inmoscowsshadows. wordpress.com.

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