Agência Espacial Russa enfrenta desafios para reverter decadência

Nave espacial russa Soyuz TMA-22 Foto: Aleksandr Samokutiaev

Nave espacial russa Soyuz TMA-22 Foto: Aleksandr Samokutiaev

Proclamado como Ano da Astronáutica por ocasião dos 50 anos do primeiro voo espacial tripulado, efetuado por Iúri Gagárin, 2011 foi um ano difícil para a indústria aeroespacial russa.

Proclamado como Ano da Astronáutica por ocasião dos 50 anos do primeiro voo espacial tripulado, efetuado por Iúri Gagárin, 2011 foi um ano difícil para a indústria aeroespacial russa. Quatro dos 32 lançamentos espaciais realizados no ano passado falharam - 12,5%, o maior número desde os anos 1960. Os acidentes com veículos lançadores de diversos tipos ocorridos em 2011 levam a crer que o setor enfrenta uma crise sistêmica. O que espera o setor aeroespacial russo em 2012?

Em primeiro lugar, para este ano estão programados 32 lançamentos, mesmo número do ano passado. Cerca de 15 lançamentos serão realizados com a participação de parceiros estrangeiros ou por interesse de clientes estrangeiros. Projetos ambiciosos como missões interplanetárias não deverão ocorrer, embora a Agência Espacial Russa (Roskosmos) não exclua a possibilidade de realizar dois lançamentos rumo à Lua até 2020 e, em uma perspectiva de longo prazo, construir no satélite terrestre uma base habitada.  

Enquanto isso, a Roskosmos executa missões puramente pragmáticas,  testando uma nova modificação dos satélites Glonass, realizando  lançamentos a pedido de clientes estrangeiros e lançando rumo à Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) cargueiros e naves tripuladas.

Síndrome do “Fobos-Grunt”


O acidente com a sonda Fobos-Grunt foi, talvez, a maior falha do programa espacial russo no ano passado e teve um impacto muito mais importante do que se pode imaginar à primeira vista. Falhas no lançamento acontecem em todas as potências espaciais. Mas quando um projeto cuja preparação levou anos é frustrado na fase inicial de voo devido a erros, é preciso repensar algo.

A situação parece ainda mais alarmante quando verificamos que o problema não é a falta de dinheiro. Nos últimos anos, o financiamento do setor espacial tem aumentado, mas isso não ajudou a evitar acidentes.


O problema está na ausência de uma posição única e clara do Estado em relação ao desenvolvimento do setor espacial e, como consequência, no mau uso das verbas disponíveis. A indústria espacial russa representa uma cadeia de produção que envolve muitas centenas de subempreiteiros e que, após anos de sucateamento (ocorrido por diversas razões), não pode ser plenamente reconstruída por um simples aumento do financiamento. É necessário também solucionar uma série de problemas em termos de recursos humanos, gerência e tecnologia, o que implicará esforços não menos importantes do que aqueles que foram feitos nos finais da década de 40 até meados dos anos 60 para a criação da indústria espacial.  

 
A questão da mão-de-obra merece uma referência à parte. A falta de profissionais e gerentes de meia-idade, de 30 a 50 anos, se tornou um verdadeiro flagelo para as indústrias de transformação e de guerra. Muitos especialistas jovens fugiram dessas indústrias e do setor espacial na década de 1990, princípio dos anos 2000, devido aos baixos salários e falta de financiamento ou escolherem outras atividades logo depois de terminar o curso universitário, sem tentar sequer conseguir um emprego em sua área.

Como resultado, muitas empresas ficaram sem jovens especialistas e não têm a quem transmitir a experiência das gerações passadas. Outro problema é a qualidade do produto final, controlada por trabalhadores mais velhos. Com sua saída, por motivos de aposentadoria ou outros, esse filtro para erros de trabalhadores jovens e inexperientes deixou de existir.

 
O princípio Kaganovich


“Todo o acidente tem nome e sobrenome!”, costumava dizer o todo-poderoso ministro do governo de Stálin, Lazar Kaganovich, tendo em vista que por trás de cada acidente está uma pessoa. A tentação de buscar culpados em vez de solucionar os problemas sistêmicos do setor surge também hoje. No início da década de 60, porém, esse hábito passou para segundo plano, cedendo lugar a uma profunda análise das falhas e problemas do setor, a URSS conseguiu criar uma indústria espacial viável. A prática de buscar de culpados não voltou nem mesmo após o acidente de 24 de outubro de 1960, quando um foguete R-16 explodiu na rampa de lançamento, matando mais de uma centena de pessoas, incluindo o Comandante das Tropas de Mísseis Estratégicos, Mitrofan Nedélin. As comissões de inquérito continuavam examinando meticulosamente cada falha e lançamento “parcialmente bem-sucedido” com o objetivo de identificar e resolver as deficiências e não punir os culpados. Como resultado, em meados da década de 70, a URSS conseguiu o mais alto índice de confiabilidade dos lançamentos espaciais já alcançado: 95%.

Ponto de soluções

Agora, para salvar o setor espacial, o governo russo deve formular claramente sua posição em relação ao desenvolvimento de sua indústria espacial e elaborar um plano que determine o destino das empresas da área e a cooperação e distribuição das responsabilidades entre elas no âmbito de programas concretos, seja orbital, lunar, marciano ou outros, assim como foi feito há 50 anos. Esse plano, caso seja rigorosamente observado, não terá um impacto imediato, mas seus efeitos se farão sentir já em alguns anos. Por outro lado, a prática de busca de culpados, especialmente entre os elos mais fracos da cadeia, e injeção de dinheiro na indústria sem planos adequados de desenvolvimento poderá resultar em sua morte.

 Ilia Krâmnik - analista militar da Voz da Rússia

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