Quero ser Roberto Carlos

Investindo em seus próprios dotes futebolísticos, dois mato-grossenses-do-sul decidem tentar a sorte na Rússia, seguindo o caminho aberto por outros brasileiros como Roberto Carlos e Wellinton. Um vende a bicicleta, outro pega as economias dos pais, e a aventura começa.

Com apenas 14 mil habitantes, a pequena cidade de Petuchki, 120 quilômetros a leste de Moscou, acaba de ser palco de uma partida entre o time Petróvski Zamok (em russo, “cadeado de Piotr”) e o local Dinamo-2.

Os anfitriões chamam os dois brasileiros que vestiam pela primeira vez a camisa da equipe convidada para uma comemoração do suado empate de 4 a 4 com vodca e cigarros. Mas recebem uma negativa.

 

Maykon e Salir caminham por Moscou. No fundo, o Lujniki, maior estádio da capital russa Foto: arquivo pessoal

“Não bebo”, diz Maykon Vareiro, franzindo o rosto com certo nojo. “Não bebe nem fuma?”, perguntam surpresos os jogadores do Dinamo. “Não”, repete o brasileiro.

“Olha, meu amigo, veja o Artiom. Sabe porque ele jogou tão bem e marcou três gols?”, pergunta retoricamente um dos jogadores do Dinamo-2. “Porque bebe todos dias sete garrafas de cerveja. Isso aqui é uma escola!”, responde ele mesmo.

Contrato pela internet


Seis meses antes, Maykon e seu compatriota Salir Gabriel não tinham a menor ideia dessa lei não inscrita nos cânones do futebol provinciano russo, nem da existência da cidade de Petuchki, na região administrativa de Vladímir.

Depois de terminarem juntos uma escolinha de futebol em sua cidade natal, Campo Grande (MS), Maykon entrou em uma faculdade de educação física, enquanto Salir começou a estudar direito. Ambos ganhavam cerca de mil reais por mês e gozavam da vida sem pensar em voltar ao futebol.

Até que, um dia, em meados do ano ano passado, Maykon, que ouviu dizer que jogadores brasileiros eram muito bem pagos na Rússia, e resolveu tentar a sorte. Postou em redes sociais seu currículo e alguns vídeos mostrando suas fintas e firulas. Mas, sem convites sérios dos grandes clubes russos, os dois acabaram partindo para Moscou por conta própria, em agosto de 2011.

Para comprar passagens de avião para a Rússia, Maykon vendeu sua bicicleta e Salir pediu para os pais suas economias – que eles guardavam para lhe presentear com uma moto no aniversário. “Meus pais não queriam deixar ir para a Rússia, mas depois mudaram de ideia”, conta Salir.

Logo que os dois botaram os pés na Rússia, se depararam com muitos problemas, o maior deles: a língua. Ninguém falava português nas ruas de Moscou, e em inglês eles só sabiam dizer: “Do you speak English?”

Se a resposta era “sim”, então eles retrucavam: “Nós não!”.

No primeiro dia de estadia em Moscou, os candidatos a jogadores gastaram com táxi e hospedagem 4 mil rublos (cerca de R$ 230) dos 20 mil rublos (US$ 1,1 mil) que tinham levado.

“Depois tivemos sorte”, conta Salir. “Um conhecido nosso que é intérprete, o Marcos, nos levou para um hostel. E aí a gente passou a economizar muito”, completa.

Passe no exterior

 

Já no segundo dia na Rússia, os brasileiros começaram a procurar emprego. Maykon voltou a bombardear os clubes famosos com seu currículo, e quase fechou com o Spartak de Moscou, time do atacante Wellinton. Mas tudo foi por água abaixo quando soube que se tratava de outro clube, o de hóquei no gelo.

Em seguida, escreveu no Twitter para o Zenit e o CSKA: “Quem quer dois reforços para sua equipe pra já?” Mas não recebeu resposta.

E assim continuou até que o treinador do clube amador Petróvski Zamok, Serguêi Fonariov, leu em um jornal sobre os dois brasileiros dando sopa na capital e os convidou para uma entrevista.

A equipe do Petróvski Zamok é composta por apenas três jogadores: Artur, de 13 anos, Vlad, 14, e Maksim, 15. “É difícil segurar os garotos na equipe”, reclama Fonariov, relembrando de quando o time tinha só Maksim e era preciso pedir jogadores emprestados a outros times para disputar campeonatos.

Devido à falta de dinheiro – e de jogadores -, o Petróvski Zamok tem sofrido uma onda de derrotas e é visto por seus adversários como parceiro de treino, e não como rival sério.

O primeiro vídeo em terras Rússas


Mesmo assim, Fonariov não desanima. “Para mim, o mais importante é que meus rapazes não parem de jogar. Pode ser que algum deles venha a ser um bom jogador profissional”, diz.

Outrora, o Petróvski Zamok já foi um clube mais abastado. Tinha uma equipe completa e enviava seus jogadores para estágios na América Latina. Chegou mesmo a ter em sua equipe o volante da seleção nacional Diniar Bilaletdínov, durante a temporada de 1999/2000.

Hoje, a equipe treina no estádio Energia, em Moscou. “Uma hora de aluguel custa 10 mil rublos (R$ 560), mas a direção do estádio não cobra nada da gente”, diz o treinador com satisfação.

Os brasileiros também treinam. Para se comunicar com eles, Fonariov usa um manual de conversação russo-português. Maykon e Salir não ficam atrás, e aprenderam em russo as mesmas palavras e frases que o treinador em português: “privet” (olá), “poká” (até logo) e spassibo (obrigado).

Eles tratam o treinador com respeito: “Ele tem conexões no futebol russo e contatos na Turquia e no Qatar, e promete levar a gente para um clube grande”. Mas, até então, seus passes não tinham sido oferecidos a ninguém, confessou Fonariov.

Joga bonito


O jogo fora de casa, em Petuchki, foi a primeira prova séria de Maykon e Salir na Rússia. Pelo menos, era a primeira vez que jogavam, com mais nove jogadores, contra outros 11, e tinham um gostinho do que é o futebol russo.

Um dia antes da partida, a equipe pega um trem suburbano para percorrer os 116 quilômetros até o destino. Já em Petuchki, vão de ônibus até o hotel “Vizit”, onde passam uma noite sem internet - e, portanto, sem contato com a família.

No café da manhã, os brasileiros tomam uma xícara de café e dividem uma barra de chocolate. “É para ter agilidade no campo”, explica Maykon.

Os anfitriões do Dinamo-Petuchki-2 chegam no estádio a pé. “Olhem, brasileiros! ‘Jogo bonito’, né?”, grita um deles apontando na direção dos brasileiros.

Maykon e Salir correm para o vestiário e de lá não saem até o início do jogo.

 

Jogando futebol. Foto: arquivo pessoal

O Petróvski Zamok teve que pegar cinco jogadores emprestados do Dinamo-2 para poder realizar o jogo.

O goleiro Maksim, emprestado pelo Dínamo ao Petróvski Zamok, reclama do gramado e é xingado por um único torcedor que, sentado em pleno gramado perto do escanteio, bebe vodca e comenta o jogo, com um enorme prazer a cada gol tomado por Maksim. “E aí, frangueiro, tomou?”, pergunta. Mas depois da promessa de Maksim de lhe dar uma surra após o jogo, a torcida se cala.

Depois da partida, os brasileiros confessam jogar mal, dizendo temer uma lesão em jogo tão insignificante. “No futebol profissional, a gente teria feito muito melhor. Simplesmente não quisemos arriscar”, explica Salir.

Já o ténico Fonariov não ficou satisfeito com o desempenho dos jogadores recém-admitidos. “Queria ver como eles se sentiam em um campo grande”, diz o técnico. “Eles se sentem bem mas não sabem jogar”, conclui.

Após a partida, Fonariov leva o núcleo de seu time - Maksim, Vlad e Artur - para nadar em um rio, deixando os brasileiros com os jogadores do Dínamo-2.

Quando Maykon se recusa a tomar vodca, ambos são relegados ao vestiário. Comendo o melão trazido por Fonariov, e regando-o com o chá tomado em copos de plástico, ambos garantem ao correspondente do “Ogoniok” que não tinham a intenção de se render. “A gente estava pronto para qualquer coisa, por isso comprou as passagens de volta sem data definida”, dizem.

Eles voltaram ao Brasil em 1 de setembro.

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