Economia russa não manterá atual ritmo de crescimento, dizem analistas

Foto: LAIF/VOSTOCK-PHOTO

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Mesmo em menor ritmo, maior parte dos especialistas acredita que PIB russo crescerá mais de 4% em 2012

O ano que acaba de nascer será mais difícil do que 2011, acreditam analistas russos, dizendo que estão mais receosos com a Europa, EUA e, recentemente, com a China, que registra pela primeira vez em três anos uma retração na produção (índice PMI, que reúne as indicações dos gerentes de empresas industriais). Mesmo que as preocupações a respeito de uma recessão econômica mundial não venham a se confirmar, é pouco provável que a economia russa continue no atual ritmo de crescimento.

Petróleo caro, rublo barato

“Este ano vai reproduzir as situações do ano passado: o primeiro semestre será difícil, enquanto no segundo semestre a situação vai melhorar”, afirma o estrategista da empresa de investimento Tróika Dialog, Chris Weafer. “A Europa continuará buscando uma saída da crise, o que terá impacto sobre o comportamento dos investidores e os preços do petróleo: no primeiro semestre, o preço por barril vai cair abaixo dos US$ 100”, diz Vladímir Tikhomirov, da empresa financeira Descoberta.

“No primeiro trimestre deste ano, o euro vai descer para o valor mais baixo do ano face ao dólar”, acredita Iúlia Tsepliáeva, do BNP Paribas. Nesse contexto, marcado também pelas próximas eleições presidenciais, o rublo poderá descer, no primeiro trimestre, para 32 ou 33 por dólar, segundo afirma Ivan Chakarov, da empresa de investimento Renaissance Capital.

Depois, a situação começará a melhorar. Analistas esperam que os políticos europeus consigam encontrar uma saída para a crise e preservar a Zona do Euro. “A China também deixará de ser motivo de preocupação e conseguirá fazer um pouso suave de sua economia, dado que sua elite está interessada em preservar a estabilidade econômica face às mudanças na liderança do país”, adianta Weafer.

“A Rússia, após as eleições presidenciais, retomará suas reformas para o contentamento dos investidores”, acredita Tikhomirov, confiante de que o afluxo de capital irá suportar o rublo e a economia russa. “Com o fim do período de instabilidade política, começará o processo de repatriação de capital, o que, juntamente com a alta do preço do barril de petróleo, que poderá chegar a US$ 120 no final do ano, contribuirá para a valorização do rublo para 28,55 por dólar”, completa Tsepliáeva.

Todavia, nem todos os analistas compartilham seu otimismo. No início deste ano, o Banco Central Europeu (BCE) vai iniciar uma nova rodada de afrouxamento quantitativo. Se essa medida européia não tiver o efeito desejado, uma rodada de afrouxamento quantitativo será feita pelos EUA.

Essa “inundação” monetária poderá ajudar muito o rublo, afirma Alexêi Moiséev, do VTB Capital. “Esperamos no primeiro semestre uma valorização do rublo para algo entre 28 a 29 por dólar e, em seguida, seu retrocesso sazonal”, acrescenta. Normalmente, no primeiro trimestre, o superávit da balança de transações correntes é grande. “O fator sazonal poderá ter um impacto maior do que a situação política interna”, considera Kirill Tremasovm do Nomos-Bank. “Para que o rublo continue recuando no início deste ano, a situação no país ou no mundo deverá sofrer uma deterioração significativa”, afirma Tremasov. “No início deste ano, o rublo vai se valorizar, mas no final deste ano o preço da cesta bimonetária subirá para 39 rublos e um dólar valerá 32,9 rublos”, concorda Aleksânder Morózov, do HSBC. Isto é, o rublo vai apresentar um recuo maior face ao euro do que ao dólar.

Em 2012, as empresas e os bancos russos terão de pagar cerca de US$ 75 bilhões da dívida externa. “Esse montante é menor do que aquele pago em 2011, mas é comparável a um saldo positivo esperado em conta corrente. Caso os problemas globais se mantenham, o refinanciamento da dívida poderá ser difícil”, assinala Evguêni Gavrilênkov, da Tróika Dialog. Nesse caso, o rublo vai se desvalorizar, porque a receita em divisas será investida no serviço da dívida. Portanto, se, no final deste ano, o dólar estiver na faixa de 33 a 34 rublos, isso não deverá surpreender ninguém. No entanto, se os países desenvolvidos conseguirem debelar a crise financeira, o rublo poderá permanecer no atual nível ou até ficar mais forte.

Caso os preços do petróleo permaneçam estáveis, o refluxo de capitais se mantenha no atual nível e as importações continuem crescendo (embora 1,5 vezes mais lento), o rublo poderá se desvalorizar 5%, considera Maksim Petronévich, do Centro de Desenvolvimento da Escola Superior de Economia.

Seja como for, todos os analistas concordam que, em 2012, o rublo vai ter oscilações muito maiores do que em 2011. “O rublo vai alternar com frequência altas e baixas”, diz Ksênia Iudáeva, do Banco de Poupança da Rússia.

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Inflação vai acelerar e a economia vai desacelerar

A inflação em 2011 vai apresentar valores mínimos em toda a história da Rússia (6,1 %, segundo os dados de 26 de dezembro divulgados pelo Serviço Federal de Estatística). Mas isso não vai durar muito tempo. Uma das causas desse sucesso é o patamar alto registrado no segundo semestre de 2010, quando a seca inflou os preços dos alimentos. A inflação continuará desacelerando até meados de 2012, após o que voltará a crescer em ritmos acelerados, acreditam os analistas.

A indexação das tarifas, adiada para o mês de julho, e o patamar baixo de 2011 irão contribuir para esse processo. “Não acho que em 2012 os preços de matéria-prima agrícola baixem de forma tão significativa quanto em 2011. Portanto, a inflação será maior e, possivelmente, superior a 7%”, afirma Petronévich. “Uma alta dos preços, na faixa de 6% ao ano (mais modesta do que em 2011), será possível caso a economia apresente uma forte desaceleração”, afirma Chakárov. “Nossa previsão de crescimento do PIB é a menor (2,3%). Isso significa que a economia nacional não vai sofrer uma pressão inflacionária”, completa.

Existem várias razões para esperar um abrandamento da inflação, afirma, por seu turno, um alto funcionário do ministério do Desenvolvimento Econômico. O ministério espera que o rublo se desvalorize ligeiramente para permanecer relativamente estável (em média, na faixa de 31,1 por dólar contra 29,4 por dólar em 2011). Como resultado, o ministério não espera uma alta dos preços de importação, constituindo as importações cerca de um terço do Índice de Preços ao Consumidor. A previsão de safra para 2012 é também favorável, o que permitirá conter a alta dos preços dos alimentos.

“Em 2012, o aumento das tarifas dos monopólios naturais será menor do que em 2011 e o governo seguirá uma política monetária mais equilibrada”, adianta a fonte do ministério.

Se os analistas e o ministério econômico divergem nas avaliações sobre a inflação, concordam quanto às previsões de crescimento do PIB, fixando-as em 3,7% (4,4% no período entre novembro e janeiro de 2011). A economia russa não só perdeu os motores que impulsionaram seu crescimento antes da crise, mas também não poderá contar, em 2012, com os fatores que contribuíram para seu crescimento em 2011: a recuperação dos estoques industriais no pós-crise, rápido crescimento dos créditos, aumento da produção agrícola após a recessão em 2010 (sua contribuição para o crescimento do PIB foi de 0,5 ponto percentual, segundo as avaliações de Morózov). Em 2011, o desemprego quase atingiu o nível anterior à crise (6,4% em outubro de 2011 contra 6,1% em 2007).

O mesmo pode ser dito sobre as taxas de ocupação da capacidade produtiva. Em dezembro, as empresas já registaram o excesso de capacidade produtiva em relação à demanda (a balança entre o excesso e a falta de capacidade produtiva atingiu 11 pontos percentuais contra cinco em 2010) e anunciaram sua intenção de reduzir seu pessoal em 2012, diz Serguêi Tsukhlo, do Instituo Gaidar. “A estagnação da demanda acompanhada do crescimento do excesso de capacidade mostra também que as atividades de investimento na indústria dificilmente aumentarão”, acrescenta Petronévich, que não encontra também razões para esperar a melhoria do clima de investimento.

Apenas três dos 14 analistas consultados prevêem que a economia russa cresça 3%, outros três prevêem um crescimento a uma taxa igual ou superior a 4%.

“A estabilização dos mercados externos, a alta dos preços do petróleo e a repatriação de capital são alguns dos fatores que permitirão à economia russa crescer entre 4,5 e 4,7%”, afirma Tsepliáeva. Iaroslav Lisovólik, do Deutsche Bank, assenta sua previsão otimista de um crescimento de 4,6% do PIB nos seguintes fatores: os preços do petróleo seguirão em alta nos próximos anos, o crescimento da economia russa será apoiado por investimentos, inclusive aqueles em projetos de infraestrutura, e o consumo continuará elevado pelo menos no primeiro semestre graças ao aumento das despesas sociais do orçamento no ano eleitoral.

“Os fatores de crescimento externos e internos são fracos. Nessas circunstâncias, um crescimento de 3% ao ano seria bom”, observa com prudência Morozov. “Em 2011, cerca de 60% do crescimento do PIB foi financiado pelos créditos bancários. Algo semelhante se verificou em 2007, quando o superaquecimento econômico atingiu seu auge, embora, em 10 anos, os créditos bancários tenham sido responsáveis por 30%, em média, do crescimento do PIB”, declara Natalia Orlova, do Alfa-Bank . “Temdo em vista que a Zona Euro vai enfrentar uma recessão, os EUA vão viver um  abrandamento de sua economia e a China está caminhando para um pouso suave, a previsão de crescimento de 3,7% é irreal”, duvida Chakárov.

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