Conquistas e escândalos marcaram futebol russo em 2011

Dois clubes de futebol da Rússia, Zenit (St.Petersburg) e CSKA (Moscou), entrou para a Liga dos Campeões Foto: ITAR-TASS

Dois clubes de futebol da Rússia, Zenit (St.Petersburg) e CSKA (Moscou), entrou para a Liga dos Campeões Foto: ITAR-TASS

2011 vai entrar na história do futebol russo como um ano de grandes realizações e grandes escândalos.

Por um lado, dois clubes russos passaram às oitavas de final da Liga dos Campeões e o time nacional se classificou para a fase final da Euro 2012. Por outro, escândalos de violência, corrupção e racismo acompanharam os feitos do futebol russo em casa.

Em termos puramente esportivos, não se podia desejar um ano melhor. Por isso, o presidente da Federação de Futebol Russa (FFR), Serguêi Fúrsenko, tem todos os motivos para ter orgulho e satisfação pelo trabalho que realizou. Quase ninguém contesta sua política, a não ser o clube de Tomsk (na Sibéria), da primeira liga, que está prestes a perder financiamento e deixará de existir.

Entre os principais critérios da avaliação das atividades da FFR está o desempenho da equipe nacional. Nesse sentido, o trabalho realizado por Fúrsenko foi impecável. Por mais polêmico que seja o esquema vigente de  seleção de jogadores para a equipe nacional e por mais que se critique o futebol pragmático por ela exibido, o principal desafio foi vencido: a seleção nacional se classificou para a fase final da EuroCopa de 2012. A seleção russa mostrou um desempenho uniforme e no final da etapa classificatória ainda tinha uma margem de segurança suficiente para se permitir empatar o último jogo contra os eslovacos.

O sorteio da fase de grupos da Eurocopa também favoreceu a equipe russa, que compartilha o grupo com a Polônia, Grécia e República Tcheca. Em contraste com o grupo composto pela Holanda, Alemanha, Portugal e Dinamarca - e já apelidado de grupo da morte-, o grupo parece um presente e torna real a chance de a Rússia passar à fase de mata-mata.

Outra conquista importante aconteceu entre os clubes do país. Pela primeira vez na história do futebol russo, dois clubes nacionais, o Zenit de São Petersburgo e o CSKA de Moscou, estão entre as 16 melhores equipes da Europa. O Zenit passou às oitavas de final do grupo que dividia com clubes tão fortes como o Porto e o Chakhter que têm em seu currículo os troféus da Liga Europa (antiga Copa UEFA).

O CSKA de Moscou não é estreante nas oitavas de final da Liga dos Campeões. Às vésperas do último jogo da fase de grupos, poucos acreditavam que o clube moscovita conseguiria se classificar novamente à fase de mata-mata. Com efeito, precisava bater, em um jogo de ida, o Inter e que a partida Trabzonspor-Lille terminasse em empate. A vitória sobre os italianos por 2 a 1 foi um dos episódios mais marcantes dessa temporada em que o clube moscovita completou 100 anos.

Entre os fatos marcantes da temporada de 2011 há também uma série de escândalos. Um vídeo postado na internet pelo ex-atacante do clube Kuban de Krasnodar, Nikola Nikezic, teve efeito de uma bomba, dizendo que o  jogador montenegrino havia sido forçado, sob tortura e ameaça de morte, a assinar a rescisão de seu contrato com o clube. Pouco tempo depois, outro ex-jogador do Kuban, o sérvio Sreten Sretenovitch, também denunciou que havia sido espancado e forçado a anular seu contrato com o clube.

Esses dois episódios foram levados ao Comitê de Ética da FFR, presidido pelo vice-ministro da justiça, Alu Alkhánov. O comitê multou o clube em dois milhões de rublos (cerca de US$ 65 mil) e seu diretor-geral, Surén Mkrtchian, em um milhão de rublos (cerca de US$ 32,5 mil), afastando temporariamente do futebol o diretor esportivo do clube, Serguêi Dorônchenko, e o treinador Nikolai Khlistunóv, implicados no incidente com Nikezic.

Mais tarde, porém, todas as sanções foram anuladas e o montante das multas aplicadas foi consideravelmente reduzido, e o presidente do comitê, Alu Alkhanov, pediu demissão por não poder mais acumular as funções de vice-ministro e de presidente do Comitê de Ética, segundo a versão oficial.

Outra hipótese, entretanto, é que ele tenha se recusado a presidir uma estrutura que, após um duro veredito no caso de Nikezic, foi privada do direito de entabular inquéritos por iniciativa própria e passou a se ocupar somente dos processos indicados pelos dirigentes da FFR.

Como resultado, um novo escândalo envolvendo o espancamento de um  jogador não tardou a ocorrer. Em novembro passado, durante uma partida do campeonato juvenil em Grózni, capital da Chechênia, foi espancado o atacante do Krasnodar e ex-jogador da seleção nacional, Spartak Gogniev. No vídeo, que virou hit na internet, é possível ver como funcionários do estádio, homens com uniformes camuflados e até mesmo torcedores estão espancando o jogador. Nenhumas sanções sérias foram aplicadas ao clube infrator.

Em agosto passado, durante uma partida entre o Níjni Nóvgorod e o Zenit, o atacante do Zenit, Danko  Lazovic, correu para as arquibancadas para comemorar seu gol e sofreu um choque elétrico aplicado por um dos policiais que faziam a segurança da partida. Depois do jogo, a polícia disse não ter conseguido identificar o autor da agressão.

Os torcedores também deram sua contribuição negativa. Na abertura do campeonato, durante a cerimônia de hasteamento da bandeira, um fã do Zenit jogou no campo uma banana provocando o famoso zagueiro Roberto Carlos. As autoridades oficiais se apressaram em garantir que o autor do insulto racista contra Roberto Carlos seria punido, recusando-se, contudo, a divulgar seu nome. Como resultado, alguns meses depois, durante uma partida em Samara, outro torcedor jogou uma banana contra Roberto Carlos. O jogador ficou indignado com o fato semelhante ao já ocorrido e deixou o gramado.

As tentativas de silenciar os conflitos poderão minar a já manchada reputação e imagem do futebol russo. Ainda não se sabe quais dos feitos do futebol russo tiveram uma maior repercussão na Europa: os êxitos da equipe nacional, do CSKA e do Zenit ou o vídeo de Spartak Gogniev fugindo de uma multidão ensandecida e os depoimentos de Nikola Nikezic, que tem medo de ir à Rússia para assistir ao processo aberto por sua queixa.

O texto original em: http://kommersant.ru/doc/1842741

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