Rússia vive explosão de espetáculos musicais

Foto: Dima Chatrov

Foto: Dima Chatrov

Em outubro passado celebraram-se dez anos da estreia do primeiro musical russo, “Nord-Ost”. Durante uma década o gênero travou duros embates pelo direito de existir em solo russo.

Embora os primeiros musicais tenham surgido na Rússia já na década de 1970, considera-se que a história desse gênero musical no país começou em 1999, com a apresentação no Teatro de Opereta do musical “Metro”, a primeira produção licenciada realizada por uma equipe de profissionais poloneses.

Todavia, aquele espetáculo não foi um musical de verdade. Abrigado por um teatro estatal, o musical teve de dividir o palco com os espetáculos de repertório, enquanto o modelo clássico de musical estabelecido pela Broadway pressupõe não só um determinado estilo, mas também altas tecnologias, cenário impressionante, efeitos especiais, orquestra ao vivo e uma multidão de extras.

Por isso, um musical é geralmente um projeto muito dispendioso. Compare-se: o orçamento do musical “Nord-Ost” foi de US$ 4 milhões, um montante recorde para a Rússia naquela época, enquanto o musical “Homem-Aranha”, que estreou recentemente na Broadway, custou US$ 65 milhões. O dinheiro investido em um musical só tem retorno se este é exibido diariamente. Para isso, o espetáculo deve ter seu próprio espaço e vários elencos.

Há dez anos, muitos não acreditavam que um musical exibido diariamente durante longo tempo fosse viável na Rússia, afirmando que os atores russos não gostavam de executar todos os dias o mesmo trabalho durante um longo tempo. Outros perguntavam ironicamente de onde os produtores de um musical iriam tirar tantos turistas japoneses para encher todos os dias uma sala de mil lugares. Em uma palavra, a idéia parecia utópica e fantástica. Ainda assim, o musical lançou raízes no solo russo e está se desenvolvendo.

Musical pioneiro

No dia 19 de outubro de 2001, os primeiros espectadores de “Nord-Ost” assistiram ao nascimento na Rússia de um novo gênero, o musical russo realizado de acordo com a tecnologia ocidental, mas baseado em uma história e tradição musical nacionais. O espetáculo impressionava, a começar por seu cenário, de autoria de Zinóvi Margólin, representando um enorme bombardeiro e uma escuna levantada do gelo. “Nord-Ost” era um musical de autor, composto, produzido e encenado por duas pessoas: Aleksêi Iváchchenko e Gueórqui Vassíliev. Por isso, ele saiu muito bem organizado e subordinado a uma única concepção artística.

Um ano inteiro de exibições diárias de “Nord-Ost” provou a viabilidade do novo gênero na Rússia. O sucesso do musical inspirou as tentativas de trazer à Rússia os musicais “42nd Street”, “Drácula”, “Chicago”, “As bruxas de Eastwick”. Mas nem todos esses projetos tiveram sucesso no país.

Tentativas e erros

Nos EUA, o musical tem mais de cem anos de história, uma escola desenvolvida e vários espaços especializados. Na Rússia, há dez anos, não havia atores capazes de cantar, interpretar e dançar ao mesmo tempo. O público também não estava preparado para conhecer um novo gênero de arte, considerado estranho à Rússia. Os empresários teatrais tiveram de aprender por tentativa e erro e começaram por levar à Rússia os musicais de que eles próprios gostavam, sem atender aos interesses do público. Tal foi o caso do musical “42nd Street”, levado à Rússia na versão inglesa só porque era uma obra clássica do gênero. Mas uma história comovente sobre o sonho americano só tem impacto em um espectador nascido com esse sonho.

Aleksander Vainstein e Ekaterina Gechmen-Waldeck foram mais bem sucedidas com os musicais franceses, desprovidos de qualquer drama musical, mas lindos e melódicos e mais próximos do coração russo. O musical “Nossa Senhora de Paris” – com seu super-hit “Belle” - ganhou um exército inteiro de admiradoras e se manteve no palco do Teatro de Opereta por dois anos. Algo semelhante aconteceu com o musical “Romeu e Julieta”, concebido no mesmo estilo de um baile de máscaras.

Experiência holandesa

De modo geral, os musicais não despertavam grande interesse na Rússia até que, em Moscou, apareceu a empresa holandesa Stage Entertainment. Essa companhia podia se permitir aplicar capitais no desenvolvimento do mercado de musicais russo sem esperar por um retorno rápido e começou a acostumar metodicamente os espectadores a esse tipo de apresentação. O primeiro espetáculo trazido pelos holandeses, “Cats”, não era um bom exemplo de musical. Baseado em poemas infantis de Thomas Eliot, esse espetáculo de Andrew Lloyd Webber havia causado surpresa nos EUA. Nosso público também ficou surpreso com esse concerto de gatos sem qualquer enredo e com longos e incompreensíveis números musicais.

O projeto seguinte foi mais bem sucedido. O despretensioso “Mamma mia!” era da categoria de espetáculos baseados em hits de bandas conhecidas e teve casa cheia durante dois anos, reunindo pessoas que cresceram com a música do ABBA.

A seguir, veio o musical “A Bela e a Fera”: outra tendência moderna em voga após o sucesso do musical “O Rei Leão”. Com o sucesso desse gênero, a Disney montou uma série de musicais para crianças: “A Pequena Sereia”, “Aladdin”, “Mary Poppins”.

Talvez o pior projeto dos holandeses tenha sido o musical “Zorro”. Esse espetáculo musical de ação, repleto de combates de espada, acrobacias espetaculares e voos sobre a sala, era tão ruim no sentido dramático que nem o ritmo ardente dos dançarinos espanhóis, nem os sucessos dos Gipsy Kings, nem a participação da estrela convidada Nônna Gricháeva ajudaram a salvá-lo.

Só quando esse longo e difícil caminho rumo ao coração dos espectadores russos ficou para trás, a companhia holandesa decidiu se dirigir a uma obra clássica, o musical “The Sound of Music”.

Apesar de modesta e antiquada, a versão da Broadway de 1959 teve que ser mantida por ordem dos titulares dos direitos, que proibiram quaisquer modificações na letra e partitura do musical. A única novidade permitida foi o cenário moderno de autoria do já conhecido Zinóvi  ​​Margólin e um elenco de crianças que não podia deixar indiferente nem mesmo o espectador mais cínico.

Atualmente, somente em Moscou estão sendo apresentados cerca de 50 espetáculos do gênero. Basta dizer que só o compositor Aleksander Jurbín lança um musical por ano, com enredos baseados em obras clássicas da literatura russa, desde Dostoevski até Pasternak. Todavia, encenar um musical em um teatro estatal é sempre um compromisso entre os altos requisitos do gênero e o orçamento modesto de uma instituição estatal.

Nessas circunstâncias, o modelo mais produtivo é a coprodução. Segundo esse modelo, os musicais são encenados em teatros estatais (onde não é preciso pagar o aluguel) e financiados com fundos extraorçamentários captados pelos produtores, envolvendo atores selecionados através de um casting especial. Como projeto mais bem sucedido executado conforme esse modelo, podemos citar a produção nacional “Monte Cristo”, que começou em setembro passado sua quarta temporada, batendo assim o recorde de audiência entre os musicais nacionais.

Dez anos é um prazo bastante curto para a evolução de um gênero no país mas foram suficientes para que, em Moscou, se formasse um grupo de artistas profissionais, embora os gerentes teatrais e diretores de musical competentes continuem escassos. Até recentemente, o maior problema era a falta de espaços livres para os musicais. Em fevereiro de 2012, deve ser inaugurado o Teatro de Musical, cujo primeiro projeto será a coprodução russo-americana “Os tempos não se escolhem” e o seguinte, “Rent”, produzido na Broadway. O novo teatro pretende abrir, futuramente, a primeira escola de musical na Rússia, o que será, talvez, o passo mais importante para que a Rússia possa produzir espetáculos capazes de competir em condições de igualdade com os musicais da Broadway.

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