Paz no Oriente Médio dependerá de relatório de observadores árabes sobre a Síria

Ilustração: Aleksêi Iorch

Ilustração: Aleksêi Iorch

Depois da Líbia, Rússia pisa com cuidado com uma resolução do Conselho de Segurança da ONU.

No dia 26 de dezembro, uma missão de observadores da Liga Árabe chegou à Síria para avaliar a situação complexa no país e elaborar um relatório do qual vai depender muito a posição do Conselho de Segurança da ONU sobre a crise síria.

Assim como a posição assumida pela Liga Árabe em relação à crise na Líbia permitiu aos EUA, Grã-Bretanha e França iniciar uma operação militar contra Kadafi com a aprovação do Conselho de Segurança da ONU, o relatório sobre a Síria deve influenciar no tratamento reservado pelas potências internacionais ao país.

Segundo a agência ITAR-TASS, em um despacho proveniente de Damasco, o chefe da missão, o general sudanês Mohamed Ahmed Mustafa al-Dhabi, que se encontra na Síria desde o último sábado, disse: “Nossos irmãos sírios se relacionam bem sem quaisquer restrições”. Ainda de acordo com o general, os observadores árabes serão divididos em grupos e se deslocarão às cidades atingidas pelas manifestações.

Segundo o canal de TV sírio Dunya, os observadores foram primeiro à cidade de Homs, a 165 km ao norte de Damasco, onde exército e polícia continuam reprimindo brutalmente a revolta popular, bombardeando com artilharia pesada bairros residenciais.


Os ativistas sírios de direitos humanos, atualmente as principais fontes de informação alternativa na zona de conflito, afirmam que, só no dia 26, os militares e policias mataram 59 pessoas em Homs. Segundo a ONU, em  nove meses de conflito na Síria, morreram mais de cinco mil pessoas.

Mesmo assim, o governo de Damasco insiste que está enfrentando “gangues armadas apoiadas externamente” e não uma oposição pacífica.

“A cidade de Homs tem sido sempre um baluarte de forças antigovernamentais. O mais recente surto de violência nessa cidade se insere evidentemente em um contexto da vinda da missão de observadores da Liga Árabe”, acredita o general aposentado do Serviço de Inteligência Exterior (SVR) da Rússia, Guennádi Astáfiev. “Seu objetivo é claro: convencer a opinião pública, especialmente do mundo árabe, de que as vítimas entre os civis foram causadas pelas forças governamentais.”

Outra prova disso é a declaração feita em Ancara pelo líder espiritual da Irmandade Muçulmana, Mohammed Riad al-Shakfa. Segundo ele, em Homs, o regime sírio quer matar toda a população local para calar a voz da liberdade. “Pedimos aos líderes árabes para salvar o povo da Síria”, disse ele.


No entanto, observadores chamam a atenção para o fato de o líder islamista ter repetido, quase na íntegra, a afirmação de um alegado “observador da Liga Árabe” chamado Mahjoub transmitida por alguns canais de TV a cabo pouco antes da visita da missão de observadores. Mais tarde, a Liga Árabe sediada no Cairo negou que esse homem fizesse parte da missão de observadores.

A Rússia, apoiada pelos países do BRICS, continua defendendo a elaboração de uma resolução equilibrada sobre a situação na Síria. Sua proposta de resolução apresentada pelo embaixador da Rússia na ONU, Vitáli Tchúrkin, foi rejeitada pelos países ocidentais, que contestam que o apelo ao fim da violência contido na proposta russa seja dirigido às duas partes do conflito, o governo e a oposição.  Além disso, Moscou é contra o estabelecimento do embargo ao fornecimento de armas à Síria, medida defendida por Washington, Londres e Paris.

Vitáli Thcúrkin disse a esse respeito: “Se formos abordados para tirarmos de nossa proposta de resolução todas as referências à violência por parte da oposição extremista, não vamos ceder. Se eles esperam que aceitemos o embargo ao fornecimento de armas, isso também não vai acontecer.

Sabemos o que vai significar o embargo nesse caso. Pelo que vimos na Líbia, o embargo vai significar que você não poderá fornecer armas ao governo enquanto outros poderão fornecer armas aos grupos oposicionistas”.

Se a missão da Liga Árabe confirmar que o regime de Assad é injustificadamente cruel com a população civil, a confrontação na ONU sobre os futuros passos em relação à Síria vai aumentar.

No entanto, um apoio unilateral à oposição sem que sejam levados em conta todos os fatores do conflito poderá ter consequências de longo alcance. É óbvio que, no futuro, a Síria terá de mudar seu regime e realizar profundas reformas democráticas. O presidente sírio tem consciência disso e convida a oposição para um diálogo. “O problema é que a oposição rejeita a proposta presidencial”, assinala o general Evstáfiev.

“A oposição síria é composta basicamente pelos seguidores do islamismo sunita e é apoiada por seus correligionários das monarquias influentes do Golfo Pérsico”, continua o general. Segundo ele, a queda do regime de Assad poderá provocar uma cisão nesse país multirreligioso e aumentar o isolamento do Irã, para o qual Bashar al-Assad era, de fato, o único aliado na região. 

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