Jamais esqueceremos, nunca será esquecido

Henrique Vasques Foto: Arquivo pessoal

Henrique Vasques Foto: Arquivo pessoal

Estudante brasileiro que morreu afogado em um rio em Kursk, sul da Rússia, na segunda-feira (2) disse à família logo que chegou ao país, em outubro, que frase inscrita em monumento o marcou.

O estudante de medicina Henrique Vasques, 20, morreu afogado na última segunda-feira (2), após cair em um rio congelado na cidade de Kursk, cerca de 500 km a sul de Moscou. Henrique nasceu em São Paulo, e foi para a Rússia com uma bolsa de estudos para iniciar um curso de medicina. Tenente de cavalaria, seu plano era voltar ao Brasil para continuar na carreira militar depois de se tornar médico.

Os rios e lagos de Kursk congelam durante esta época do ano devido às baixas temperaturas. Entretanto, com temperaturas menos rigorosas que o normal, que variaram entre -2° e 0° na última semana, a camada de gelo que se forma sobre eles não é grossa o suficiente para suportar o peso corporal, e o lago pelo qual o estudante caminhava com um colega cedeu.

“Eles pensaram que o gelo estava grosso, só que uma frecha se abriu e os dois afundaram”, conta um estudante da universidade que não quis ter seu nome divulgado. Vasques estava acompanhado pelo amigo, também brasileiro, Rafael Lusvarghi, 27.

Os dois haviam patinado sobre o lago e resolveram caminhar pelo percurso que já haviam feito, quando foram tragados pela abertura no gelo. Eles tentaram nadar até a borda do lago, mas Henrique não resistiu.

Rafael foi resgatado por um policial que passava pelo local. Teve algumas escoriações na perna, hipotermia e ficou inconsciente, mas já passa bem. Henrique, resgatado inconsciente, não resistiu à baixa temperatura e morreu no local. 

Muitos amigos


Em pouco tempo Henrique conquistou vários amigos, apesar da barreira da língua e da mudança para um novo país. “Ele adorava a Rússia, adorava o lugar. Fez amigos em pouco tempo. Não só os brasileiros que foram com ele, mas russos também, e passou o Natal já com com quatro amigos russos”, conta seu irmão, Victor Vasques.

Henrique completaria 21 anos em março e planejava ir em julho para o Brasil para comemorar com a família. Sua ideia era terminar a faculdade de medicina e voltar ao Exército brasileiro, onde era tenente de cavalaria.

“Logo que ele começou a jogar futebol na Rússia o apelidaram de Kaká”, conta Victor.

A família de Henrique está no Brasil, e a embaixada brasileira providencia os documentos necessários para o traslado do corpo junto às autoridades brasileiras. O traslado, entretanto, pode levar mais tempo que o normal, já que as festas russas de final de ano se estendem, em geral, até o dia 10.

Nunca será esquecido


De acordo com Victor, a primeira coisa que Henrique fez ao chegar em Kursk foi visitar o memorial da Segunda Guerra Mundial da cidade. “Jamais esqueceremos. Nunca será esquecido. Essa foi a frase que ele disse quando chegou na Rússia. Agora ela faz mais sentido do que qualquer coisa”, diz o irmão.

Depois de concluir o curso de oficiais do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São Paulo), e ingressar num curso de Engenharia Aeroespacial, Henrique começou uma iniciação científica, onde passou a trabalhar com novas tecnologias médicas. Foi quando começou a se interessar mais pela neurocirurgia.

Henrique Vasques Foto: Arquivo pessoal 

“Foi nessa época que decidiu ir estudar medicina na Rússia,” lembra Victor. Em seguida, Henrique foi selecionado como bolsista da agência de intercâmbios Aliança Russa para estudar medicina em Kursk. “Ele sempre foi muito determinado, não se contentava nunca em ser um 02, como dizíamos no exército, ele queria sempre ser o 01. Tudo o que ele quis, ele mesmo correu atrás. Ele sempre correu atrás dos sonhos”, diz Victor.

O estudante embarcou no dia 4 de outubro para a Rússia. Assim como a maior parte dos jovens que vão estudar medicina na Rússia, Henrique sabia apenas inglês ao chegar no país. Mas em pouco tempo já começou a desenrolar o idioma. “Os professores falaram que nunca tinham visto um aluno aprender tão rápido o russo”, conta seu irmão.

Na internet os amigos deram o último adeus ao estudante. “Ele era muito família, gostava de ficar com os amigos. Nós éramos muito próximos”, conta Victor.

O consulado do Brasil em Moscou está acompanhando o caso e providenciando os serviços de translação do corpo. O custo, entretanto, será alto, já que Henrique não tinha seguro.

Quem quiser fazer doações para a família pode entrar em contato com a família pelo e-mail: contato@comlimao.com 

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