Subsolo congelado da Rússia corre riscos ambientais

Foto: AP

Foto: AP

As áreas do permafrost (subsolo que deveria estar permanentemente congelado) cobrem de 60% a 70% do território russo, concentrado, em sua maior parte, em reservas de recursos naturais. O desenvolvimento da exploração de petróleo e gás representa uma ameaça para a preservação dessas terras, talvez muito maior que os riscos de derretimento do permafrost devido à mudança climática global.

O permafrost não é mais eterno, e esse fato pode ser fonte de muitos problemas. Pedras de gelo não são boa base para construir nada, de casas para habitantes a ferrovias e gasodutos, mas, quando se tem enterrada a herança nacional de um país no permafrost (segundo algumas estimativas, cerca de 70% das reservas de gás comprovadas na Federação Russa), você simplesmente não tem outra saída. Os russos, nesse sentido, não estão sozinhos; povos do Alasca, por exemplo, enfrentam problemas semelhantes.

É necessário saber quem irá protegê-los e como eles irão se desenvolver (é desejável que se evite desastres ecológicos), e o que acontecerá realmente com o permafrost.

No caso das hipóteses mais difundidas e assustadoras, teremos o derretimento do permafrost devido ao aquecimento global. Recentemente o chefe do centro Antistikhia (Ministério de Monitoramento e Previsão de Situações de Emergência da Federação Russa), Vladisláv Bolov, compartilhou com a agência de notícias RIA Novosti o prognóstico de que, nos próximos 30 anos, a área do permafrost na Rússia irá diminuir de 10% a 18%, a temperatura dos solos do permafrost na Península de Iamal vai aumentar em média de 1,5 a 2ºC e os limites do permafrost dentro de meio século “se deslocarão para o nordeste de 150 km a 200 km”.

De acordo com outro ponto de vista, o clima no planeta realmente está sujeito a mudanças, mas não necessariamente por causa do homem, e a grande questão é se elas ameaçam o permafrost. Segundo a pesquisadora líder do Instituto da Criosfera da Terra, Galina Malkova, prever uma redução ainda maior na temperatura ou, em contrapartida, um novo circuito de aquecimento é simplesmente impossível: as monitorizações regulares da temperatura das rochas duram ao todo de 40 a 50 anos, com esse tempo seria impossível traçar padrões rítmicos. A temperatura do permafrost não pode mudar tão rapidamente, como a temperatura do ar, sendo assim, difícil derretê-lo.

Mas o permafrost deixou de ser tão estável desde que começaram as tentativas de erguer casas ou construir estradas sobre ele. Incluindo o gelo, eles formam de 40 a 90% das milenares rochas congeladas, e, nas condições naturais, cobertos de vegetação, serviam como um tipo de isolante, que protegia o gelo debaixo das altas temperaturas do verão. Se a superfície superior for quebrada, ninguém mais poderá impedir o derretimento do gelo, exceto que haja algum isolante que a substitua.

Cada erro na concepção, construção ou manutenção de edifícios e estruturas (por exemplo, isolamento mal-feito ou desvio trivial de águas residuais) carrega consequências catastróficas. No relatório do Greenpeace, foram citadas estimativas de que, "na manutenção da eficiência dos canais e na eliminação de deformações mecânicas associadas ao derretimento do permafrost, são gastos anualmente até 55 bilhões de rublos", e a quantidade de situações de emergência em toda a Sibéria é estimada em cerca de 7 mil por ano. Os fracassos na construção de habitações também acontecem, e não são necessariamente velhas barracas: por causa do degelo do permafrost um prédio novo pode entrar totalmente em desuso entre 6 a 10 anos após a construção, para não mencionar o fato de que muitos não ficam de pé até o término das obras.

Mesmo assim, é possível construir algo sob o gelo, como mostram o maior frigorífico natural ("merzlotnik") e novas construções, como a ferrovia localizada ao norte da Rússia (Obskaia-Bovanenkovo) e a ponte mais longa em latitudes polares.


O merzlotnik, formando nas rochas milenares congeladas, é uma mina composta de três galerias com extensão de 100 a 140 metros. Foi construído em 1956 e agora é mais um monumento à teimosia humana do que um fenômeno de tecnologias avançadas. Durante mais de 50 anos de operação, o merzlotnik não precisou passar por nenhuma reforma.

Já a longa ponte de 3,9 km através do vale do rio Iuribei é uma fonte de orgulho da Gazprom (grande companhia de gás russa). Como indicado no site da empresa de gás, a Gazprom teve “sucesso ao construir em um solo que é pouco adequado para a construção", ou seja, no permafrost, com um esguicho de soluções salinas criogênicas com ponto de congelamento muito baixo, que às vezes chega a 30 graus negativos.


Originalmente publicado no site http://kommersant.ru/

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.