Crimes tecnológicos viram arma política durante crise de instabilidade

Editor-chefe da  rádio Echo Moskvi, Aleksêi Venediktov Foto: TASS

Editor-chefe da rádio Echo Moskvi, Aleksêi Venediktov Foto: TASS

Durante as eleições parlamentares, diversos veículos de imprensa viram seus sites fora do ar ao relatar fraudes no processo. Agora, personalidades partidárias de manifestações pela anulação das eleições são censuradas na rede.

No dia quatro de dezembro, sequer começavam os trabalhos nas seções eleitorais quando, às 6h40 da manhã, o site da rádio Echo Moskvi saiu do ar.

A estação não foi o único alvo de hackers naquele dia na Rússia. Além dela, caíram os sites do jornal on-line Gazeta.ru, do Slon.Ru, da revista Bolshoi Gorod e, temporariamente, da revista The New Times.

Em comum, os sites continham links para os também derrubados conteúdos da associação Golos (em russo, a palavra significa “voz” ou “voto”) e da Karta Narushenia (“Mapa da Fraude”), sites interativos criados para denunciar irregularidades ocorridas durante a votação. 

“Nós, assim como outros colegas de sites de mídia, reportamos muito ativamente as preparações para as eleições, publicamos então fraudes ocorridas, e por isso esses fraudadores organizaram o ataque pago”, disse à Gazeta Russa o editor da Echo Moskvi, Aleksêi Venediktov.

Além deles, também caíram os sites do jornal on-line Ridus.ru, da editora Kommersant, e de meios de comunicação regionais, como o Túlskie Nôvosti, o Tulapressa e o Tulatail, entre outros.

DDos, o preferido da casa

 

Todos os sites paralisados no dia quatro foram alvos de ataques DDos, recurso já empregado ostensivamente no país.

Também conhecido como “denial of service attack”, o DDoS consiste na sobregarga do servidor de um site. Para efetuar essa sobrecarga, hackers infectam milhares de outros computadores com vírus que os programam para acessar o site atacado todos ao mesmo tempo (veja o infográfico interativo).

No caso da rádio Echo Moskvi, cerca de 250 mil computadores acessaram seu site simultaneamente. “Só no meio do dia percebemos o quanto esse ataque era sofisticado. Não eram quaisquer pessoas comuns que poderia nos dar essa porrada. A maior parte dos computadores usados no ataque estavam no exterior. Em ordem decrescente, por quantidade de computadores infectados, estava em primeiro lugar o Brasil, depois a Índia, a Turquia, a França, a Rússia, os EUA, a Ucrânia, a Alemanha, Botswana etc.”, conta Venediktov.

Um dos casos mais polêmicos de emprego do DDoS no mundo foram os ataques supostamente russos a sites da Estônia após a escultura de bronze de um soldado soviético ser transferida do centro para os subúrbios de sua capital, Tallin, em maio de 2007. O evento levou o primeiro-ministro do país báltico a pedir ajuda à Rússia contra a investida cibernética. 

O recurso também é um velho conhecido do LiveJournal, a mais utilizada plataforma de blogs russa, que também foi alvo no dia das eleições.

Hospedando os diários virtuais de figuras políticas e personalidades do país, o site é mais conhecido por ser a casa da oposição na internet do que por relatar o dia a dia de adolescentes conectados, como outras plataformas de blogs.

Apesar do recente crescimento da imprensa livre no país, liderado por veículos como a Echo Moskvi, primeira rádio a ser privatizada ainda na era soviética, o jornal on-line Gazeta.ru, o Lenta.ru (ambos criados em 1999), ou o novíssimo telecanal Dojd, criado em 2010,  entre outros, o gerenciador de blogs foi o primeiro a dar, democraticamente, voz a ambos, oposicionistas e governistas.

Específico, sim

 

Foi devido à hospedagem dos blogs de figuras como Aleksêi Naválni, o jovem advogado que cunhou o slogan “Partido dos Trapaceiros e Ladrões” - dirigido ao governista Rússia Unida -, que o LiveJournal tornou-se alvo de ataques recorrentes desde o ano passado.

 “Os ataques Ddos ao LiveJournal iniciados na semana das eleições foram muito mais potentes que os efetuados na última primavera e no verão” disse à Gazeta Russa Ekaterina Pahomchik, porta-voz da SUP - companhia de mídia proprietária da Gazeta.ru e do LiveJournal.


“Mas desde o dia 28 de novembro, nossos especialistas têm observado os altos e baixos das atividades de hackers, que não estão atacando nenhum blogger específico, e sim o servidor todo, em geral”, completa.

Mas o escritor de best-sellers russos Boris Akunin, que participou do protesto pela anulação das eleições parlamentares no dia 10 de dezembro na Praça Bolôtnaia, sofreu uma invasão dirigida na manhã de segunda-feira (19).

Todos seus posts, comentários e seguidores foram deletados, e um recado alusivo a sua ação “revolucionária” – um discurso durante o protesto -, apareceu na página. No fim do dia, porém, as informações perdidas já haviam sido restabelecidas.

Depois de analisar o caso, o diretor do LiveJournal, Iliá Dronov, declarou que o invasor entrou na página de Akunin por meio da senha salva em seu e-mail pessoal.

Os ataques a sites de imprensa durante as eleições estão sendo investigados na justiça.

“Escrevemos à Procuradoria Geral, ao comitê investigativo, à administração do presidente, à Comissão Eleitoral Central, à direção de crimes tecnológicos do Ministério do Interior, ao Serviço Federal de Segurança e vamos aguardar os resultados de uma investigação paralela”, diz Venediktov sobre o site da Echo Moskvi.

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