Quem sacode o barco

Ilustração: Natália Mikhailenko

Ilustração: Natália Mikhailenko

Sempre que políticos ou partidos no poder tentam a reeleição, fazem o possível para convencer o eleitor de que não vale a pena mexer no time no meio do jogo.

Já os membros da oposição tentam se eleger reivindicando mudanças. Após as eleições, os vencedores costumam pedir aos perdedores para não sacudirem o barco, dando a entender que qualquer polêmica sobre supostas fraudes eleitorais subverte a legitimidade do poder. É lógico e típico de toda a luta política.  

Quando, em 2000, George W. Bush foi declarado prematuramente vencedor das eleições presidenciais nos EUA e seu concorrente Albert Gore entrou com uma ação judicial contra ele, Bush declarou que essa disputa judicial iria subverter a legitimidade do sistema americano em geral, embora o verdadeiro vencedor ainda não fosse conhecido e todo o mundo esperasse pela decisão do Supremo Tribunal de Justiça.

Na Rússia atual parece ocorrer uma situação semelhante. Os líderes do Rússia Unida, incluindo o presidente Medvedev, dão a entender que aqueles que duvidam da veracidade da versão oficial da eleição de 4 de dezembro prejudicam a estabilidade no país. Já o primeiro-ministro Vladímir Pútin, outro líder do Rússia Unida, assenta sua campanha eleitoral na tese de que seus oponentes são contra um forte poder na Rússia. Naturalmente, não é isso que ocorre. A maioria dos oponentes do partido governista deseja que a Rússia tenha um poder forte, mas não querem ver Vladímir Pútin à frente do Estado. Fazer crer que as críticas lançadas contra você são, na verdade, críticas contra o cargo que você ocupa ou, melhor dizendo, contra o país que você dirige é um das maneiras de prolongar sua vida política.

Todavia, contrariamente ao eleitor passivo, o eleitor ativo entende que o apelo para não sacudir o barco é um apelo padrão daqueles que estão no poder. Para saber quem, na verdade, sacode o barco, é preciso analisar a situação em cada caso concreto. Se os votos foram contados honestamente e os resultados, ainda assim, são contestados pela oposição, o barco é sacudido pela oposição. Mas se as eleições foram fraudulentas e seus resultados modificam substancialmente a distribuição dos poderes, o barco é sacudido por aquele que faz vista grossa às fraudes cometidas. A estabilidade não ocorre quando um líder político se torna insubstituível. A estabilidade ocorre quando os líderes e os partidos no poder são trocados por vontade dos eleitores. (Não é à toa que, dentre os ex-países socialistas, os mais estáveis são aqueles que trocam periodicamente seus líderes e partidos governantes mediante as eleições).

Nosso país não precisa de choques nem de revoluções, mas de anos de um desenvolvimento contínuo e progressivo. Foi com o objetivo de defender seu direito a um desenvolvimento calmo e bem sucedido que dezenas de milhares de moscovitas se reuniram, no dia 10 de dezembro, na Praça Bolótnaia.

Konstantin Sônin, professor e vice-reitor da Escola Econômica Russa 




Originalmente publicado no jornal “Védmosti”

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