Conceito de BRIC completa 10 anos

Há precisamente dez anos, publiquei um artigo intitulado “O mundo precisa das economias do BRIC” (The World Needs Better Economic BRIC) em que usei o termo BRIC para descrever eventuais conseqüências de um rápido crescimento econômico que poderia ser apresentado futuramente pelo Brasil, Rússia, Índia e China. Agora, é claro que o crescimento desses quatro países foi ainda maior do que eu esperava. Mais do que isso, os países referidos na presente sigla constituíram um grupo político próprio. O termo “países do BRIC” é amplamente conhecido: é utilizado tanto na área de negócios quanto na de cultura. O décimo aniversário daquele artigo caiu em um período de gravíssimas preocupações a respeito do futuro da economia global e, sobretudo, das economias desenvolvidas.

Continuo otimista e não deixo de considerar que enquanto esses quatro gigantes de dimensão global continuarem crescendo economicamente e aumentando suas riquezas, sua prosperidade não só continuará reforçando seu papel no mundo, mas também proporcionará a economias mais problemáticas uma chance de um  futuro melhor. O crescimento contínuo dos países do BRIC faz bem a seus habitantes e a toda a humanidade.

Meu artigo de 2001 continha três principais conclusões. Primeiro, argumentei que, se o Brasil, Rússia, Índia e China continuassem crescendo na mesma taxa com que começaram a crescer naquela altura, poderiam se tornar, até 2010, uma parte muito mais significativa da economia mundial. O roteiro mais otimista que tracei previa que a participação total desses países no PIB global pudesse aumentar de 8% para 14%. Na realidade, sua participação poderá chegar, até o final de 2011, a 20%, enquanto o PIB total dos países do BRIC aumentou de US$ 3 trilhões para pouco mais de US$ 13 trilhões.

Esse aumento representa cerca de um terço de todo o acréscimo do PIB nominal nos últimos dez anos. Os países do BRIC, crescendo anualmente a uma taxa de cerca de 8%, impulsionaram o crescimento da economia global, que apresentou uma taxa de 3,5% ao ano na última década, apesar dos enormes desafios que enfrentou em 2001 e em 2008 e continua enfrentando ainda hoje.

Se não fossem os países do BRIC, a taxa de crescimento da economia global se situaria na faixa de 1,6%, a taxa média de crescimento do chamado mundo desenvolvido. Costumo sugerir que esses números sejam encarados do seguinte modo: o acréscimo total de US$ 10 trilhões no PIB dos países BRIC nessa década equivale a um valor necessário à criação de seis ou sete novas economias da Grã-Bretanha (na versão de 2001) ou de uma nova economia dos EUA. No entanto, na década que se inicia agora, o crescimento econômico dos quatro países do BRIC poderá desacelerar.

Mesmo assim, sua participação no PIB global continuará aumentando. A China tem condições de crescer a uma taxa de 7 a 8% ao ano. A Índia também poderá se acelerar e atingir os ritmos anteriormente inerentes à economia chinesa, especialmente se conseguir se aproveitar da recente decisão de permitir que as empresas estrangeiras detenham os controles acionários nas empresas indianas de comércio a varejo. Em poucos anos, o PIB nominal agregado dos países do BRIC superará o PIB dos EUA e da Europa.

Dadas as eventuais taxas de crescimento econômico dos países do BRIC, a segunda parte de meu artigo de 2001 se referia à necessidade de aproximá-los do processo mundial de decisão política. Na realidade, os países do BRIC permaneceram por muito tempo na periferia do cenário político. Como resultado, eles criaram sua própria reunião política anual. Na verdade, foi necessária uma crise mundial em 2008 para que as economias desenvolvidas compreendessem o quão importante é o papel dos países do BRIC na economia global moderna; a decisão de colocar o G20 no primeiro plano do processo mundial de decisão política foi uma maneira de mobilizar os países do BRIC para esse processo. Já em 2001, defendi que os países do BRIC fossem incluídos, juntamente com os EUA, Japão e a Zona do Euro – e possivelmente Canadá e Grã-Bretanha - em uma nova organização dos “países do G”: o G9 ou em um renovado grupo G7, se a Grã-Bretanha e o Canadá não entrassem para a nova organização.

A terceira idéia de meu artigo de 2001 era que, uma vez que esses países tinham uma moeda comum, a França, Itália e Alemanha deveriam suspender sua presença individual em alianças globais e no G7, o que permitiria melhorar a governança política global.

À medida que as estrelas dos países do BRIC forem ascendendo no cenário internacional, esses países irão proporcionar cada vez mais oportunidades aos habitantes dos outros países de elevar seus padrões de vida e prosperidade. Para que o crescimento econômico global continue, apesar dos problemas enfrentados por muitas economias emergentes, precisamos da energia das economias dos países do BRIC. Felizmente, eles têm energia em quantidade suficiente.

Jim O'Neill - presidente do Conselho de Administração da gestora de recursos do Goldman Sachs




Originalmente publicado no site  http://slon.ru/



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