Novo parlamento russo dá guinada à esquerda

Foto: RIA Nóvosti

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A nova Duma de Estado (como é chamado o parlamento no país) dará uma guinada à esquerda e será mais dinâmica enquanto a concorrência política se tornará mais forte e a vida política no país, mais interessante.

Enquanto  91% dos votos totais já haviam sido apurados, o partido governante Rússia Unida liderava, com 49,84 %. O Partido Comunista vem em segundo lugar com 19,16 % dos votos, seguido pelo Rússia Justa, com 13,11%, e o Partido Liberal Democrático (LDPR, na sigla em russo), com 11,65%.


Nas eleições de 2007, o Rússia Unida obteve 64,3% dos votos, o Partido Comunista, 11,6%, o Rússia Justa, 7,7%, e o LDPR, 8,2% dos votos. Na última votação, os três últimos partidos melhoraram consideravelmente seus resultados.

Expectativas e surpresas

 

Os especialistas são unânimes ao afirmar que os resultados das eleições atingiram as expectativas.

No Brasil o partido Rússia Unida conquistou 37,76% dos 278 votos. O Partido Comunista ficou em segundo com 19,78%, enquanto Yabloko, o terceiro lugar com 17,27% dos votos

“A princípio, esses resultados eram esperados. O Rússia Unida tem uma maioria consolidada, mas um número menor de votos do que no pleito passado”, assinala o analista político e membro da Câmara Pública da Rússia, Serguêi Markov. Para ele, a única surpresa foram os resultados obtidos pelo Rússia Justa, cujo êxito atribui a sua postura notadamente oposicionista.

Ilustração: Niyaz Karim

O presidente do Conselho de Prioridades Estratégicas, Aleksêi Puskov, chama de “microsurpresa” o resultado obtido pelo Rússia Justa. Já em setembro muitos negavam ao partido qualquer chance de ultrapassar a barreira de 7%. O tema central da campanha do Rússia Justa foi a justiça legal e social, o que lhe rendeu bons resultados.

Líderes partidários comentam resultados preliminares

 

“A única coisa que a gente achava era que o Rússia Justa teria menos votos porque, nos últimos tempos, essa sigla balançou muito”, observa o presidente do Centro de Estudos Políticos e Sociais Aspekt e membro da Câmara Pública da Rússia, Gueórgui Fiódorov.

A mesma opinião é compartilhada pelo presidente do Conselho do Instituto Público Russo da Lei Eleitoral, Ígor Borissov. “Algumas pessoas duvidavam que o Rússia Justa ultrapassasse a cláusula de barreira. Todavia, na fase final da corrida eleitoral o partido e seu líder se concentraram e intensificaram suas atividades de propaganda eleitoral”, diz Borissov.

Segundo o presidente do Instituto de Estratégia Nacional, Mikhail Rêmizov, os resultados iniciais, segundo os quais a oposição obtém mais votos do que o esperado, permitem dizer que “o jogo foi leal”.

“Em última análise, os partidos parlamentares obtiveram mais votos, devendo a nova Duma de Estado dar uma guinada a centro-esquerda”, disse o membro da Câmara Pública  e presidente da organização Homem e Lei, Vladisláv Grib.

Concorrência política vai aumentar 

 

Embora os russos continuem confiando no Rússia Unida e quase metade dos eleitores tenha votado no partido, a concorrência política na nova Duma de Estado deve aumentar.

“Por enquanto, é difícil dizer se mudará ou não o esquema de trabalho da Duma de Estado. Mas a concorrência política no parlamento russo vai aumentar de qualquer maneira”, afirma o analista  político Serguêi Markov.
O diretor-geral da Agência de Comunicações Políticas e Econômicas, Dmítri Orlov, considera que a oposição obteve mais possibilidades de influenciar o processo político no país, embora o Rússia Unida mantenha seu domínio.

O Rússia Unida também deve mudar. A eleição para deputado federal pela lista partidária conjunta do Rússia Unida e da Frente Popular Russa permitirá à sigla se tornar mais receptiva a questões que preocupam a sociedade, afirma Puskov.

“Acho que, durante a luta pré-eleitoral, que foi muito dura, o Rússia Unida recebeu vários sinais sérios que não o deixarão descansar nos  próximos anos. Pelo contrário, da próxima vez a sigla poderá obter concorrentes muito fortes”, salienta Roman Emelianov, diretor de programação da Rádio Russa e membro do Conselho de Cultura e Artes junto à Presidência da Federação.

Guinada vermelha

 

O Rússia Unida obterá uma maioria na câmara baixa do parlamento russo, enquanto a posição dos partidos de esquerda se tornará mais forte.

Pesquisas de opinião pública despertaram nos liberais a esperança de que o partido Iábloko pudesse obter mais de 4% dos votos. Mas resultados preliminares da Comissão Eleitoral Central destruíram defintivamente suas esperanças de fazer parte da nova Duma de Estado.

A forte guinada à esquerda da Duma pode ter como consequência o aumento de encargos sociais do orçamento do Estado, segundo o membro da Câmara Pública da Rússia, Denis Dvórnikov.

“Sentiremos falta da opinião dos partidos de direita nos assuntos econômicos, na conjuntura externa e no processo político interno. Correremos o risco de assistir a um populismo excessivo e, como consequência, o aumento dos encargos sociais do orçamento federal. Nesse contexto, o governo terá mais dificuldades em realizar reformas impopulares, porque a guinada para a esquerda de nosso parlamento irá frear a atuação do poder Executivo”, afirma Dvórnikov.

Já o presidente do Conselho do Instituto Público Russo da Lei Eleitoral, Ígor Borissov, acredita que a nova Duma de Estado irá adotar projetos de lei mais equilibrados e mais alinhados  com os anseios da maioria da população do país.

Segundo Pusko, a correlação de forças na Duma de Estado será definida quando ficar claro se o Rússia Unida ultrapassará ou não a barreira de 50%. Se o resultado da sigla for pouco superior a 50%, o partido terá no parlamento uma maioria absoluta, mas não constitucional.

Por outro lado, os projetos de lei cuja aprovação exige a maioria constitucional já foram adotados pela Duma anterior, não havendo, atualmente, projetos de lei para cuja aprovação seria necessária a maioria constitucional.

Ao ceder, em parte, suas posições, o “Rússia Unida” continuará dominando a Duma de Estado e o sucesso dos partidos da oposição não o impedirá de fazer passar pelo parlamento as leis que julgar necessárias, afirma o analista político.

“O Rússia Unida está obtendo o número de votos necessário para manter seu domínio na Duma de Estado e ter uma maioria simples”, disse o diretor-geral do Fundo Nacional de Segurança Energética, Konstantin Símonov.

A nova Duma não passará sem coligações

Na noite do último domingo (4), o presidente russo Dmítri Medvedev disse em seu discurso no comitê de campanha eleitoral do Rússia Unida que o partido terá de se aliar a outros, dada a nova e complexa configuração da Duma de Estado. “Isso é completamente normal, é um parlamentarismo e uma democracia”, disse Medvédev.

“As coalizões serão temporárias e dependerão de situações concretas. Não acho que no novo parlamento haja uma coalizão governante”, assinalou Rêmizov, acrescentando que as coalizões governantes são típicas de repúblicas parlamentaristas, enquanto na Rússia seriam necessárias.

O analista político Pável Danílin afirma que o Rússia Unida não tem necessidade de se aliar a outros partidos na Duma de Estado.

“Se surgir a necessidade de fazer emendas à Constituição, o partido terá de fazer coalizões com outras bancadas parlamentares. Nos demais casos, a sigla possui um número suficiente de cadeiras para aprovar uma lei necessária”, disse Danílin. 

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