Futebol no combate ao extremismo

Samuel Eto’o Foto: TASS

Samuel Eto’o Foto: TASS

Além da compras milionárias, o Anji planeja sete escolinhas de futebol, contratação de treinadores e construção de um novo estádio.

Tarlan Bakhichev, 14, esperou seis horas com os amigos para conseguir ingresso para assistir ao time de futebol local, o Anji Makhatchkalá. Os adolescentes transbordam de felicidade enquanto assistem ao treino.

Em um canto do estádio, dezenas de fãs fazem sua salá noturna, a oração muçulmana, e outros milhares aguardam a chegada da mais nova estrela, o atacante Samuel Eto’o, ex-Inter de Milão.

Neste outono, o clube assinouum contrato de três anos com o bicampeão da Liga dos Campeões da Uefa por um salário estimado em US$ 30 milhões anuais.

É cada vez mais comum que um time saia do nada e passe a atrair os melhores jogadores do futebol europeu em uma questão de instantes. O oligarca russo Roman Abramovitch transformou o inglês Chelsea depois de comprá-lo em 2003; o Manchester City está se aproveitando da fortuna do Abhu Dhabi United Group e recentemente goleou seu rival, o tradicional Manchester United.

A sede do Anji fica em Makhatchkalá, capital da República do Daguestão, no Cáucaso do Norte. A região é cenário de uma antiga e intensa batalha entre as autoridades russas e os extremistas islâmicos, e presencia ataques quase diários. No dia em que Eto’o esteve pela primeira vez por lá, cinco pessoas morreram em uma série de atentados.

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Roberto Carlos capitáo e treinador interino do Anji Makhatchkalá: "Seria ótimo assinar com o Cristiano Ronaldo. Nosso objetivo é fazer com que Anji atinja o mesmo nível do Real Madrid e do 
Barcelona.”

Nos últimos anos, mais de cem policiais foram assassinados por ano na república, que tem 2,6 milhões de habitantes. Por isso, jogadores e suas famílias não moram na cidade. Em vez disso, pegam um voo em Moscou com destino ao sul do país sempre que há jogo marcado na região.

O diretor geral do clube, Guérman Tchistiakov, insiste que a cidade é segura, e afirma que tinha uma impressão diferente da república antes de se mudar para lá. “Pensei que houvesse praticamente uma guerra acontecendo aqui, que as balas voassem ao nosso redor e fosse necessário rastejar para se locomover pela cidade”, disse à agência de notícias russa Ria Novósti.

Quem financia a vinda de Eto’o e de todos os demais jogadores é um único homem, Suleiman Kerimov. Daguestanês e um dos oligarcas mais reclusos, Kerimov foi membro da Duma de Estado (Câmara Baixa do parlamento russo) e atualmente é senador.

“Kerimov não dá entrevistas, ele se comunica com o povo do Daguestão por meio do clube de futebol”, diz Enver Kisriev, chefe da seção caucasiana de um grupo de discussão acadêmico em Moscou.

A revista Forbes estima que Kerimov tenha uma fortuna de aproximadamente 
US$ 8 bilhões, acumulada durante a década de 1990 por meio de investimentos. Embora seja proprietário de uma das maiores produtoras de ouro do país, conseguiu se manter fora dos holofotes da imprensa até que, em 2006, bateu sua Ferrari Enzo em alta velocidade contra uma árvore em Nice, na França. Ficou seriamente ferido e levou meses para se recuperar. Tina Kandelaki, apresentadora russa de TV que estava com ele no carro, teve mais sorte, mas sofreu queimaduras.

Julgando pela recepção de Eto’o, o clube não pode fazer feio no Daguestão. Cerca de 8 mil pessoas lotaram o estádio só para ver o treino e crianças correram para o campo tentando tocar Eto’o.

Em determinado momento, um estudante local camaronês, que cursa medicina em Makhatchkalá, também correu pelo campo e mergulhou no gramado para beijar os pés do jogador.

O Daguestão é uma das repúblicas mais pobres da Rússia, e tem uma taxa de desemprego de, pelo menos, 40%.

Segundo Kisriev, o objetivo de Kerimov é proporcionar aos jovens uma alternativa longe do caminho do extremismo. Como parte do projeto, o clube irá criar sete centros de futebol para os jovens, trazer treinadores qualificados e construir um novo estádio no Daguestão.

“As pessoas estão rindo, sendo irônicas, mas é preciso entender o aspecto social”, explica Kisriev. “Não estou dizendo que isso é uma panaceia e que vai resolver todos os problemas do Daguestão, mas vai criar um movimento positivo”, completa.

Kerimov tentou assumir o controle do clube há pelo menos três anos, segundo Kisriev, mas isso só foi possível quando o novo e proativo presidente do Daguestão, Magomedsalam Magomedov, entrou no governo.

As relações entre o clube e o presidente permanecem estreitas - apoiar uma autoridade de alto escalão ajuda a atenuar os problemas em uma república geralmente disfuncional.

“Mesmo que não se trate de uma questão propriamente séria, como a venda de água no estádio, ele sempre escuta e tenta ajudar quando os torcedores e a polícia não se entendem”, disse Tchistiakov sobre Magomedov.

No início, poucas pessoas levaram o clube a sério, mesmo depois de ter comprado o jogador brasileiro Roberto Carlos, que foi campeão da Copa do Mundo de 2002. Pelo fato de o jogador ter 38 anos, alguns assumiram que ele queria apenas garantir um último polpudo salário.

Mas a chegada de Eto’o mudou tudo. O camaronês está no auge da carreira e sua inclusão no time poderia atrair outros bons jogadores. O clube demitiu o treinador russo e está ligado aos melhores técnicos de futebol do mundo, como José Mourinho, do Real Madrid, e aos melhores jogadores da categoria.

“Nunca houve nada igual no futebol russo”, diz Bogdanov, editor da seção de futebol no jornal diário Sport Express. “Tudo é possível se os investidores forem pacientes e aplicarem em infraestrutura”, completa.

O clube, que ocupa a oitava posição no campeonato russo, entrou em recesso de inverno no dia 6 de novembro. Quando o campeonato retornar para a segunda parte da temporada, os torcedores poderão ver o quanto é preciso de bola no pé para garantir um lugar na Liga dos Campeões da Uefa.

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