Rússia vive explosão de tango

A Rússia vive uma verdadeira explosão de tango. Todas as noites, milhares de funcionários de escritório dançam o tango, no país organizam-se diversos festivais de tango e abrem-se novos clubes de tango, onde centenas de dançarinos principiantes exercitam suas técnicas: alguns para aprender a se mover graciosamente na pista de dança, outros com a secreta esperança de um eventual namoro.

Cinco anos atrás, Guennádi Gabrielián também era um funcionário de escritório comum, ou mais exatamente diretor de uma agência de viagens, dividindo, como milhares de seus colegas, sua vida entre a casa e o trabalho. Segundo ele, cada pessoa sonha em ter um “ terceiro lugar” entre a casa e o escritório, onde possa ficar por hobby e não por necessidade de serviço.

Um dia, caiu em suas mãos um disco do famoso músico e compositor argentino Astor Piazzolla, autor de centenas de melodias de tango. No período de 1935 a 1955, também chamado de “era de ouro do tango”, foram executadas pelo menos 15 mil variações diferentes dessa dança, das quais apenas cerca de 4 mil chegaram aos nossos dias.

Como diz Guennádi, essa “música revira a alma” de tal modo que o ouvinte não pode permanecer parado e se põe a dançar. No entanto, o dançarino inexperiente deve fazer um curso de tango. Hoje, Moscou tem pelo menos 20 escolas de tango, o que é muito, segundo Guennádi, que já passou por três escolas e acredita ser necessário trocar periodicamente de professor para evoluir como dançarino.

Esse é o terceiro surto de amor pelo tango na Rússia. O primeiro ocorreu no início do século 20. A nova dança tinha muitos apoiadores e muitos críticos, entre os quais o então ministro da Educação, que proibiu até mesmo qualquer menção à dança nos estabelecimentos de ensino “devido a seu caráter obviamente obsceno”. Aliás, o então embaixador da Argentina em Paris também considerava essa dança como anti-argentina e subversiva, o que não impediu que o tango se tornasse um sucesso do país.

Nos anos 20 e 30, já na época soviética, um novo período de paixão pelo tango atinge a Rússia. Apesar de ser fortemente criticada pelo ministério da Cultura  como símbolo do estilo de vida burguês, a dança ganha rapidamente terreno no país e enriquece com obras de compositores soviéticos, consideradas hoje clássicas, como, por exemplo, “Respingos de Champanhe” e “Minha Felicidade”.

Desde o final da década de 40 até meados dos anos 90, poucos além dos dançarinos profissionais se lembravam do tango na Rússia. Agora, o país está vivendo a nova fase da dança. Fóruns de internet dedicados ao tango pululam de comentários, escolas de tango são abertas em Irkustsk, Ekaterimburgo, Samara. Há cinco anos, quando Guennádi começava a estudar o tango, em Moscou havia apenas duas noites de dança por semana. Agora, os saraus de dança acontecem todos os dias. Todos os anos são realizados três ou quatro festivais de tango. No final de outubro, Moscou recebeu a sétima edição do Festival Planetango onde estiveram, entre 300 participantes, cinco pares de argentinos dando aulas de dança.

O festival As Noites de Milangero, evento mais conhecido e normalmente organizado em agosto, reuniu este ano mais de cinco mil pessoas de diversas cidades da Rússia e de outros países.

Anastassía, gerente de uma escola de tango, diz que hoje as aulas são frequentadas por pessoas com idade entre 20 e 60 anos, enquanto antes a maioria dos alunos eram mulheres. Hoje, a proporção de homens e mulheres vem se igualando. Alguns são trazidos por suas namoradas ou esposas, outros, como Guennádi, decidem ir sozinhos. “Um de nossos alunos conheceu o tango por acaso, ao passar por um café onde estava acontecendo uma milonga (baile de tango). Ele gostou e começou a frequentar nossas aulas”, conta Anastassía. As aulas mudaram seu destino: o rapaz conheceu na escola uma moça e agora ambos se preparam para o casamento.

Meu amigo Guennádi mudou completamente sua vida graças a seu hobby. Um ano depois de começar a frequentar as aulas, ele vendeu sua agência de viagens e se entregou inteiramente a sua nova paixão, que o levou primeiro a Buenos Aires e, em seguida, a escrever um livro intitulado “Tango Argentino - Guia do Tangero Iniciante”. O livro traz, pela primeira vez, dicas em russo para quem quer conhecer esse mundo maravilhoso e misterioso. Um caso de amor com o tango pode ser apaixonante e imprevisível.

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