Sonda russa corre o risco de cair na Terra

Ilustração:  Niyaz Karim

Ilustração: Niyaz Karim

A sonda russa Fobos-Grunt (Fobos-Solo) deverá cair na Terra em janeiro de 2012, divulgou o presidente da Agência Espacial Russa (Roskosmos), Vladímir Popóvkin. As chances de estabelecer comunicação com a sonda estão diminuindo, sendo a principal preocupação do pessoal envolvido no projeto saber onde a sonda vai cair e que consequências sua queda pode ter.

Enquanto isso, a sonda Fobos (Phobos significa “medo” em grego) passa bem e se mantém orientada para o Sol. O único problema é que os autores do projeto não previram sessões de comunicação em uma “órbita de apoio”, onde se encontra atualmente a sonda sem conseguir passar para a órbita de lançamento.

“Todos os sistemas da espaçonave estão funcionando bem, a sonda está orientada para o Sol. Estamos tentando saber o que devemos fazer para corrigir a situação”, disse Vladímir Popóvkin.

Mas, daqui a pouco, a sonda começará a descer e o pessoal terá de fazer uma escolha entre corrigir sua órbita ou deixá-la entrar nas camadas densas da atmosfera e cair.

Leia mais:

- Lançamento da sonda espacial Fobos-Grunt

A primeira opção é atualmente impossível, uma vez que o pessoal não pode estabelecer comunicação com a sonda. Portanto, a segunda opção se torna praticamente inevitável. Infelizmente, neste momento, é impossível saber exatamente quando e onde a sonda começará a cair. 

A previsão de que a sonda vai orbitar até inclusive o mês de janeiro, feita por Vladímir Popóvkin, coincide com as previsões do perito canadense independente Ted Molchan, não havendo outras mais exatas. A falta de dados exatos sobre a data da queda da sonda não permite identificar seu local.

“A cada hora, recebemos novos dados. Por isso, vamos saber com bastante precisão o local e o dia para o qual esperamos a queda da sonda”, disse à  RIA-Nóvosti um dos especialistas em balística, que não quis se identificar.

As projeções da trajetória da sonda sobre a superfície terrestre proporcionam uma faixa simétrica à linha do equador de mais de 11 mil km de largura à volta do planeta. Nessa faixa se encontra o último paradeiro da estação avariada. “Essa faixa abrange a metade da América do Norte e do Sul, toda a Austrália, toda a África e metade da Eurásia”, assinalou, em um comentário à RIA-Nóvosti, o editor-colunista da revista “Notícias da Cosmonáutica”, Ígor Líssov.


É difícil dizer como se comportará o propulsor de cruzeiro da estação, abastecido com combustível durante sua descida descontrolada. As principais preocupações estão relacionadas com o combustível, ou mais exatamente o heptila, que ainda permanece nas páginas de jornais em comentários ao acidente do veículo lançador Soiuz e do cargueiro Progress M-12M. Esse propelente é muito nocivo e é capaz de causar mutações genéticas.

As informações disponíveis levam a crer que a maior parte do propelente e os principais elementos metálicos da sonda serão queimados ou dispersos  nas camadas superiores da atmosfera. Portanto, ainda é prematuro dizer que os habitantes do local da queda serão necessariamente atingidos pelo heptila mortal.

“A sonda leva 7,5 toneladas de combustível em tanques de alumínio. Não temos dúvidas de que os tanques irão rebentar quando a sonda entrar nas camadas densas da atmosfera. É pouco provável que alguns fragmentos cheguem à Terra”, assinalou Vladímir Popovkin.


Você nem imagina quantas coisas lançadas pelo homem ao espaço caíram de volta para a Terra...

A astronáutica terrestre tem uma experiência desagradável de perder espaçonaves recheadas de materiais altamente radioativos que são muito mais perigosos do que o heptila.

Na década de 1970, a União Soviética usou satélites de reconhecimento por radar que se colocavam em órbitas baixas e precisavam de muita energia para alimentar seus radares de bordo. O problema foi resolvido com a instalação a bordo de satélites de reatores nucleares de pequeno porte.  

Esses satélites eram usados também como componente orbital do sistema de reconhecimento marítimo e identificação de alvos “Legenda” que permitia aos submarinos soviéticos atingir, com precisão seus alvos (grupos-tarefa de porta-aviões norte-americanos) a uma distância de 400 a 700 km.

Geralmente, ao final do uso dos satélites, seus reatores eram retirados e levados para uma “órbita-cemitério” onde eles permanecem até hoje.

No entanto, em situações de emergência, os satélites caíam na atmosfera terrestre juntamente com seus reatores e seus recheios radioativos. O episódio mais escandaloso ocorreu em janeiro de 1978, quando o satélite Cosmos-954 se desintegrou no espaço aéreo diretamente sobre a região norte do Canadá, espalhando abundantemente seus fragmentos radioativos por um extenso território escassamente povoado a nordeste do Grande Lago do Escravo.

A União Soviética pagou ao Canadá uma indenização de vários milhões de dólares (os montantes variam em diferentes fontes) por dano ambiental.

Outro exemplo: os norte-americanos não se deram o trabalho de recolher uma fonte de radioisótopos com plutônio, desacoplada juntamente com o módulo lunar da Apollo-13 e afundada no Oceano Pacífico.  Os casos de desativação de emergência dos satélites com recheios “sujos” não faltam. A sonda avariada Mars-96, antecessora da Fobos, também levava geradores de isótopos de plutônio.

Resumindo, o leitor nem imagina quantas coisas lançadas pelo homem ao espaço caíram de volta sobre sua cabeça. Nesse contexto, a queda da Fobos é um episódio certamente desagradável, mas não catastrófico, a julgar por suas eventuais consequências. 


Konstantin Bogdanov - comentarista militar da RIA-Nóvosti

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.