Iúri Kozirev: andando pela estrada da revolução

Destemido e talentoso, o fotógrafo russo Iúri Kozirev recentemente ganhou os principais prêmios do Bayeux-Calvados de Correspondentes de Guerra, após ter vencido o Visa d’Or por sua cobertura durante a Primavera Árabe. Segundo os colegas, Kozirev está trilhando seu caminho em direção ao rol dos melhores fotógrafos de guerra.

Em dezembro de 2010, o fotógrafo russo Iúri Kozirev chegou ao Iêmen e se deparou com um país à beira do colapso. Ele pousou na capital Sanaa sem um “facilitador”, termo que os repórteres usam para se referir a um assistente local ou intérprete. Vagando pelas ruas e incapaz de compreender a língua, Kozirev disse ter trabalhado "na constante iminência do fracasso”. Ele era um turista estranho e de aparência suspeita. Ainda assim, suas fotografias – grupos de homens tristes mastigando khat ao entardecer, mulheres nadando com véus e um homem triste carregando um peixe gigante sobre os ombros – anunciam a chegada da guerra civil.

No mês de fevereiro do ano seguinte, os editores de Kozirev na revista “Time” disseram para o fotojornalista ir rapidamente para o Cairo, para documentar as manifestações na praça Tahrir. Até março, ele havia permanecido na Líbia por aproximadamente dois meses, acompanhando os rebeldes que eventualmente derrubariam Muammar Gaddafi. Kozirev se tornou um dos cronistas mais fidedignos dos tumultos no Oriente Médio. Sua reportagem capturou os momentos de ebulição do ano passado no Iêmen, Bahrein, Egito e Líbia.

Neste mês, Kozirev foi o grande vencedor do prestigiado prêmio Bayeux-Calvados de Correspondentes de Guerra, levando, inclusive, os títulos de Melhor Fotógrafo de Guerra e Escolha do Público na cerimônia em Bayeux, na França. No mês passado, o fotógrafo russo havia sido homenageado com o prêmio Visa d'Or no festival de fotografia Visa pour l’image, em Perpignan, também na França. Há várias exposições com os trabalhos de Kozirev por toda a Europa, sem contar as mostras futuras na Croácia, França, Espanha e Reino Unido. Além disso, um novo livro, documentando a guerra do Iraque, será publicado no ano que vem.

“Prêmios e mostras em galerias não significam nada”, disse Kozirev em uma entrevista recente. “A profissão dá às pessoas a oportunidade de expressão. Você tira uma foto, coloca o nome do indivíduo, documenta os acontecimentos históricos do nosso tempo. Todo mundo pode ser fotógrafo nos dias de hoje, mas ‘Eu estou na praça Tahrir’ é uma história diferente da história sobre o povo do Egito na praça Tahrir, que exige muito mais responsabilidade.”

Percorrendo o mundo sem parar, Kozirev é conhecido por ser uma testemunha intuitiva das histórias e acontecimentos humanos. Apenas alguns dias antes da Primavera Árabe, ele estava fotografando e retratando a história de pessoas que escapam das grandes cidades para viver em assentamentos na Sibéria. O cigarro sempre aceso, grandes olhos cheios de vida, histórias sensíveis e táteis contadas em meio a xícaras de chá, viajam de casa em casa, deixando memórias nos amigos que faz durante suas viagens. É essa sensibilidade, bem como sua pura habilidade, que são transmitidos em seu trabalho.

O colega de Kozirev na agência de fotografia Noor, Stanley Greene, disse que “Iúri elevou o nível das reportagens sobre conflitos; ele fez com que todos nós repensássemos como cobrimos essas histórias”. “Ele é um fotógrafo de guerra poético. Suas imagens são cheias de um lirismo e poesia que eu nunca tinha visto antes...Iúri pode vir a ser um dos melhores fotógrafos de guerra.”

 

Um retrato da juventude do fotógrafo

Foto: Iúri Kozirev / Agência NOOR para revista Time

Música: José Bautista | Kanseisounds.org

As fotografias de Kozirev tem um senso de composição profunda e surpreendente – especialmente considerando as condições sob as quais trabalha. Seu primeiro professor, Valiko Arutionov, foi membro de uma comunidade alternativa de fotógrafos na União Soviética descrita no romance de Vasili Aksionov, “Diga X”, sobre os dissidentes soviéticos.

Arutionov foi o mentor de Kozirev. Depois, Kozirev passou a fotografar pessoas em pequenos apartamentos e ocupações, e a retratar o ruído criativo da vida dissidente em Leningrado – agora São Petersburgo. “Aquela era uma época boa, quando minha mulher, Regina, uma talentosa designer, e eu curtíamos nossa vida em uma bolha de maravilhosos artistas alternativos”, relembrou Kozirev.

Mas depois do colapso da União Soviética, Kozirev se afastou de seu círculo e começou a fotografar uma sucessão de conflitos pós-soviéticos na Armênia, Moldova, Tadjiquistão e Geórgia. Desde então, ele não parou mais de registrar conflitos após conflitos. Naquele tempo, segundo ele, teve sorte de encontrar outro orientador, Evguêni Khaldei, ex-fotógrafo do Exército Vermelho que era famoso por sua icônica imagem de um soldado russo erguendo a bandeira soviética sobre o Reichstag, em Berlim, simbolizando a derrota da Alemanha Nazista.

"Khaldei me passou o conhecimento mais importante sobre nossa profissão”, disse. "Nenhuma universidade pode ensinar a importância de voltar aos mesmos lugares repetidas vezes e a documentar a história – para mim, é por isso que fotografamos"

Kozirev é fotojornalista há mais de 20 anos. Ele cobriu todos os principais conflitos na ex-União Soviética, incluindo as duas guerras na Tchetchênia. Ele documentou a queda do Talibã dez anos atrás, e depois viveu em Bagdá por cerca de oito anos antes de voltar a morar em Moscou, em 2009.   

Os jornalistas que cobriram a segunda guerra da Tchetchênia lembram a história de Iusup Magomadov, um garoto de 13 anos seriamente ferido em um bombardeio ao seu vilarejo natal, Novi-Charoi. Ambas as pernas de Iusup foram amputadas. Iúri Kozirev, junto com o escritor holandês Wierd Duk, levou o garoto e sua mãe para se tratar em Moscou. As fotografias publicadas em uma revista holandesa ajudaram a arrecadar dinheiro para as próteses. “Foi a primeira e única vez que eu vi lágrimas nos olhos de Iúri, quando ele estava fotografando os tchetchenos se despedindo de Iusup”, disse Duk. “Eles tinham medo de que os russos matassem o garoto.”

Mari Bastachevski, fotógrafa dinamarquesa que trabalha como freelancer, descreveu o profissionalismo de Kozirev durante as reportagens que realizaram juntos no deserto libanês, na primavera do ano passado: “Ele fica sob o fogo até às nove da noite e depois edita as imagens até meia-noite. E é assim todos os dias”.

O premiado fotógrafo está também orientando profissionais mais jovens. Entre os seus estudantes estão Maria Morina, Olga Kravets e Oksana Iuchko, que estão trabalhando juntas num projeto de documentário chamado “Nove cidades”, que retorna a uma Tchetchênia esquecida. Kravets disse: “Além de ser um excelente fotografo, ele tem um bom olho para o trabalho dos outros”.

Kozirev é conhecido como um jornalista disposto a cobrir manchetes. Suas fotos apareceram em diversas publicações, inclusive na revista "Newsweek" e na publicação "Russia Beyond The Headlines". Cobrir os protestos antigovernamentais nos países árabes para a revista “Time” foi umas das missões mais perigosas de sua profissão. Na Líbia, Kozirev foi baleado e depois espancado pela polícia. Além disso, foi detido em Bahrain e na Arábia Saudita.

Ele perdeu colegas, incluindo seus amigos Chris Hondros e Tim Hetherington, dois fotógrafos mortos em abril durante uma missão em Misrata, na Líbia. Há quem se pergunte por que o fotógrafo de 47 anos continua arriscando sua vida. O editor-chefe de fotografia da revista russa "Russian Reporter", Andrêi Polikanov, é um amigo de longa data. Segundo ele, é o "incondicional, fantástico autossacrifício e fidelidade ao jornalismo" que o mantém motivado a cobrir conflitos e o mantém firme na estrada da revolução.


Anna Nemtsova é correspondente em Moscou para as revistas “Newsweek” e “The Daily Beast.". Nemtsova trabalhou em equipe com Kozirev em diversas missões.

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