Populismo contra o pragmatismo

Foto: Reuters

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Venezuela encara a Rússia como parceiro para a diversificação de sua economia.

O vice primeiro-ministro do governo russo, Ígor Séchin, regressou de uma visita à Venezuela onde vistoriou o andamento das obras da joint venture russo-venezuelana PetroMiranda, estabelecida para a exploração do bloco Junin-6 da faixa petrolífera do Orinoco.

Durante a viagem do governante russo, foram assinados ajustes bilaterais no valor de US$ 8 bilhões, dos quais US$ 4 bilhões são um crédito concedido à Venezuela para a compra de armas russas. Foram também celebrados acordos sobre a cooperação no setor agrícola e bancário e o aumento do capital estatuário do banco russo-venezuelano para US$ 4 bilhões.

Opep - Organização dos Países Exportadores de Petróleo - foi criada em 1960 por iniciativa da Venezuela e é composta pelo Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Venezuela, Qatar, Líbia, Emirados Árabes Unidos, Argélia, Nigéria, Equador e Angola. O objetivo desse cartel petrolífero é a coordenação das ações dos maiores produtores mundiais de petróleo e a manutenção dos preços do petróleo estáveis nos mercados internacionais.

 

Mas o destaque da visita não foi o montante do crédito para a compra de armas russas, mas sim uma nova declaração polêmica do presidente venezuelano. Hugo Chavez propôs ao ministro da Energia russo, Serguêi Chamtko, integrado à comitiva de Ígor Séchin, criar uma aliança de petróleo, similar à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que agrupe quatro ou cinco países líderes mundiais na produção de petróleo, entre os quais a Venezuela e Rússia.  

A Rússia não está entre os apoiadores da ideia de um cartel  de petróleo internacional (possuindo um monte de empresas petrolíferas privadas que não são obrigadas a cumprir metas de redução da produção do petróleo), mas a proposta do líder venezuelano pareceu interessante ao governante russo. Serguêi Chmatko concordou com a tese de Chávez de que a Rússia e a Venezuela são duas potências petrolíferas e que delas depende muito o futuro da produção mundial do petróleo.

O presidente venezuelano não avançou mais no tema da criação de um novo cartel petrolífero, observando, contudo, que essa questão exige uma discussão mais profunda e que a criação de um cartel petrolífero não afetará, em nenhuma circunstância, os interesses dos 12 países membros da Opep da qual a Venezuela também faz parte. De qualquer maneira, a proposta do líder venezuelano de criar um “concorrente à Opep” poderá ser acolhida de sobreaviso pelos demais países exportadores do petróleo.

O governo de Hugo Chávez visa diversificar suas relações econômicas internacionais e se livrar da dependência dos EUA, realizando, para isso, intensos esforços diplomáticos tanto dentro quanto fora da OPEP com vistas à fixação de uma política de preços comum e à manutenção dos preços dos hidrocarbonetos no atual patamar elevado. No entanto, a declaração do presidente venezuelano sobre a eventual criação de uma aliança petrolífera estratégica tem também uma conotação política.

Já que a “Revolução Bolivariana” e o “socialismo do século XXI” proclamados por Hugo Chávez têm como fundamento o antiamericanismo, o governo venezuelano procura reforçar suas relações com países capazes de servir de contrapeso aos EUA, entre os quais a Rússia.

Não é difícil supor que a futura aliança agrupará não tanto as maiores potências petrolíferas quanto os aliados e parceiros tradicionais da Venezuela. Isso poderá ter como consequência a deterioração das relações entre os vizinhos da região e aumento da tensão internacional.

Os países da Opep detêm 40% da produção mundial de petróleo. A Rússia não faz parte da Opep mas participa de seu Conselho de Supervisão. Em 2008, a Opep convidou a Rússia a aderir à organização, mas a Rússia recusou o convite.

A iniciativa de uma aliança petrolífera com a Rússia não passa de uma tentativa da Venezuela de se fazer passar por um ator internacional importante fora da região sul-americana.

A Venezuela sob Chávez conduz uma política externa ativa que já lhe rendeu dividendos sob a forma de aumento de sua  influência na região e no mundo. Todavia, as repetidas escapadas populistas do líder venezuelano provocam a polarização e divisão das alianças e associações internacionais cujos Estados-membros se norteiam pelos princípios do pragmatismo e conveniência econômica.

A própria Venezuela dança na corda bamba entre o populismo e o pragmatismo, combinando, às vezes, seus motivos ideológicos com sua  política econômica. Uma boa ilustração desse fato foi a adesão da Venezuela ao Mercosul como membro associado. Já na cerimônia de adesão, Hugo Chávez disse: “Que o Mercosul morra e nós possamos construir um novo”. Será que a nova iniciativa do presidente venezuelano significa que chegou a hora de construir uma nova OPEP?

De acordo com especialistas da revista Business News, a América Latina detém um terço das reservas mundiais de petróleo pesado, cuja maior parte se encontra na faixa petrolífera do Orinoco, na Venezuela.

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